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03.05.10

O simulacro da dádiva

Goiabas Roubadas

Tendo demonstrado que o neoliberalismo disciplina tanto o desejo quanto a imaginação, cabe perguntar de que modo o capitalismo consegue realizar isso. Há essencialmente três modos: crédito-débito, consumo-acumulação e propaganda.

O crédito, bem como sua outra metade necessária, o débito, são meios poderosos de se socializar as pessoas dentro de um modo condicionado de existência. Como observado por Baudrillard: “o crédito finge promover uma civilização moderna de consumidores finalmente libertos das coibições da propriedade, mas na realidade institui todo um sistema de controle que alia mitologia social a uma pressão econômica brutal. O crédito representa toda uma esfera social1.” Ele prossegue dizendo que “o crédito é na verdade treinamento sócio-econômico sistemático para gerações de consumidores que teriam de outra forma, numa vida de subsistência, escapado da demanda planejada e não teriam sido exploráveis como poder de consumo. O crédito é um processo disciplinatório2.” O débito torna-se um meio de se escravizar os membros de uma sociedade de modo que, mesmo que não tenham sido integralmente disciplinados, são incapazes de escapar do controle imposto pelas companhias de crédito, com as quais se é obrigatório envolver para se fazer parte da sociedade3. Crédito-débito é a universalização da escravidão aos poderes neoliberais.

Em segundo lugar, o consumo e seu corolário, a acumulação, tornam-se meios de condicionamento porque “o consumidor internaliza a operação do controle social, bem como suas normas, no próprio processo de consumir4.” É significativa a observação de Alfred Marshall de que são novas atividades que dão surgimento a novas vontades, e não o contrário; estamos dessa forma equipados para perceber que é o ato de consumir que nos impele a consumir, e não o contrário5. Consequentemente, enquanto estivermos participando do ciclo de consumo-acumulação estaremos sendo disciplinados pelo neoliberalismo. Dessa forma nos tornamos capitalistas quer “acreditemos” ou não no capitalismo6. Aqui é importante estabelecer uma distinção entre fé e crença. Fé se distingue da crença porque é um compromisso ativo – desse modo, por exemplo, os antigos hebreus aparentemente criam em muitos deuses mas só tinham fé em YHWH. Além disso, embora seja possível acreditar-se numa coisa e não se ter fé nela, também é possível ter-se fé numa coisa sem acreditar nela. Essa, na verdade, é a condição da maior parte dos cristãos que vivem na esfera do neoliberalismo – muitos deles não acreditam no capitalismo, mas na qualidade de consumidores-acumuladores, demonstram sua nele.

Em terceiro lugar, a propaganda é também um meio de se disciplinar o desejo e a imaginação do público. É a propaganda que influencia continuamente os desejos e os gostos dos consumidores. A propaganda, além disso, transforma e torna indistinta a diferença entre um “luxo” e uma “necessidade”. Em última instância, dentro do neoliberalismo, a propaganda funciona como um simulacro da dádiva – porque, afinal de contas, chega até nós sem cobrar nada por isso7. Consequentemente, é necessário perceber que os anúncios são, eles mesmos, objetos de consumo, e que é dessa forma que a propaganda se torna tão efetiva no condicionamento do público. Mais uma vez Baudrillard8:

Embora estejamos talvez nos tornando cada vez mais aptos a resistir à propaganda no imperativo, estamos ao mesmo tempo nos tornando cada vez mais suscetíveis à propaganda no indicativo – quer dizer, à sua existência real como produto a ser consumido num nível secundário e como expressão muito clara de uma cultura.

Por conseguinte, os anúncios são uma forma forçada de consumo – e é precisamente por esse motivo que são concebidos e executados de modo a serem agradáveis, e é por isso que a fronteira entre propaganda e entretenimento se mostra a esta altura quase completamente abolida9.

