19 de Janeiro de 2011

Qual mito

Confiscado por   Paulo Brabo

 

Estocado em Goiabas Roubadas

Os mitos, portanto, não são ilusões ou ficções. Tampouco são cientificamente, objetivamente, “verdadeiros”. Não têm como ser verdadeiros nesse sentido porque não existe uma realidade “lá fora” com a qual possamos comparar nossos mitos, do modo como comparamos uma hipótese com os resultados de uma experiência científica. Mais precisamente, não existe um “lá fora” porque não somos capazes nem de começar a enxergar esse “lá fora” sem o auxílio dos óculos providos pelo mito. Para dizer de outra forma, não temos como escapar de nossa humanidade. Temos de levar conosco um mito – algum mito; se não for um será outro. Sem a obra ordenadora dos mitos, não podemos sequer começar a encontrar um sentido para o mundo. A questão não é com mito ou sem mito, mas qual mito, qual mecanismo organizatório ou estrutural escolhemos usar.

O rabino Neil Gillman, em The Death of Death (1997)

Não existe experiência humana do mundo que seja totalmente objetiva. Construímos a realidade, quer seja a simples percepção de uma maçã ou da mais complexa das teorias científicas. Para essa tarefa trazemos tudo que nos faz quem distintamente somos, nossa composição genética, nossa bagagem cultural e educacional e as pressuposições intuitivas, quase pré-conceituais, de como é o mundo. Percebemos o mundo não através dos olhos, mas através do cérebro, que aplica estruturas interpretativas ao que é transmitido pelos sentidos. Essas estruturas são análogas a mitos. Mitos estruturais são com frequência acompanhados de mitos narrativos; os primeiros descrevem a estrutura, os segundos contam como ela se originou. A psicanálise freudiana combina as duas coisas, bem como a astronomia.

Os mitos, portanto, não devem ser contrastados com fatos. Ao contrário, os mitos são o meio pelo qual nos tornamos capazes de identificar fatos significativos. Quanto mais esquivos são os fatos, quanto mais os dados fogem da percepção humana direta, mais inevitável e indispensável é o mito (como, digamos, a teoria das supercordas, a teoria psicanalítica, a narrativa bíblica do Êxodo e da criação e a escatologia). Em todos esses casos, o mito postula um mundo invisível que explique aquilo que somos capazes de ver. Os mitos, portanto, informam o trabalho de cientistas, historiadores e teólogos.

O mesmo Gillman, em The Problematics of Myth

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Versões digitais dos manuscritos da Biblioteca do Monastério de São Brabo, nas Índias Ocidentais.
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