A espada circular • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 29 de Janeiro de 2016

A espada circular

Estocado em História · Manuscritos

As novas soluções que adotamos aniquilam as soluções que existiam antes. Progredir é destruir mundos mordendo a isca perene de um mundo melhor – mas quem sabe medir o que é melhor?

Tudo que eu queria era escrever um romance: isto é, queria represar uma história entre as páginas de um livro.

Em vez disso fiquei conhecido como blogueiro, mas isso não quer dizer mais nada: com toda a probabilidade você está lendo esta nota não porque acompanha o meu blog, mas chegou aqui através do twitter ou do facebook.

Porque, ouça, as pessoas não leem mais romances. As pessoas não acompanham mais blogs. Romances e blogs são instrumentos e vozes de uma outra era; quando não se calam é por teimosia e por amor à forma, como aqueles diletantes que tiram fotos com rolos de filme ou ouvem discos de vinil porque garantem que o som análogo é superior ao digital: talvez tenham até razão, mas os olhos e ouvidos do mundo estão em outro lugar.

* * *

Não há grande exagero em dizer que o mundo dos blogs aniquilou o mundo dos romances; há então uma definitiva justiça poética em que o mundo dos blogs tenha sido aniquilado pelo que veio depois.

Hoje o facebook e o twitter parecem ser tudo que existe, mas neste mundo esse “hoje” tornou-se particularmente importante. É vital dizer “hoje”, porque amanhã será necessariamente diferente – e amanhã nunca demorou tão pouco para nos alcançar. Novos mundos se rabiscam em incontáveis guardanapos, desabrocham em protótipos e versões beta, e acumulam-se como exércitos no horizonte para conquistar a nossa devoção.

* * *

O que pode ser dito com alguma segurança sobre a solução que adotaremos em seguida é que [1] ela destruirá sem qualquer misericórdia a solução que existe hoje e [2] demorará menos do que a atual para ser destronada e substituída.

O novo mundo requererá a morte do anterior, e eu e você apertaremos o gatilho sem um instante de hesitação.

Todas as vezes.

* * *

Tudo que eu queria, como ia dizendo, era escrever um romance. Eu escrevia em cadernos universitários, mas quando tinha digamos quinze anos meu pai trouxe para casa a Olivetti Studio 44 usada que sua empresa tinha deixado sob sua custódia.

Ou seja, sob a minha.

Desde aquele tempo, apesar das vantagens para mim muito evidentes da máquina de escrever (ou devido a elas), eu gastava mais tempo reescrevendo do que escrevendo. Em dois ou três anos eu considerava concluídos o primeiro capítulo e uma página do segundo (e com concluídos quero dizer que só voltava a reescrevê-los ocasionalmente).

Um dia, et cetera, entrou na minha vida o computador pessoal: uma caixa com um retângulo de luz que passou a habitar o meu quarto e que me chamava sem pausa para experimentar e criar novos mundos.

“Eu entendo o que é importante pra você, Paulão”, disse-me a caixa. Em particular, o computador pessoal me permitia incessantemente subverter, reproduzir, homenagear, corrigir, reformular e simular a coisa que mais me interessava no universo: a página impressa.

A necessária tragédia está em que, sem perceber, eu assumia o meu papel na tarefa coletiva de Destruidor de Mundos – e participava, claro, da destruição do mundo que eu mais amava.

Não só o PC me fez abandonar a velha Olivetti imediatamente e para sempre. A era do computador pessoal terminaria por criar um mundo que encararia como um artefato redundante e alienígena precisamente a página impressa que eu procurava alcançar.

* * *

O único modo conhecido de se iniciar uma nova era é rompendo com a existente, e o modo mais seguro de se efetuar a ruptura é acenando com uma coisa melhor.

É uma palavra muito forte e irresistível, esta, “melhor”. Curioso é que o nosso mundo, que orgulha-se ter aprendido a desconfiar de todos os discursos e ideologias, continua aceitando sem qualquer reflexão ou crítica a atração dessa única palavra, mesmo quando ela não é usada diretamente no discurso.

“Melhor” é um deus estranho e caprichoso. Ele exige que nos dobremos diante de cada coisa a que ele aponta proferindo o seu Nome. Mas não demora (demora cada vez menos) e o deus aponta para uma nova coisa, conferindo a ela o status do seu Nome. É uma liturgia curiosa e exigente, porque a adoração do novo Melhor requer que o Antigo Melhor seja não só rejeitado, mas sacrificado e inteiramente consumido em holocausto. Para que a nova coisa seja devidamente celebrada como Melhor, a Antiga deve ser condenada como Pior.