Daniel Oudshoorn
Poser or Prophet

NOTAS
  1. The System of Objects, 175-76. Bell Jr. acrescenta: “o cartão de crédito suplantou o cartão-ponto como mecanismo dominante de inserção na economia” (Liberation Theology After the End of History, 32). []
  2. The Consumer Society, 81. []
  3. Dessa forma, o débito torna-se aquilo que Deleuze e Guattari chamam de ”inscrição selvagem”, um modo de se marcar e se possuir uma pessoa (Anti-Oedipus, 185-90); cf. Wallis, 50. []
  4. Baudrillard, The System of Objects, 192. []
  5. Alfred Marshall, Principles in Economics: an introductory volume (London: Macmillan, 1920), 76. Daí a observação de Canvaugh, de que “insatisfação e satisfação deixam de ser opostos” (“Consumption, the Market, and the Eucharist”). []
  6. Cf. Deleuze and Guattari, Anti-Oedipus, 375; Massumi, 128-39; James B. Twitchell, Branded Nation: The Marketing of MegaChurch, College, Inc., and Museumworld (New York: Simon & Schuster, 2004), 273. []
  7. Baudrillard, The Consumer Society, 164-65. []
  8. The System of Objects, 180. []
  9. A MTV foi uma das primeiras iniciativas a tornar indistinta a fronteira entre entretenimento e propagada. Basta também pensar nas compilações de “Melhores anúncios” ou “Anúncios mais engraçados” apresentadas na internet e na televisão, ou no merchandising de produtos inserido diretamente nos meios de entretenimento. O filme Transformers, por exemplo, foi financiado por um estúdio de cinema (Dreamworks), uma montadora de automóveis (Chevrolet), uma fábrica de brinquedos (Hasbro) e pelo Exército dos Estados Unidos. []
25.11.09

Nenhum motivo e nenhuma recompensa

Goiabas Roubadas

Ainda Wells, sobre Jesus:

E não era meramente uma revolução moral e social que Jesus proclamava: fica claro por um grande número de indicações que seu ensino tinha uma inclinação política muito manifesta. É verdade que ele disse que seu reino não era deste mundo, e situava-se no coração dos homens e não sobre um trono; porém fica igualmente claro que em todo o lugar e na medida em que seu reino se estabelecesse no coração dos homens, o mundo exterior seria naquela mesma medida revolucionado e renovado.

O que quer que a cegueira e a surdez dos seus ouvintes tenham deixado de captar das suas palavras, é muito evidente que não deixaram de captar sua firme resolução de revolucionar o mundo. Todo o método da oposição levantada contra ele, bem como as circunstâncias de seu julgamento e execução, demonstram claramente que para seus contemporâneos ele parecia estar propondo sem rodeios, e de fato propôs sem rodeios, alterar e fundir e alargar toda a vida humana.

Em vista das coisas que Jesus disse claramente, será de espantar que todos que eram ricos e prósperos tenham intuído um horror de coisas insólitas, o naufrágio iminente de seu mundo diante do seu ensino? Ele estava arrastando todas as pequenas reservas que eles haviam levantado contra o serviço social e trazendo-as para fora, para luz de uma vida religiosa universal. Ele era como um terrível caçador moral que forçava a humanidade para fora das cômodas tocas nas quais tinham vivido até aquele momento. No esplendor branco do reino dele não deveria haver propriedade alguma, privilégio algum, nenhum orgulho e nenhuma preferência; nenhum motivo e nenhuma recompensa que não fosse o amor. Será de espantar que os homens se tenham ofuscado e cegado e clamado contra ele? Mesmo seus discípulos clamavam em protesto quando ele não os poupava da luz. Será de espantar que os sacerdotes tenham percebido que entre este homem e eles mesmos não havia outra escolha, senão que ele ou o sacerdócio teriam de perecer? Será de espantar que os soldados romanos, confrontados e estupefatos diante de algo que se alçava muito além da sua compreensão e ameaçava todas as suas disciplinas, tenham buscado refúgio na risada selvagem, tenham-no coroado de espinhos e vestido de púrpura e feito dele uma versão de César da qual pudessem caçoar? Pois levá-lo a sério era adentrar uma vida estranha e intimidadora; era abandonar hábitos, controlar instintos e impulsos, era ensaiar uma incrível felicidade.

