A conquista do público e a punição dos indisciplinados • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 17 de maio de 2010

A conquista do público e a punição dos indisciplinados

Estocado em Goiabas Roubadas

Tendo argumentado que o neoliberalismo tem disciplinado o desejo e a imaginação do público, primariamente através de crédito-débito, consumo-acumulação e propaganda, vale à pena agora demonstrar os modos pelos quais o neoliberalismo domina todas as áreas de nossa vida pública. Ele veio em particular a dominar as narrativas e símbolos coletivos, o espaço público, o tempo público, a linguagem e o discurso público e os corpos coletivos.

Para começar, não é surpresa que o capitalismo-como-religião venha a dominar as narrativas coletivas. O ato de contar histórias é, afinal de contas, o cerne de uma cultura e o elemento fundamental de qualquer filosofia, visão de mundo, religião ou sistema de significado. Qual é, então, a forma dominante de se contar histórias dentro do neoliberalismo? A atribuição de marca. Atribuir marca é associar uma narrativa a determinado produto, de modo a que aqueles que consomem esse produto passem a receber sua identidade a partir daquela narrativa, formando dessa forma “comunidades de usuários de marca”. Não existe, além disso, narrativa, símbolo ou história que seja impermeável à atribuição de marca; seu poder é tal que ela é capaz de apropriar-se dos símbolos e narrativas de todas as outras religiões e usar esses símbolos de modo a produzir lucro e consumo1.

Porém todas as narrativas requerem liturgias; liturgias são a narração formativa e a representação física de narrativas basilares. Quando nos diz que “o meio é a mensagem” Marshall McLuhan capturou a importância das liturgias — o modo de se contar uma história é tão importante quanto o seu conteúdo. A liturgia do neoliberalismo é encontrada em (e produzida por) televisão, cinema e mídias de entretenimento popular. Como observa Benjamin Barber:

Hollywood é o contador de histórias do McMundo, e inculca secularismo, passividade, consumismo, vicariedade, impulso de consumo e um ritmo acelerado de vida — não como resultado de seus temas explícitos e enredos em si, mas em virtude do que Hollywood representa e do modo pelos quais seus produtos são consumidos.

Assistir os seus programas diários favoritos é algo tão litúrgico quando ir à missa diariamente; assistir um filme no fim de semana é tão litúrgico quando ir a um culto dominical. A propaganda, no entanto, é o principal meio através do qual o neoliberalismo recita suas narrativas religiosas2.

A proeminência da propaganda demonstra a dominância das narrativas neoliberais; essa proeminência aponta ainda para o segundo modo no qual o neoliberalismo tem conquistado o público: dominando o espaço coletivo. Virtualmente todos os espaços públicos e vias públicas têm sido preenchidos com propaganda ou atribuição de marca de alguma espécie. Além disso, a sede local do neoliberalismo, o shopping center — que funciona para o neoliberalismo como templo e parque temático — demonstra essa conquista do espaço público de outra forma, porque o nascimento do shopping center nos subúrbios ocasionou a morte das vibrantes comunidades que sempre existiram ao redor do centro da cidade.

Além disso, embora a propaganda e o consumo tenham primariamente remodelado o espaço local, a globalização do neoliberalismo tem também ocasionado uma reconfiguração do espaço global. A globalização promove um “mito de catolicidade” que apresenta o mundo como uma “aldeia global” ou um todo unificado, e ao fazê-lo cria um modo de operação em que o verdadeiro espaço permanece rigidamente segmentado3.

Finalmente, não satisfeito em reestruturar o espaço local e global, o neoliberalismo, através de sua aliança com a tecnologia de computação, leva também as pessoas a reimaginarem o seu espaço corporal. Com o surgimento da internet e a criação do espaço cibernético vem a liberação do “Eu” do corpo físico. O resultado de se entrar no espaço cibernético é a perda da materialização corporal e do espaço real, que são trocados pelo engajamento com representações e simulacros de outras pessoas4. Aqui consolidam-se todas as macro e micro reorientações de espaço: no espaço cibernético o espaço global se desintegra e nos tornamos anúncios, propagandas de nós mesmos.

