A Bacia das Almas

JORGE LUIS BORGES costumava lembrar (citando Alfonso Reyes) que a coisa boa em se publicar livros é que não passamos a vida a reescrevê-los. A Bacia é repositório final de idéias condenadas à reformulação eterna: aqui jazem em tormento incessante as as minhas idéias que não viraram livro – as que já tive, as que roubei, as que passei para a frente e as que me devolveram exigindo o dinheiro de volta.

O nome é Paulo Roberto Purim (Brabo™ é apelido), sou ilustrador e moro no Monastério de São Brabo, perdido numa região remota das Índias Ocidentais.

Esta é a Bacia das Almas, onde as idéias estão condenadas à reformulação eterna.

Brabo é apelido.


Atletas e preparadores físicos não limitam sua atenção às questões do exercício e do condicionamento perfeito; afirmam que há também hora para relaxar – elemento que de fato apresentam como o mais importante do treinamento. Considero igualmente verdadeiro para homens de letras que após períodos severos de estudo devam alongar o intelecto, a fim de estarem devidamente preparados para sua próxima tarefa.

O descanso de que carecem será melhor encontrado num ramo da literatura que não oferece entretenimento puro e simples, dependendo de mera sagacidade ou felicidade de expressão, mas é capaz também de atiçar uma instruída curiosidade – de um modo que espero esteja representado nas páginas que seguem. A proposta é que elas se mostrem atraentes independentemente de qualquer originalidade de tema, felicidade de concepção geral ou verossimilhança na acumulação de ficções. Essa atração encontra-se na velada referência subjacente a todos os detalhes da minha narrativa, que parodiam as inverossímeis histórias dos antigos poetas, historiadores e filósofos. Abstive-me apenas de acrescentar uma chave porque posso confiar que você será capaz de reconhecê-la à medida em que lê.

Ora, sou vaidoso o bastante para acalentar a esperança de deixar alguma herança para a posteridade, e não vejo motivo para abrir mão do direito à liberdade de criação de que outros desfrutam. Como não tenho verdade alguma para registrar, tendo vivido uma vida profundamente monótona, recorro à falsidade – porém uma falsidade de uma variedade mais consistente, pois proferirei agora a única declaração digna de crédito que se deve esperar de mim: sou um mentiroso. Esta confissão é, considero, defesa suficiente contra todas as acusações. Meu assunto, portanto, é o que jamais vi, experimentei ou me foi contado, o que não existe nem poderia concebivelmente existir. Solicito humildemente a incredulidade do leitor.

Luciano de Samósata em Uma História Verdadeira, escrevendo no segundo século da era cristã (125-180 d.C.)

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