H. G. Wells, Breve História do Mundo (1922)

Wells encontra Jesus

  1. Uma ousada e intransigente demanda
  2. Mapeando o Deus que não faz barganhas
  3. Nenhum motivo e nenhuma recompensa
26.10.09

Este cosmos desolado, parte 2

Livros

Criar um grande mito popular é criar um ritual pelo qual o leitor aguarda impacientemente e ao qual pode retornar com prazer crescente, seduzido cada uma das vezes pela repetição de diferentes termos, imperceptivelmente alterados a fim de permitir que ele experimente uma nova intensidade de experiência.

Colocadas dessa forma as coisas parecem quase simples, mas são raros os sucessos deste gênero na história da literatura. Na verdade, não é mais fácil criar-se uma nova religião.

Para demonstrar claramente o que está em jogo, seria necessário experimentar pessoalmente o clima de frustração que invadiu a Inglaterra diante da morte de Sherlock Holmes. Conan Doyle não teve escolha além de ressuscitar o seu herói. Lovecraft, que admirava Conan Doyle, teve êxito em criar um mito igualmente popular, vívido e irresistível.

As histórias de Sherlock Holmes giram ao redor de um personagem, enquanto em«A literatura não é atividade adequada a um cavalheiro.» Lovecraft não se encontra nenhum espécime verdadeiramente humano. Naturalmente esta é uma distinção importante, mas não verdadeiramente essencial, comparável à que separa religiões teístas de ateístas. A característica fundamental que as une, seu caráter religioso, é de resto difícil de definir e de se elucidar diretamente.

Outra pequena distinção que pode ser feita – mínima para a história literária, trágica para o indivíduo – é que Conan Doyle teve abundante oportunidade de perceber que estava criando uma mitologia essencial. Lovecraft não. No momento de sua morte ele tinha a clara impressão de que sua obra criativa mergulharia na obscuridade juntamente com ele.

Não obstante, ele já tinha discípulos – mas não que pensasse neles assim. Lovecraft correspondia-se com jovens autores (Bloch, Belknap Long e outros), porém não necessariamente os aconselhava a assumirem a mesma trilha que havia assumido.

Não se apresentava como mestre ou como modelo. Saudava as primeiras aventuras dos principiantes com delicadeza e modéstia exemplares. Era cortês, atencioso e gentil, mostrando-se seu verdadeiro amigo e nunca professor. Absolutamente incapaz de deixar uma carta sem responder, abstendo-se de exigir pagamento quando seu trabalho de revisão literária deixava de ser reembolsado, sistematicamente subestimando sua contribuição a histórias que sem sua intervenção jamais viriam à luz, Lovecraft portou-se como um autêntico cavalheiro ao longo de toda a sua vida.

Ele, naturalmente, gostava da idéia de tornar-se escritor, porém não apegava-se a esse sonho em detrimento de todo o resto. Em 1925, num momento de desânimo, confessava: “Estou muito perto de tomar a resolução de não escrever mais histórias, mas meramente sonhá-las quando der por bem, jamais rebaixando-me a algo tão vulgar quanto colocar o sonho por escrito em benefício de um público porcino. Cheguei à conclusão de que a literatura não é atividade adequada a um cavalheiro, e que escrever nunca deve ser considerado mais do que um empreendimento elegante ao qual se deve ceder apenas com infrequência e com critério.”

Felizmente Lovecraft continuou a escrever, e suas melhores histórias foram escritas depois dessa carta. Porém permaneceu até o fim, como gostava ele mesmo de descrever-se, um velho e gentil cavalheiro de Providence. Nunca, jamais, um escritor profissional.

