O emissário da Sé passou no seminário três noites e dois dias, tendo sido em tudo acompanhado pelo padre reitor. Folheando devagar um molho de chaves, o reitor mostrou-lhe cada sala e cada passagem, demorando-se quando necessário para levantar histórias, espantar seminaristas e indicar reformas no prédio. Juntos percorreram o jardim privado, entre as roseiras que havia plantado o próprio fundador, juntos colheram nectarinas e ameixas vermelhas no pomar ensolarado atrás do refeitório. Disseram entre as estantes da biblioteca escura nomes de autores que não chegavam a ter em comum, e de comum acordo não tocaram as lombadas dos livros. Andaram lado a lado pelos corredores, avaliando um ao outro com minúcia e cortesia, as mãos conciliadas nas costas, e no fim de cada dia comeram sozinhos na sala de jantar da casa reitoral, separados por uma garrafa de vinho.
Na última noite, após o jantar, o emissário baixou o garfo sobre os ossos de duas codornas e ergueu a taça até a altura do nariz.
– Quando você me fala do rigor das reformas morais que está pensando em instaurar, e na severidade das punições que está planejando aplicar, não consigo deixar de lembrar do conselho que diz-se davam os filósofos aos antigos imperadores de Roma.
– Que conselho? – o padre reitor ainda sorria recostado em sua cadeira, mas já estava incerto sobre se devia manter o bom humor.
– Basicamente, os sábios aconselhavam os imperadores a conterem a sua sede por justiça e a agirem com misericórdia, especialmente no que diz respeito a transgressões de menor monta. Uma perseguição por demais rigorosa dos imorais, explicavam eles, acabaria revelando à sociedade que os transgressores são na verdade mais numerosos do que os cidadãos cumpridores da lei. E esse é um segredo que deve ser mantido oculto a todo custo, porque revelá-lo poderia inspirar a maioria de transgressores a sublevar o governo e dominar a minoria de cumpridores da lei. Daí a necessidade de cautela, e de clemência por parte dos governantes.
– Estamos por certo falando de um tempo – o padre reitor esvaziou a sua taça e saboreou o vinho – antes que a gravidade do sacrifício evangelical convocasse o mundo a uma moral mais elevada e exigente.
– Isso sem qualquer dúvida – cedeu o emissário, e escondeu os lábios na curva da taça.
Na manhã seguinte, enquanto tomavam café, a mala do emissário aguardava em pé junto à mesa. Despediram-se cordialmente e o emissário partiu no carro que lhe mandara a arquidiocese.
Duas horas depois do almoço o padre reitor foi interrompido em seu gabinete por um seminarista de cabelos ralos e aloirados, que explicou-lhe pela porta entreaberta que o emissário de Roma estava ali para vê-lo. Quando o rapaz desapareceu no corredor o lugar na porta já estava ocupado pelo italiano.
– Esqueceu alguma coisa? – O padre reitor ergueu-se um palmo da cadeira e indicou o assento à sua frente. – Sente, por favor.
O emissário recusou com um gesto pouco paciente da mão.
– Venha comigo você, padre reitor, quero mostrar-lhe uma coisa.
O reitor baixou sobre a mesa os papéis que trazia em ambas as mãos e juntou-se ao emissário no corredor.
– O que você me diria – o emissário começou, as mãos unidas na frente do corpo – se eu lhe dissesse que há neste seminário um lugar que você não conhece, mas que seus seminaristas conhecem bem, e onde por vezes se reúnem para discutir conduta que você jamais aprovaria?
Não houve na resposta qualquer traço de hesitação.
– Eu pediria para ser levado até esse lugar.
– Venha comigo – sentenciou o emissário, e o reitor seguiu-o ao longo das arcadas.
Do lado de fora, quando viraram a esquina do edifício e postaram-se diante dos portões de ferro do jardim privado, o reitor mergulhou a mão no bolso e puxou o molho de chaves, mas o emissário indicou com a mão que não seria necessário.
– Esta manhã, logo que saí daqui – disse o emissário, – fui até o bispo Omar e confessei-me com ele. Disse a ele que eu e você dormimos juntos. Disse que eu e você fizemos amor durante os três dias em que estive com você aqui.
O reitor deixou cair o molho de chaves.
– O que você está dizendo?
– O bispo está sob o peso do sigilo da confissão. Fiz ele prometer que não vai perseguir a questão de forma alguma. Ninguém vai ficar sabendo. Nada vai mudar para você.
O reitor tomou o braço do emissário e usou para apertar-lhe a garganta, como faria com uma faca.
– Você não sabe o que está dizendo. Vamos até lá e você vai se retratar agora mesmo. O bispo Omar é meu amigo, o que ele vai pensar?
– Ele não vai pensar, ele vai saber. Sua ficha é limpa demais, isso pesa automaticamente contra você. Você não é ingênuo o bastante para ignorar isso.
– Ninguém vai acreditar – o reitor soltou o braço do outro e fitou o vazio.
– Só o bispo vai saber, mas ele vai acreditar – o emissário ajeitou o colarinho. – Ele não tem como esquecer as confissões das mulheres a que você resistiu quando era pároco, e que angariaram para sua fortitude em relação a elas uma força de lenda. As lendas, você sabe, dizem muito. E há o fato de você ser reitor de um seminário. E há o caso do seminarista italiano, aquele que vim para ajudar a esclarecer…
– Isso é uma afronta! Você mais do que ninguém sabe que foi ele quem tentou me seduzir!
– E eu não culpo o rapaz – confessou gentilmente o emissário. – Não pendo nessa direção, mas entendo a tentação que um homem como você pode representar. E não condeno você por se achar melhor do que os outros.
– Deus é testemunha da minha integridade diante de tudo isso.
– Deus – corrigiu o emissário – é testemunha da sua falta de clemência. Mas agora é a sua vez de suportar a disciplina.
– Do que você está falando?
O emissário deu um passo para trás, de modo a alinhar-se com a esquina do prédio.
– O seminarista foi enviado para testar a sua virtude. Eu fui enviado para corrigi-la.
E deu as costas, deixando o padre reitor ali em pé, olhando para as mãos.





