A country without sketchbooks • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 07 de março de 2006

A country without sketchbooks

Estocado em Brasil · The Net

De sua passagem pelo nordeste e pelo Rio de Janeiro em setembro/outubro do ano passado (por ocasião da memorável Expedição Cordel), meu amigo britânico Julian levou pouca coisa. Muitas ilustrações e tacos do Jota Borges, muito mais folhetos de cordel do que planejou e que pode ler numa vida, um pequeno cavaquinho que comprou em João Pessoa. Nem um ex-voto sequer, que poderíamos ter subtraído tão facilmente da Catedral de São Francisco em Canindé.

Julian trouxe-me de presente um guia de Londres (que eu havia pedido) e um coloridíssimo sarongue do Sri-Lanka, que ele ganhara por sua vez de seu amigo Wolfgang.

E trouxe, não para mim mas para registrar a viagem, um sketchbook que ele sacava da bolsa o tempo todo – para esboçar um efusivo casal de velhinhos (ele português, ela cearense) na Praia do Futuro em Fortaleza, os romeiros deitados no canto de uma igreja em Canindé, as folhas de uma palmeira junto da piscina do hotel.

Como havíamos decidido não tirar fotografias (quebramos essa regra uma vez ou duas), o Julian insistiu que eu precisava de um sketchbook só para mim, como instrumento de disciplina artística e correspondência fraternal.

Um sketchbook – livro de esboços – é basicamente um caderno sem pauta, para desenhar, feito para ser carregado com facilidade e possibilitar ao artista fazer esboços rápidos que treinam a agilidade do olho e da mão. Normalmente tem capa dura e é feito de papel livre de ácido, que não amarela e preserva o desenho por mais tempo.

Eu disse que no Brasil não se encontram sketchbooks com qualquer facilidade (eu mesmo nunca tinha visto um), e que se encontrássemos seriam importados. Em toda papelaria que pássavamos, portanto, fosse no Rio ou Recife ou Campina Grande ou Juazeiro do Norte – parávamos para procurar um sketchbook.

Nada.

Lembrando recentemente dessa passagem das nossas aventuras, o Julian definiu o Brasil como a country without sketchbooks – um país sem sketchbooks, – sentença que deve parecer mais dura para ele do que é para nós.

Garantem-me outros amigos de fala inglesa que sketchbooks são coisa relativamente comum em seus países de origem, sendo usados mesmo por quem não sente ter qualquer vocação para artista plástico. Muitos são usados mais como diário ou livro de recortes – coisas que em versões brasileiras teriam, fatalmente, pauta, mesmo se fosse para não ser usada.

Deve haver algum significado profundo nesta nossa aversão a cadernos sem pauta – talvez seja coisa de país de colonização portuguesa. De qualquer forma, o brasileiro em geral não gosta de demonstrar qualquer propensão à arte; qualquer “diletância” nos cheira a afetação e mocinhagem.

Quem visitar meus alojamentos aqui no Monastério não vai encontrar qualquer indício de que desenho e pinto para sobreviver. Nenhum quadro meu na parede, nenhum painel pitoresco com esboços, e todos os papéis e materiais de pintura sensatamente engavetados.

Nenhum sketchbook, a não ser os que minha irmã Alice mandou-me da América do Norte e que tenho pena de usar.

Veja também:
O único sketchbook do Brasil

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.


 

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