Paradoxalmente, a personalidade de Lovecraft permanece fascinante em parte porque seus valores são tão diametralmente opostos aos nossos. Fundamentalmente racista, abertamente reacionário, Lovecraft glorificava as inibições puritanas e, obviamente, considerava repulsivas todas as “manifestações eróticas diretas”. Decididamente anticomercial, desprezava o dinheiro, considerava a democracia uma tolice e o progresso uma ilusão. A palavra “liberdade”, tão apreciada pelos americanos, inspirava-lhe apenas uma gargalhada triste e sarcástica. Ao longo de toda vida Lovecraft sustentou uma postura tipicamente aristocrática, desdenhosa com relação à humanidade em geral e extremamente generosa com relação aos indivíduos em particular.

Qualquer que fosse o caso, todos que de alguma forma se relacionavam com Lovecraft como indivíduo sentiram imensa tristeza quando souberam de seu falecimento. Robert Bloch disse que se tivesse sabido do verdadeiro estado da saúde física do amigo teria se arrastado de joelhos até Providence para vê-lo. August Derleth dedicou o restante de sua existência a reunir, compilar e publicar os fragmentos póstumos de seu amigo falecido.

E é graças a Derleth e alguns outros (porém principalmente Derleth) que o corpo da obra de Lovecraft acabou impactando o mundo. Hoje sua obra ergue-se diante de nós como imponente estrutura barroca, seus elevados estratos içando-se em inúmeros círculos concêntricos superimpostos, ostentando cada um largo e suntuoso patamar – sendo que o todo circunda um vértice de horror puro e absoluto assombro.

> O primeiro círculo, o mais exterior, corresponde a sua correspondência e seus poemas. Estes permanecem apenas em parte publicados, e ainda mais parcialmente traduzidos. A correspondência é particularmente vertiginosa: quase 100.000 cartas, algumas das quais chegam a 30 ou 40 páginas. Quando aos poemas, uma estimativa presente da sua quantidade não existe.

> Um segundo círculo conteria as histórias das quais Lovecraft participou – seja as que foram concebidas dede o primeiro momento como colaborações (como as histórias que escreveu com Kenneth Starling e Robert Barlow, por exemplo) ou as demais, cujos autores podem ter se beneficiado das revisões de Lovecraft (há dentro dessa categoria um número extremamente grande de casos; o teor da colaboração de Lovecraft variava, e algumas vezes representava uma reelaboração completa do texto). A essas podemos acrescentar ainda as histórias escritas por Derleth com base nas notas e fragmentos deixados por Lovecraft.

> No terceiro círculo chegamos às histórias escritas na prática por Howard Phillips Lovecraft. Neste caso, naturalmente, cada palavra conta; todas foram publicadas em francês e não devemos esperar que seu número total chegue a aumentar.

> Finalmente, podemos delinear muito distintamente um quarto círculo, o absoluto cerne da mitologia de Lovecraft, que contém aquilo que os mais apaixonados lovecraftianos continuam a chamar, a despeito de si mesmo, de “grandes textos”. Devo citá-los pelo prazer puro e simples de fazê-lo, juntamente com a data de sua composição:

  • O chamado de Cthulhu – The Call of Cthulhu (1926)
  • A cor que caiu do espaço – The Colour Out of Space (1927)
  • O horror de Dunwich – The Dunwich Horror (1928)
  • Um sussurro nas trevas – The Whisperer in Darkness (1930)
  • Nas montanhas da loucura – At the Mountains of Madness (1931)
  • Os sonhos da Casa das Bruxas – The Dreams in the Witch House (1932)
  • Uma sombra sobre Innsmouth – The Shadow Over Innsmouth (1932)
  • Sombras perdidas no tempo – The Shadow Out of Time (1934)

Além disso, suspensa sobre o castelo da obra de Lovecraft, como uma névoa espessa e instável, paira a insólita sombra de sua própria personalidade.É natural que se erga um culto ao redor de figura que obsequia com tamanhos benefícios. É possível que alguém ache um tanto exagerada, ou mesmo mórbida, a atmosfera de culto construída ao redor de sua pessoa, de seus gestos e atividades e até mesmo do mais insignificante de seus fragmentos escritos. Posso no entanto garantir que essa opinião estará fatalmente destinada a uma revisão depois de um mergulho nos seus “grandes textos”. É natural que se erga um culto ao redor de figura que obsequia com tamanhos benefícios.