Isso, por sua vez, conduz ao terceiro modo pelo qual o neoliberalismo tem conquistado o público: além de monopolizar o espaço coletivo, ele tem conquistado também o tempo público. Isso é realizado de dois modos fundamentais: para começar o liberalismo econômico tem, até certo ponto, abolido a noção de tempo. E, mais uma vez, a tecnologia de computador tem desempenhado nisso importante papel, em que transações que costumavam levar dias ou semanas podem agora ser realizadas com o clicar de um botão. O resultado primário disso é, paradoxalmente, a perda de tempo de lazer — a perda do descanso. Como o neoliberalismo está fundamentado na noção de competição, o descanso e o lazer, ao invés de serem vistos como parte natural da existência humana, tornam-se algo que é adquirido5. Ironicamente, precisamente porque os momentos de lazer são adquiridos, esses passam a tornar-se sinal de status e foco de competição, e transformam-se dessa forma numa variante do trabalho. Em consequência, muita gente acaba preferindo o trabalho ao tempo livre.

O segundo modo no qual o neoliberalismo conquista o tempo público é apropriando-se do calendário e de todos os festivais públicos. Todas os feriados — Páscoa, Natal, Ano Novo — tornam-se festivais de consumo, do mesmo modo que outras datas — como aniversários — são celebrados primariamente através do consumo. Quer você aceite ou não os símbolos e valores que o neoliberalismo associa a esses festivais, você demonstra lealdade ao capitalismo ao participar deles.

O quarto modo pelo qual o neoliberalismo conquista o público é dominando a linguagem pública e o discurso relacionado à economia. O neoliberalismo estabelece limites sobre o tipo de conhecimento que é permitido (isto é, só é permissível conhecimento descritivo, livre de julgamentos de valor) estabelecendo o tipo de linguagem que é permitida (isto é, a linguagem de maior autoridade é matemática e pode ser expressa pelo uso de linguagem simbólica) e estabelecendo os limites da discussão (isto é, a economia é um campo científico distinto). Esse é um exemplo clássico da observação de Foucault, que ao invés de vermos o poder como produto do conhecimento, deveríamos ver o conhecimento como produto do poder6. Consequentemente, quando um neoliberal como Milton Friedman é questionado sobre o custo social das recomendações econômicas que fez ao general Pinochet, tudo que ele pode dizer é que essa é “uma pergunta tola”. Em conformidade com isso, o neoliberalismo tolera de bom grado vozes dissidentes, porque sabe que qualquer dissidência que permaneça dentro dos limites se mostrará impotente, e qualquer dissidência que violar esses limites será considerada irrelevante7.

Finalmente, o neoliberalismo conquista o público exercendo domínio sobre todos os corpos coletivos. O assalto ao público está fundamentado na antropologia individualista do liberalismo econômico. Ao definir gente como indivíduos, a comunidade tornar-se fraturada num nível essencial. Foucault expressa isso bem8:

O indivíduo não é a contrapartida do poder; ele é, creio, um de seus efeitos primários. O indivíduo não é uma entidade dada e pré-existente que é sequestrada pelo exercício do poder. O indivíduo, com sua identidade e suas características, é produto de uma relação de poder exercitada sobre corpos.

Além disso, quando as pessoas se relacionam umas com as outras primariamente como mercadorias, produtores e consumidores, todo o restante daquilo que compõe a vida da pessoa é relegado para a esfera privada. Consequentemente as noções de sociedade civil, comunidade, política e “vida conjunta” são seriamente enfraquecidas e, de modo geral, reduzidas à esfera de família, colegas de trabalho e amigos mais próximos.

Em ultima instância, esse ataque neoliberal contra os corpos coletivos tem sido agora expresso em seu assalto ao Estado democrático. Em nenhum lugar isso é mais claro do que nos Estados Unidos, onde o liberalismo econômico é mais forte. Cada vez mais é um Estado-corporativo-dentro-do-Estado que tem tomado o lugar do Estado público. Surpreendentemente, os maiores representantes do neoliberalismo já deixaram muito clara essa política. Daí Donald Rumsfeld (então Secretário da Defesa) ter declarado o seguinte num discurso que proferiu a 10 de setembro de 2001:

A questão hoje é um adversário que representa uma ameaça, uma séria ameaça, à segurança dos Estados Unidos da América. Quando falo em adversário posso dar a impressão de estar falando em algo como a antiga União Soviética, mas esse inimigo já não existe mais: nossos inimigos são hoje mais sutis e implacáveis. O adversário está mais perto de casa, e é a burocracia do Pentágono. Declaramos hoje guerra contra a burocracia.