E dobramo-nos obedientemente todas as vezes, queimando como Pior o que antes celebrávamos como melhor e adotando em peso uma solução alegadamente superior (mas cada vez mais provisória), sem jamais chegar a enxergar a ironia da coisa toda.

* * *

A era do computador pessoal – ou seja, o meu computador pessoal e a minha participação pessoal – patrocinou a aniquilação de mundos que eu amava quando eram vivos, e continuo amando mesmo depois de mortos: o mundo das tipografias, dos tipos móveis, dos letreiros pintados à mão, dos anúncios ilustrados, da mesa de desenho, dos panfletos mimeografados, do cheiro de tinta, das almofadas de carimbo, das camisetas e cartazes em serigrafia, da Letraset, dos envelopes de malote com seu fecho circular, dos lápis e pincéis e estiletes e ecoline e papel vegetal.

Até mesmo as notas fiscais, que retinham no nosso o charme circunspecto e burocrático de um outro mundo (e eram uma das últimas razões para alguém ainda usar papel carbono!) hoje em dia são eletrônicas. Só depois de perdê-las é que fui sacar que mesmo as notas fiscais tinham alma.

Levada ao seu extremo (porque tudo é levado ao extremo) a supremacia do computador pessoal contribuiu para o desfiguramento e o declínio de espaços sociais que eu considerava ainda mais caros e inseparáveis da minha própria identidade: a livraria, o cinema, a biblioteca.

As livrarias que persistem são como as igrejas que persistem: descaracterizaram-se em casas de show e casas de chá a fim de meramente sobreviver. Abraçaram a indignidade de deixar de ser o que eram em troca da ilusão de persistir. Como todos nós, perdem a identidade no desespero de mantê-la.

* * *

A Reforma Protestante nos ensinou o capitalismo em inúmeros sentidos, mas creio que ninguém até agora enfatizou o suficiente o quanto a Reforma nos ensinou a tolerar a ruptura; a considerar a ruptura como coisa cabível, inevitável e até mesmo desejável.

Salvo engano, nunca tanta gente idealista havia tolerado junta a noção de rejeitar sem qualquer clemência ou remorso aquilo que havia considerado importante anteriormente; não com essa magnitude, não com essa paixão. Em comparação, o cristianismo não havia rompido com o judaísmo, nem a igreja do ocidente havia rompido com a igreja ortodoxa: não do modo espetacular, orquestrado, público e irremediável com que os reformadores romperam com a igreja católica.

Um evento similar nunca havia acontecido, em grande parte porque um evento similar não tinha sido até aquele ponto tecnicamente possível; porém o mundo do século XVI era, em muitos sentidos, quase o nosso. A Reforma teve, de fato, as dimensões de mega-espetáculo, de lançamento de produto, de jogada de marketing – com direito a embate de celebridades, ao arrebanhamento de formadores de opinião, a campanhas de propaganda, ao chamamento de nomes, a grupos de controle, a cobertura da imprensa e à disputa pelo ibope. Lutero, que emitia panfletos com maior frequência do que alguns de nós escrevem no twitter, fez uso das novas tecnologias e das mídias sociais do seu tempo de modo a produzir a primeira revolução verdadeiramente pública – isto é, todo-polarizadora, irrefreável e sem qualquer possibilidade de reconciliação – da história.

A Reforma nos vendeu formidavelmente a ideia de que o progresso é irresistível e inclemente e desejável e que as baixas no seu caminho são baixas necessárias. Romper pode parecer duro – afinal de contas, romper é destruir, – mas enquanto não estiver disposto a romper você não estará disposto a comprar.

* * *

Somos gente boa e nos apegamos às pessoas e às coisas; na verdade, apegamo-nos também a ideias, ferramentas e ambientes, até mesmo a processos. A ruptura nos inquieta e preferimos em geral não romper com nada.

Incrivelmente, temos a propensão a viver satisfeitos com as soluções que temos. Deixamos que a nossa identidade se alinhe com elas. Abandonar todo um modo de fazer, todo um universo familiar, requer uma frieza e uma transferência de lealdades que, se parássemos para pensar, nos pareceria um pouco vender a alma. Quem iria querer destruir um mundo?