E foi o que fizeram sucessivas gerações de lovecraftianos. Como sempre acontece, “o recluso de Providence” tornou-se agora figura quase tão mítica quando uma de suas criações. E o que é mais surpreendente é que todas as tentativas de desmistificá-lo fracassaram. Nenhum grau de detalhamento biográfico foi capaz de dissipar a aura peculiar de páthos que cerca seu pessoa.

A obra de Lovecraft pode ser comparada a uma ciclópica máquina de sonhos, de alcance e eficácia estarrecedores. Não há nada de tranquilo ou discreto em seus textos. Seu impacto na mente do leitor é selvagemente e assustadoramente brutal, bem como perigosamente vagarosa para dissipar-se. A releitura não produz nenhuma alteração notável nessa impressão, até que acabamos nos perguntando: como ele consegue?

No caso específico de H. P. Lovecraft não há nada de ridículo ou ofensivo nessa pergunta. Na verdade, o que há de distintivo em sua obra em relação a uma obra “normal” de literatura é que seus discípulos podem sentir-se capazes, pelo menos em teoria, através do uso judicioso dos mesmos ingredientes indicados pelo mestre, de obter resultados de qualidade comparável ou superior.

Ninguém jamais considerou seriamente a idéia de dar continuidade à obra de Proust, mas a obra de Lovecraft sim. E não se tratam de obras secundárias apresentadas como homenagem, nem tampouco de paródias: representam verdadeira continuação, e portanto caso único na história da literatura contemporânea.

Não apenas isso: o papel de gerador de sonhos assumido por Lovecraft não se limita apenas à literatura. Sua obra, pelo menos na mesma medida em que a de Robert E. Howard (embora de modo menos evidente), tem sido fator preponderante na renascença da ilustração de fantasia. Até mesmo a música rock, normalmente tão suspeitosa de tudo que é literário, fez questão de prestar-lhe homenagem – homenagem, pode-se dizer, prestada de um grande poder a outro, de uma a outra mitologia. Quanto às implicações da obra de Lovecraft nos domínios da arquitetura e do cinema, estas serão imediamente aparentes para o leitor atento. Trata-se da construção de um novo mundo.

Daí a importância dos materiais e das técnicas de construção: a fim de prolongar o impacto.

Michel Houellebecq
H. P. Lovecraft: Against the World, Against Life

Leia também:
O horror de argila
Post mortem
O depoimento de Randolph Carter
A fraternidade das letras

Lovecraft contra o tempo

  1. O bloco amarelo
  2. Benjamin Franklin em 1935
  3. Este cosmos desolado
  4. Este cosmos desolado, parte 2
02.10.09

Foi mais ou menos nessa época

Manuscritos

86

Foi mais ou menos nessa época, um ou dois anos antes de ser remetido para a faculdade, que fui atingido no peito por um texto implacável em forma e conteúdo: a curta novela A fera na selva, de Henry James.

O protagonista de A fera na selva é um sujeito que vive uma existência de tédio e frivolidade na expectativa de um grande evento ou fatalidade que, ele sente, irá quando ocorrer defini-lo e justificá-lo para sempre. O protagonista não sabe dizer o que será ou quando será, mas com o passar dos anos pressente cada vez mais nitidamente a aproximação desse acontecimento terrível ou redentor, essa “fera na selva” que espreita na beira do seu caminho para lançar-se sobre ele no momento oportuno.

