A culpa obscurece o que somos • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 07 de Março de 2015

A culpa obscurece o que somos

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Adam Phillips

Lacan disse que havia por certo algo de irônico na de prescrição de Jesus de amarmos o próximo como a nós mesmos – porque na realidade, evidentemente, as pessoas odeiam a si mesmas. Ou poder-se-ia dizer que, dado o modo como se tratam mutuamente, as pessoas têm desde sempre amado o próximo como a si mesmas: com uma boa dose de desprezo e crueldade. “Afinal de contas”, escreve Lacan, “os seguidores de Jesus não foram gente muito brilhante”.

Aqui Lacan está de modo implícito comparando Jesus a Freud, cujos seguidores na opinião de Lacan traíram em grande parte a visão de Freud lendo-o da maneira errada. Pode-se entender que Lacan está dizendo que, sob um ponto de vista freudiano, a história de Jesus sobre o amor era um artifício de acobertamento, uma repressão da ambivalência e uma cura autoimposta a ela. Na visão de Freud nós somos, acima de tudo, animais ambivalentes: odiamos aquilo que amamos e amamos aquilo que odiamos. Se alguém pode nos satisfazer, pode também nos frustrar; se alguém pode nos frustrar, cremos sempre que poderá também nos satisfazer. E quem nos frustra mais do que nós mesmos?

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Porém a nossa porção autocrítica, a parte de nós que Freud chama de superego, tem algumas notáveis deficiências. Nossa porção autocrítica é extraordinariamente bitolada, tem um vocabulário paupérrimo e, como todos os propagandistas, é incansavelmente repetitiva. Ela é cruel e intimidatória (Lacan fala do superego como “obsceno”) e nunca traz novidades a nosso respeito. São duas ou três coisas de que acusamos incessantemente a nós mesmos, e são acusações que se tornaram familiares ao ponto da náusea. É um disco que toca sempre a mesma passagem do passado, e insiste em nos diminuir.

Numa palavra, o superego não tem imaginação – nem a respeito de moralidade, nem a respeito de nós mesmos. Se num ambiente social nos deparássemos com essa figura, com esse personagem acusatório, esse crítico interno, esse incansável apontador de faltas, concluiríamos que há algo de errado com ele. Ele nos pareceria tedioso e cruel. Poderia nos ocorrer que algo terrível aconteceu com ele, que está vivendo na esteira ou na onda de choque de alguma catástrofe. E teríamos razão.

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“O ódio que deveria guiar a vingança de Hamlet”, escreve Freud, “é substituído nele por autoacusações, por escrúpulos de consciência que fazem-no lembrar que ele mesmo não é melhor do que o pecador que quer punir”. Hamlet, na opinião de Freud, volta contra si mesmo a agressão assassina que sente em relação a Claudius: a consciência é a consequência de uma vingança não levada a cabo.

Originalmente havia outras pessoas que queríamos matar, mas como isso é perigoso matamos a nós mesmos através de remorsos, e matamos a nós mesmos para punir a nós mesmos por termos pensamentos assassinos dessa natureza. Freud usa Hamlet para dizer que a consciência é uma forma de assassínio de personalidade, o assassínio diário de um personagem, e através dela nós continuamente, ainda que inconscientemente, mutilamos e deformamos a nossa personalidade. Tão implacável é essa violência interna que não temos ideia de como seríamos sem ela. Nada sabemos sobre nós mesmos, porque julgamos a nós mesmos antes que tenhamos ocasião de conhecer a nós mesmos.

Freud está mostrando que a consciência obscurece o autoconhecimento, sugerindo ainda que essa seja talvez a sua função primária. Quando julgamos o eu ele não pode ser conhecido; a culpa obscurece o que somos sob o pretexto de o estar revelando.

A consciência sente a necessidade de intimidar porque sente-se intimidada. Como um pai nocivo, o superego causa danos sob o pretexto de proteger; serve-se de nós sob o pretexto de prover boa orientação. Em nome da saúde e da segurança cria uma vida de terror e de alienação. Há uma grande diferença entre deixar de fazer alguma coisa pelo medo de punição e deixar de fazer uma coisa que acreditamos ser errada. A culpa não é necessariamente uma boa indicação dos nossos valores; é apenas uma boa indicação daquilo (ou de quem) temos medo.

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Mas como chegamos a esse ponto de encontrar prazer em sermos tratados como objetos pelo superego, e objetos de julgamento e de censura? De onde esse apetite por confinamento, por humilhação, por autocrítica implacável e impiedosa? A resposta de Freud é sedutoramente simples: pelo medo de perder o amor. E o medo de perder o amor implica em proibir certas formas de amar (amor incestuoso ou inter-racial ou homossexual, ou amar o que os pais não amam, e assim por diante). Precisamos, antes de tudo, da proteção e da cooperação de nossos pais a fim de sobreviver. Desse modo fazemos um acordo (um contrato é assinado). O filho diz ao pai: “serei na medida do possível o que você quer que eu seja, em troca do seu amor e proteção”.

Adam Phillips em Abaixo a autocrítica
Se você entende inglês, deve sentir-se muito culpado por não estar lendo o artigo na íntegra.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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