Mas não paramos para pensar, exatamente nunca, porque nos convence cada uma das vezes o mesmo argumento, velhíssimo e sempre novo, o único argumento incontornável e perenamente eficaz: a persuasão embutida na ideia de “melhor”.

O progresso é um arrastão que não se pode deter precisamente porque é por definição o portador de uma solução superior. Ninguém iria querer destruir um mundo, mas todo mundo quer um mundo melhor. Isso basta: deixamos que as soluções antigas queimem atrás de nós – não porque somos gente sem coração, mas porque a ideia de melhor nos parece tão certa e oportuna, tão inerentemente desejável e irresistível.

“Melhor” funciona, em conceito e em palavra, como um imperativo moral. Sentimos que seria errado, quase moralmente errado, deixar de aceitar, deixar de desejar e deixar de abraçar com avidez uma solução mais conveniente quando ela se oferece. Mesmo quando vemos com o canto dos olhos as chamas consumindo o mundo que deixamos para trás, ninguém é estúpido de resistir ao melhor.

Ou melhor: somos todos estúpidos, porque ninguém para para refletir que ninguém tem como medir – como efetivamente medir – o que é melhor, ou como calcular o seu preço.

* * *

Hoje tenho na minha casinha de madeira três PCs e um laptop; tenho também um netbook que é uma máquina de escrever portátil e comodíssima (onde estou escrevendo esta nota), mas não estou nem um milímetro mais perto de escrever o meu romance.

* * *

Porque, como vimos, o melhor tem se mostrado consistentemente insuficiente. O melhor nunca nos basta, e pelo menos nesse sentido tem se mostrado consistentemente pior, vez após outra. Agora, que demônio nos faz continuar a abraçar a ilusão de que uma nova melhoria, que nos custará um mundo, poderá chegar a nos satisfazer?

O peso ideológico do termo “melhor” é para todos os efeitos o grande imperativo categórico da civilização ocidental: sua supremacia e sua suficiência são a única unanimidade no nosso universo plural, o último artigo de fé comum, sendo que não requer conversão e não admite questionamento.

Como disse-me Bruce Sterling, numa conferência que ele usou para infectar-me com muitas das inquietações que estou tratando aqui:

Os sucessos do progresso tornam-se problemas espinhosos para a geração seguinte: não permanecem permanentemente “melhores”. Nossos juízos de valor sobre o que é melhor são temporários, inteiramente limitados à nossa perspectiva no tempo. Não existe um “melhorômetro”; ninguém tem como medir a extensão, a amplitude e a duração de uma “melhoria”. Melhor é um juízo abstrato de valor, não uma qualidade científica; não pode ser testado experimentalmente. Ninguém sabe o que é melhor; na verdade, ninguém sabe o que é pior. É tremenda ingenuidade acreditar que cada desdobramento tecnológico é necessariamente um avanço.

Ou, como ponderava Jung:

Recusamo-nos a reconhecer que toda coisa melhor é comprada ao preço de uma coisa pior.

Ou Jacques Ellul:

O progresso não é uma ameaça à natureza, mas à liberdade.

* * *

Viajar algumas vezes à Itália me atravessou o coração, me desmontou e me reconstruiu de inúmeras maneiras, mas provavelmente nada me marcou mais do que ver um país inteiro hesitando em romper com o passado.

Não é de se surpreender que, para os nossos padrões, a Itália se encontre em crise econômica – mas, creia-me, trata-se de uma crise que eu queria para mim: que queria para nós. Por razões históricas e sentimentais, por orgulho e por vocação, por genialidade e por teimosia, por preguiça e por temperamento, por convicção e por fatalidade, a relação da Itália com o progresso é no mínimo ambígua.

Minha impressão ao pisar um vilarejo italiano era a de estar tocando uma realidade que se mantinha essencialmente a mesma desde, pelo menos, as décadas de 1930 e 1940 – quem sabe muito antes disso. É claro que os bolsos escondiam smartphones, claro que uma casa ou outra ocultava um computador, mas esteticamente e funcionalmente há pouco rompimento detectável com o modo de vida, o ideal de vida, de 100 anos atrás. As tiazinhas fazem ainda pão em fornos a lenha, os tiozinhos cuidam ainda da horta com cerca de varas de madeira, os novos jovens se encontram no velho bar, e a norma entre todas as idades è deleitar-se com a cozinha, as histórias e o dialeto local. As casas mais novas tem 200 anos, e ninguém acha grande coisa quando a igrejinha local tem mais de 1000. Em geral o único elemento agressivamente contemporâneo da paisagem são os automóveis. As receitas, os vinhos, os cogumelos, os queijos, a arquitetura e os dias de festa são os que se celebravam em cada região desde sempre.