Naturalmente, nada jamais acontece ao protagonista de A fera na selva, e eis seu aguardado evento e sua contradição. Tudo que lhe é conferido experimentar, sua única e degradante aventura, é sua própria vaidade e sua infértil expectativa.

Mesmo naqueles dias entendi que o livro servia como metáfora inversa de mim mesmo. O protagonista do livro dedicara sua vida à busca de sua fera na selva; eu sabia que gastaria a minha tentando esquivar-me dela.

Foi necessária uma vida inteira para que eu descobrisse que não há diferença.

Nasce um homem

  1. Era uma vez
  2. Adão era
  3. A teoria literária
  4. Para mim
  5. Se havia improvável graça
  6. O conflito que anima uma história
  7. A primeira blasfêmia
  8. Eu sentia ser minha obrigação
  9. Como demonstrado exemplarmente por Jesus
  10. De todos os detalhes
  11. A distinção mais antiga
  12. O homem em pé no centro
  13. Quando levantei-me do lugar
  14. Ele tinha o mundo natural aos seus pés
  15. Dois ou três personagens não bastam
  16. A proibição extrai seu poder
  17. Para caracterizar uma tragédia
  18. Pisei no andar térreo
  19. Você pode comer
  20. Um professor errante depara-se com um homem cego
  21. Nenhum outro elemento da trama
  22. Toda história sobre transgressão
  23. De todos os sonhos de que me recordo
  24. Não devemos deixar
  25. A chave, obviamente
  26. É curioso notar
  27. Para começar
  28. Neste ponto
  29. Com a entrada da serpente
  30. Dos enigmas da serpente
  31. Porém quando percebo
  32. A serpente é astuta
  33. A narrativa é límpida
  34. A serpente permanece um enigma
  35. Quando olho tempo suficiente
  36. O silêncio da história
  37. Outro resultado
  38. Individuação
  39. É o momento decisivo
  40. A ausência divina
  41. É uma pista falsa
  42. Não se trata
  43. Uma donzela encontra na floresta uma perigosa serpente
  44. A hora é agora
  45. Porque – e ignoro quantas vezes terei de voltar
  46. Alcançar a individuação
  47. Eva recua
  48. Deus sabe
  49. O motor do conflito
  50. A grande revelação
  51. Transgredir
  52. A obra da serpente
  53. Onde está a maldade
  54. O que me faz lembrar
  55. A transfiguração do conflito
  56. Que são a imitação e o jogo de espelhos
  57. O que esta história existe para mostrar
  58. É por isso
  59. É o último momento
  60. Quando volto à recordação
  61. O efeito imediato
  62. Como numa comédia de erros
  63. Minha primeira transgressão
  64. É só do lado de cá
  65. A esse princípio
  66. Não nos deverá
  67. A coisa boa
  68. Se o conflito é a graça
  69. A transgressão original
  70. Transgredir é escolher
  71. No espaço recém-aberto da minha transgressão
  72. Em si mesmo nada há de terrível
  73. O conceito teológico
  74. Bastaria a morte
  75. A ambivalência do poder
  76. A maldição do pó
  77. Há algo de terrível na autodeterminação
  78. Minha disciplina pessoal mais antiga
  79. Essa crueza
  80. Não é completa
  81. Essas histórias
  82. Na noite de ontem para hoje
  83. O outro símbolo universal
  84. A serpente é mentirosa
  85. O primeiro desdobramento
  86. Foi mais ou menos nessa época
  87. Todas as lendas
  88. Minha convicção
12.01.09

A depravação da humanidade

Goiabas Roubadas

NOÉ: A depravação da humanidade

Com a expansão da humanidade a corrupção acentuou-se. Enquanto Noé era vivo os descendentes de Sem, Cão e Jafé apontaram um príncipe para governar cada um dos três grupos: Ninrode sobre os descendentes de Cão, Joctã sobre os descendentes de Sem e Feneque sobre os descendentes de Jafé. Dez anos depois da morte de Noé o número de pessoas sujeitas aos três príncipes era da escala de milhões.

