Este documento contém clipes de áudio que só podem ser ouvidos na página da Bacia na internet.
Uma antiga tradição mística insiste que Deus criou o mundo através da música. Não é de admirar que a metáfora da música como criadora nos pareça tão convincente, visto que novos mundos são criados a cada harmonia que ouvimos.
From harmony, from heavenly harmony,
This universal frame began.
Through all the compass of the notes it ran,
The diapason closing full in man[A partir da harmonia, da celestial harmonia,
Teve início a estrutura deste universo.
Percorrendo todas as notas do diapasão,
Encontrou no homem sua plena expressão]
John Dryden (1631-1700), musicado por Handel
* * *
O efeito da música é muitas vezes mais poderoso e penetrante do que o das outras artes, pois aquelas falam da sombra, mas a música da essência.
Na música o que reconhecemos não é a cópia, a repetição de uma ideia da natureza interna do mundo. A música é compreendida de modo tão completo e profundo pelo homem interior que chega a representar uma linguagem inteiramente universal; seu caráter distintivo ultrapassa até mesmo o do mundo da percepção.
Arthur Schopenhauer (1788-1860), em O mundo como vontade e representação
* * *
Depois de tocar Chopin me senti como se tivesse chorado pecados que nunca cometi e lamentado tragédias que não são minhas. A música sempre produz em mim esse efeito. Ela cria um passado do qual somos ignorantes, e enche-nos com o senso de uma tristeza que tem permanecido oculta de nossas lágrimas. Posso com facilidade imaginar um homem que tenha vivido uma vida perfeitamente ordinária, ouvindo por acaso alguma curiosa peça de música e descobrindo de repente que sua alma, sem ter consciência disso, havia experimentado terríveis experiências e conhecido formidáveis júbilos, fantásticos amores ou enormes renúncias.
Oscar Wilde (1854-1900), em O crítico como artista
* * *
A música, os estados da felicidade, a mitologia, os rostos trabalhados pelo tempo, certos crepúsculos e certos lugares querem nos dizer algo, ou algo disseram que não deveríamos ter perdido… essa iminência de uma revelação que não se produz será, talvez, o fenômeno estético.
Jorge Luis Borges (1899-1986), em Otras Inquisiciones
Crossroads Quartet, That Lucky Old Sun