Não quero dar a impressão errada: claro que há indústrias, feiras de design, desfiles de moda, seriados de TV e grupos de rock, mas a cultura tende a dançar com o passado em vez de romper com ele.

É evidente que a Itália que amo vive ligada ao passado com tempo roubado do presente; é claro também que esta subtração tem um preço, mas admiro os italianos ainda mais por essa sua subversão. Em todos os tribunais em que eu tiver uma palavra, a sua coletiva teimosia em adiar indefinidamente o rompimento com o passado lhes será contada como justiça.

* * *

Como Bruce Sterling, sou ainda em parte blogueiro mas não sinto falta do mundo dos blogs e não lamento o seu passamento. Claro, o blog mais distraído tem uma nobreza quase shakespeariana quando comparado a uma conta do twitter, mas isso não quer dizer que a blogosfera tenha sido em qualquer sentido superior ao que existia antes.

Uma civilização que já sequestrou todas as atenções e hoje morre à míngua, obviamente, é a do computador pessoal. Por que alguém iria querer desejar uma caixa que fica presa à sua escrivaninha (quando ficou decidido que tudo que tem valor deve ser portátil), cuja função primária é produzir conteúdo (quando o que todos querem é consumi-lo), que para ser usada como convém requer o manejo conjunto de dois periféricos (quando tablets e smartphones requerem somente os dedos), e que foi feita para ser usado em isolamento – saca, computador pessoal (quando determinou-se que toda a nossa relação com a tecnologia deve ser conectada e social)?

O personal computer destruiu incontáveis modos de fazer mas foi ele mesmo, claro, rejeitado e aniquilado sem qualquer hesitação pela geração tecnológica seguinte. Raramente alguém ainda usa a palavra computador, que um dia representou precisamente aquilo que todos deveriam desejar.

* * *

Como viria a deixar claro a herança da Reforma Protestante, o problema de avançar pela ruptura é que a ruptura não demora a alcançar você. A sua disposição em descartar acaba ensinando ao mundo que você é descartável.

A ruptura inicial da Reforma multiplicou-se em inúmeras rupturas internas ao longo dos séculos, num processo que está longe de terminar. A experiência “protestante” fragmentou-se logo nas primeiras décadas e continua tendendo irresistivelmente à fragmentação. Se você não faz parte da subcultura pode não ter ouvido falar, mas é coisa incrivelmente comum, mesmo nos nossos dias, uma congregação se “dividir” porque seus integrantes discordam entre si sobre algum item da doutrina ou da liturgia.

Jesus, que não ignorava que romper é matar, falava precisamente sobre esse risco quando exigiu que seu discípulo recolhesse a espada: todos que lançarem mão da espada, à espada morrerão. Ou, no vocabulário de Bruce Sterling: quem nasce pela ruptura morre pela ruptura.

O mundo do computador pessoal destruiu o mundo das tipografias, mas o mundo dos tablets e smartphones destruiu o mundo do computador pessoal. Juntos, os dois aniquilaram o mundo venerável da literatura estampada e transmitida em papel. Juntos, estão prestes a ser rejeitados e apagados da existência por uma nova solução.

A espada é circular, e nos penetra pelas costas no futuro quando a usamos para matar o presente.

* * *

No mínimo, deveríamos a esta altura ser capazes de respirar a sobriedade, a consciência de que toda solução é passageira.

Sabe o que não existirá para sempre? A internet. Pelo menos não a internet como a conhecemos, uma experiência que tanto em PCs quanto em tablets é primordialmente de toques e de textos.

O Google Glass – a internet num par de óculos – tentou entrar no mercado em 2014, e não vê a hora de fazer uma nova tentativa, com base no sucesso do do Apple Watch. Essa sorte de internet que se veste envolve menos cliques e menos digitação, porém mais interações de voz e mais opções para o compartilhamento de imagens e de filmes.

A mim a coisa toda soa como um inferno de vigilância universal, mas sou o pessimista da família: sinta-se muito à vontade para me ignorar.