Quando esse enorme contingente de homens, em suas incursões, chegou à Babilônia, disseram uns aos outros:

– Vejam, chegará a hora em que, no fim dos dias, vizinho se apartará de vizinho e irmão de irmão, e travarão guerra uns contra os outros. Venham, construamos para nós uma cidade, e uma torre cujo topo chegue até o céu; dessa forma faremos com que nosso nome se torne celebrado sobre a terra. Agora fabriquemos tijolos, e cada um escreve seu nome sobre o seu tijolo.

Todos concordaram com essa proposta, exceto os doze piedosos, entre eles Abraão, que recusaram-se a juntar-se aos outros. Esses foram agarrados pelo povo e levados diante dos tres príncipes, aos quais forneceram a seguinte razão para a sua recusa:

– Não fabricaremos tijolos, e tampouco permaneceremos com vocês, pois não reconhecemos nenhum outro além do único Deus, a quem servimos. Ainda que vocês nos atirem no fogo para queimar com os tijolos, não abraçaremos a conduta de vocês.

Ninrode e Feneque foram tomados de tamanha fúria pela posição dos doze homens que resolveram atirá-los ao fogo. Porém Joctã, além de ser temente a Deus, era parente próximo dos homens que estavam sendo julgados, e tentou salvá-los. Joctã propôs a seus dois colegas que concedessem a eles um postergamento de sete dias. Tal era a deferência que lhe era concedida como primaz entre os três, que seu plano foi aceito. Os doze foram encarcerados na casa de Joctã.

De noite ele mandou que cinquenta de seus servidores colocassem os prisioneiros montados sobre mulas e os levassem para as montanhas, para que escapassem à punição. Joctã proveu-lhes sustento para um mês; ele estava convicto de que nesse meio tempo o sentimento com relação a eles iria mudar, ou o próprio Deus ajudaria os fugitivos.

Onze dos prisioneiros assentiram com gratidão a esse plano. Apenas Abraão o rejeitou:

– Vejam, hoje fugimos para as montanhas a fim de escapar do fogo, mas se animais selvagens das montanhas nos atacarem e devorarem, ou se a comida faltar, teremos sido apanhados pelo povo da terra em fuga e morrendo em nossos pecados. Ora, tão certo quanto vive o Senhor, em quem confiamos, não sairei deste lugar no qual eles me aprisionaram, e se for o caso de que deverei morrer pelos meus pecados, morrerei pela vontade de Deus, em conformidade com o seu desejo.

Em vão Joctã tentou persuadi-lo a partir, mas Abraão permaneceu firme em sua recusa. Ficou sozinho, deixado para trás, na prisão domiciliar, enquanto os outros onze empreenderam sua fuga. Ao término do período de remissão, quando o povo voltou exigindo a morte dos doze cativos, Joctã só tinha Abraão para apresentar a eles. Como desculpa, disse que os demais haviam conseguido fugir durante a noite.

Quando o povo estava prester a agarrar Abraão e atirá-lo no forno de cal, houve de repente um terremoto e uma língua de fogo lançou-se para fora da forno. Todos que estavam ali ao redor, oitenta e quatro mil pessoas, foram consumidos, enquanto Abraão permaneceu intocado. Ele então foi ao encontro de seus onze amigos nas montanhas e relatou-lhes o milagre que havia ocorrido em seu favor. Voltaram todos com ele e, sem serem molestados pelo povo, deram louvor e graças a Deus.

* * *

Lendas dos Judeus é uma compilação de lendas judaicas recolhidas das fontes originais do midrash (particularmente o Talmude) pelo talmudista lituano Louis Ginzberg (1873-1953). Lendas foi publicado em 6 volumes (sendo dois volumes de notas) entre 1909 e 1928.