Há, no entanto, uns poucos corpos que se fortaleceram e muito, em vez de enfraquecerem, com o avanço do liberalismo econômico. As corporações multinacionais, em especial, bem como os bancos internacionais, têm conquistado poder cada vez maior na esfera pública — tanto que algumas dessas entidades, não satisfeitas em terem garantidos os seus direitos “humanos”, ganharam também os direitos legais possuídos pelas nações-estado. O resultado é uma crescente predominância das entidades corporativas sobre a esfera pública, na medida em que todos os outros corpos públicos tornam-se impotentes, quando não extintos. Um resultado assim é como o efeito “Pan-óptico” descrito por Foucault9: quando cada um encontra-se, para todos os efeitos, separado de todos os outros, uma troca íntima é estabelecida entre o indivíduo e o poder exercido sobre ele, de modo que o indivíduo, e todos os indivíduos, tornam-se auto-disciplinadores. O público disciplinado é o público habitado e possuído pelo neoliberalismo. Consequentemente, o indivíduo, que vive sob a vigilância constante dos bancos e companhias de crédito, age voluntariamente do modo como requer o sistema neoliberal.

Mas o que acontece dentro do neoliberalismo com aqueles que não se deixam disciplinar ou conquistar? Isso já foi observado com respeito ao que acontece a muita gente nos dois terços do mundo que têm resistido ao neoliberalismo — desapareceram, foram torturados e mortos, — mas no ocidente essas coisas tendem a se desenrolar de modo diverso. No ocidente os sistemas judiciais, penais, psiquiátricos e médicos intervém, e os indisciplinados são com frequência presos, medicados ou institucionalizados; pois, como observa Milton Friedman, “a liberdade é um objetivo sustentável apenas para indivíduos responsáveis. Não acreditamos em liberdade para loucos”. Dessa forma, os que recusam as disciplinas do neoliberalismo são apresentados como marginais, perigosos, imorais ou insanos, e tratados como tal.

Daniel Oudshoorn
Poser or Prophet

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Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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NOTAS
  1. Desse modo um clube de golfe pode ser descrito como “amigável” e um eletrodoméstico como “revolucionário” — e assim por diante. []
  2. Outra revelação da natureza religiosa do neoliberalismo e de suas narrativas é o modo pelo qual os anúncios implantam no consumidor um senso de inadequação, de insegurança, de pecado, culpa ou vergonha antes de apresentar a solução (isto é, a redenção, a absolvição, o alívio, etc) na aquisição de determinado produto (cf. Horsley, 118). []
  3. Sobre a globalização como “mito de catolicidade”, William T. Cavanaugh, Theopolitical Imagination: Discovering the Liturgy as a Political Act in an Age of Global Consumerism (New York: T & T Clark Ltd, 2002), 97-112. []
  4. Seja essa interação através de blogs, sáites de relacionamento como Orkut e Facebook ou através de mundos virtuais como Second Life. Cf. Zizek, On Belief, 48-49, 52-55. []
  5. Cf. Baudrillard, The Consumer Society, 154. []
  6. Cf. Power/Knowledge: Selected Interviews and Other Writings, 1972-1977, ed. by Colin Gordon, trans. by Colin Gordon et al. (New York: Pantheon Books, 1980), 133; Discipline and Punish, 27. Isso levou Lacan a concluir que “o impacto das estruturas de mercado não é nulo no campo da verdade, mas torna-se ali escabroso (Lacan, 33). []
  7. Cf. Chomsky, Necessary Illusions, 48; Baudrillard, The Consumer Society, 194-96. []
  8. Power/Knowledge, 98; Cf. Discipline and Punish, 192-94, 218. []
  9. Cf. Discipline and Punish, 201-202. []
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