A necessidade emocional por um escape das certezas terrestres permanece, para uma minoria definida e permanente, genuína e por vezes acentuada.
Em meus esforços para cristalizar essa ânsia de conexão com o cosmo, tento utilizar o maior número possível dos elementos que, debaixo de condições mentais e emocionais anteriores, forneceram ao homem um senso do irreal, do etéreo e do místico – escolhendo os menos atacados pelas realistas condições mentais e emocionais do presente. Trevas – entardecer – sonhos – névoas – febre – loucura – a tumba – as colinas – o mar – o céu – o vento – todas essas e muitas outras coisas parecem ter retido uma certa potência imaginativa apesar das existentes análises científicas delas. Em conformidade com isso, tenho procurado costurá-las numa espécie de vaga fantasmagoria que pode ter a mesma vaga coerência de um ciclo tradicional de mito ou de lenda – tendo como nebuloso pano de fundo Antigas Forças e entidades trans-galáticas que espreitam este planeta infinitesimal (e naturalmente outros), estabelecendo aqui postos avançados e ocasionalmente eliminando outras formas acidentais de vida (tais como seres humanos) a fim de estabelecerem completa habitação. Esta é essencialmente a noção prevalente na maior parte das mitologias raciais – porém uma mitologia artificial pode tornar-se mais sutil e mais plausível do que uma natural, por ser capaz de reconhecer e adaptar-se à informação e ao espírito da época presente.
[...] Tendo formado um panteão cósmico, resta para o fantasista conectar esse elemento “exterior” à terra de forma adequadamente dramática e convincente. Isso, tenho ponderado, se faz melhor através de alusões indiretas à imemorialidade de cultos e ídolos antiquíssimos e de documentos que atestem o reconhecimento de forças “exteriores” por parte de homens – ou por daquelas entidades terrestres que precedem o homem.
O efetivo clímax de contos baseados nesses elementos estão naturalmente relacionados a repentinas intrusões contemporâneas de antiquíssimas forças esquecidas na superfície plácida do conhecido – quer sejam intrusões efetivas ou revelações causadas por febris e arrogantes sondagens do desconhecido por parte de homens.
Com frequência a mera sugestão de que essas antiquíssimas forças esquecidas possam existir consiste na espécie mais efetiva de clímax – na verdade não estou certo, mas talvez essa seja a única espécie de clímax possível numa fantasia genuinamente madura. Tenho recebido inúmeras críticas pela natureza concreta e tangível de alguns de meus horrores cósmicos. Variantes do tema geral incluem falhas nas leis visíveis do tempo – estranhas justaposições de eras amplamente separadas – e transposições das linhas limítrofes do espaço euclidiano; esses dois e o sempre frutífero artifício de uma viagem humana para o interior de interditas profundezas celestiais. [...] O sobrenatural deve ser idealmente sugerido em vez de abertamente apresentado, e maravilhas impossíveis devem dentro do possível consistir de hipotéticas extensões da realidade em vez de contradições óbvias e diretas dela.
H. P. Lovecraft, refletindo sobre seu método
em carta de 22 de setembro de 1932 a Harold S. Farnese
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