Certo é que o Google Glass ou o wearable em que ele se transmutar vai destruir mundos, mas será fatalmente aniquilado pelo que vier depois. O que nasce pela ruptura morre pela ruptura.

* * *

O cidadão comum vive hoje a experiência que na mitologia e na literatura estava reservada para deuses e androides – seres que, devido à sua incômoda longevidade, podiam testemunhar a ascensão e a queda de civilizações, uma após a outra, adquirindo dessa forma uma certa desilusão essencial, uma definida náusea diante da superficialidade dos empreendimentos humanos.

As civilizações tecnológicas erguem-se e aniquilam-se em ritmo tão acelerado que o fastio imaginado dos imortais é agora real e é o nosso. A única coisa que o Brabo de 1980 consideraria mais improvável do que ver a ascensão do computador pessoal seria ver um dia o seu declínio.

Sou como todos: nada mais nos surpreende, pelo que exigimos e desejamos novidades cada vez mais pirotécnicas que nos mantenham devidamente (isto é, artificialmente) empolgados com esta vida.

* * *

A esta altura meu leitor já deveria me ter interrompido para fazer a pergunta que me faço todos os dias: se nutro tamanha amargura pela tecnologia que matou todas as belezas que me eram familiares, porque continuo a fazer uso dela? Certo, não tenho televisor e prometi a mim mesmo nunca ter um celular (quebrei a promessa), mas fazer uso de alguma tecnologia não é endossá-la toda? Sou por acaso menos Destruidor de Mundos por ser iluminado o bastante para não ignorar o meu papel?

Do que estou reclamando exatamente, se plantei tudo que colhi?

Fico olhando para as cinco barrinhas verticais que representam o status da minha conexão wireless e me pergunto: Brabo, do que você tem medo? O quanto *mais sozinho* você seria se puxasse definitivamente o cabo da internet? Não será o caso, meu amigo, de que você está se tornando aquele velho tão nostálgico que acaba fazendo do passado uma lembrança incômoda em vez de torná-lo digno de nostalgia? E aquele romance, sai ou não sai?

As respostas que produzo não me confortam em qualquer um dos casos.

* * *

Eu estava sozinho, descendo a pé uma colina dos Apeninos, procurando reencontrar a trilha que me levaria à aldeia que que queria visitar, dois quilômetros montanha abaixo. O terreno era pedregoso e tropecei junto a uma brecha na fileira de árvores que eu acompanhava. Por acaso olhei para o descampado em declive que se abria à minha esquerda e vi o sujeito a uns cem metros de mim, um pastor de ovelhas, sentado nas ruínas de muro antigo de pedra, debaixo de um céu limpo e glorioso, o olhar pairando sobre quem sabe duas dúzias de ovelhas espalhadas no pasto diante dele, o rosto imóvel fixo no vale lá embaixo.

Se naquela tarde eu tivesse me deparado com um deus, não teria ficado mais surpreso do que fiquei; sua luz não teria me cegado mais do que cegou-me a luz daquele sujeito.

Sentado precisamente como um rei, de perfil para mim, uma perna estendida para a frente e um pulso apoiado no joelho da outra, a barba alourada reluzindo no ar, o homem devia ter entre quarenta e cinquenta anos e na minha memória ele é de uma beleza devastadora: menos talvez pelo que realmente era, porque não saberia descrevê-lo, mas pela graça e naturalidade da sua pose, o absoluto abraçar da sua condição, sua completa absorção na sua tarefa – que naquele momento era simplesmente existir, formidavelmente existir e só, como uma estátua ou uma obra de arte, como um homem habilmente formado da terra, debaixo do sol.

Era 2010, era na Itália, e vi um pastor de ovelhas que era indistinguível de um deus; ele me cumprimentou muito cortesmente, voltou ao que estava fazendo e segui meu caminho.

 

Este relato foi postado na Forja Universal em 25 de março de 2013

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

Clique aqui para receber as publicações deste sáite por email.

Arquivado sob as rubricas

 

<
>

Depositado em juízo por Paulo Brabo · Desde 2004 · Sobre o autor e esta Bacia · Receba por email · Leia um livro · Olhe desenhos · Vasculhe os arquivos · A amizade continua a mesma no twitter, no Instagram, no Flickr e até no Google+ · Mas não no Facebook · Assine com RSS · Versões digitais dos manuscritos da Biblioteca do Monastério de São Brabo nas Índias Ocidentais · Fale comigo · A Bacia das Almas já não é mais a mesma