Manuscritos estocados em Julho do Anno 2011 de Nosso Senhor
30 de Julho de 2011

Suzanne Cleary & Peter Harding

Pormenor

We No Speak Americano

29 de Julho de 2011

Outro estudo de Deus

Ilustração

Para aquele livro (não meu) sobre a criação que não chegou a sair. A ideia – toda a ideia – era representar um Deus proletário, de mãos calejadas, sem qualquer finura: algo a meio caminho entre um pedreiro e um jangadeiro (também aqui, aqui, aqui e aqui. Baseado em fatos reais, especialmente aqueles que dizem respeito a Deus.

 

26 de Julho de 2011

A sonegação da graça

Livros

Os capítulos censurados de Culpa e Graça

 

É conhecida a observação do Abade Mugnier que, quando lhe perguntaram se acreditava no inferno, respondeu: “Certamente acredito nele; mas também acredito que não há ninguém lá.” Isso me parece mais do que um lampejo espirituoso. É um ponto de vista que é inerente a toda a perspectiva da Bíblia, de que a severidade e as ameaças de Deus – ou o que o homem em seu remorso atribuem a Deus – são destinadas a nada menos que a sua salvação e a conservá-lo fora do abismo.
Um dos textos censurados do livro de Paul Tournier. Três capítulos e este parágrafo foram suprimidos na edição brasileira.

 

Ele está lá, o número 22 na lista de Ricardo Quadros Gouvêa dos quarenta livros que fizeram a cabeça dos evangélicos brasileiros nos últimos quarenta anos. Uma edição despretensiosa, a capinha azul ciano coroada por um austero retângulo preto, uma tradução por vezes truncada e uma redação nem sempre fluente. Nada disso impediu que Culpa e Graça, do médico suíço Paul Tournier, se mostrasse no meio evangélico brasileiro um livro absolutamente seminal: uma semente, mas uma semente cuja potência e singeleza bastaram para produzir nos leitores o seu próprio solo fértil – o tipo de obra cuja onda de impacto se estende muito além dos limites das páginas e da data de publicação.

Rolava ainda a década de 1980 quando encontrei o livro no apartamento da minha tia Lauriza e rendi-me imediatamente à sua lucidez. Lembro claramente meu assombro ao deparar-me, expostos ao ar livre, sem meias medidas mas com toda a compaixão, com os mecanismos que eu havia lutado desde sempre para permanecerem ocultos no meu interior.

“Minha irmã é tão categórica em suas opiniões”, disse-me uma senhora, “que me sinto sempre um pouco culpada se não tenho a sua opinião”. E uma outra: “Eu chego a evitar ir visitar a minha irmã, porque no momento em que quero ir embora, ela diz: ‘Como? Já vai?’, com um tom de reprovação que até me faz sentir culpada”.

Que direito tinha esse sujeito de falar publicamente de mim (e das minhas irmãs)? E logo em seguida:

Porque a verdadeira culpa é, essencialmente, você não ousar ser você mesmo. É o medo do julgamento dos outros que nos impede de sermos nós mesmos, de nos mostrarmos tal como somos, de manifestarmos nossos gostos, desejos e convicções, de nos desenvolvermos, de nos expandirmos segundo a nossa própria natureza, livremente. É o medo do julgamento dos outros que nos esteriliza, que nos impede de produzir todos os frutos que somos chamados a produzir. “Fiquei com medo” diz, na parábola dos talentos, o servo que escondeu o seu talento na terra, em lugar de fazê-lo valorizar.

Meu Deus, meu Deus: a verdadeira culpa é você não ousar ser você mesmo. E ainda estávamos no segundo capítulo.

Culpa e graça foi lançado no Brasil em 1985, pela Aliança Bíblica Universitária (ABU). Essa versão resiste ao tempo e circula teimosamente em sua forma original (o livro da minha tia transita há décadas entre a minha casa e a dela; às vezes, como agora, não temos certeza de com quem ele está), em cópias reprográficas e em versões pirateadas.

O que pouca gente sabe ou percebeu é que, por alguma razão que os editores não declaram no livro (e, que eu saiba, em nenhum outro lugar) os três últimos capítulos da versão original foram suprimidos da versão brasileira. A explicação mais simples e mais provável para essa omissão é que os textos em questão foram considerados fortes ou heterodoxos demais para o público a que se dirigia. Os dois últimos capítulos da versão brasileira, numerados 20 e 21, são intitulados Tudo deve ser pago e Foi Deus quem pagou – e já são bastante subversivos em si mesmos, mas aparentemente os capítulos seguintes iam ainda mais longe.

Há quase dois anos venho sonhando em rastrear, traduzir e divulgar esses capítulos proibidos, como parte do meu ministério de ver o circo pegar fogo. Poupou-me desse trabalho e dessa glória o Zenon Lotufo Junior, que mandou-me há alguns dias esses textos, na tradução de seu amigo Antonio Augusto Martins Ribeiro. Seu conteúdo subversivo você pode agora avaliar por si mesmo pela primeira vez.

Há por exemplo, o capítulo 24, A ordem de Melquisedeque, com sua ênfase num sacerdócio universal que transcende a esfera da igreja e a engloba. Há o capítulo 23, O caminho da confissão, que sugere que a graça é tão ampla e eficaz que qualquer um pode imprimir, e sobre qualquer um, a divina absolvição. E há em especial o capítulo 22, Amor incondicional, que demonstra que Tournier pensava sobre a graça, em 1962, essencialmente o mesmo que J. Harold Ellens pensa nos nossos dias: é a natureza incondicional do amor divino que possibilita a cura humana – Deus não tem ninguém na sua lista:

Portanto, insisto na palavra “incondicionalmente”, porque ela me parece muito importante na prática. A maioria das pessoas admite que, se há um Deus, Ele deve nos amar. Mas existe uma diferença decisiva entre um grande amor, ou um amor muito grande, ou um amor muito, muito grande e um amor que é incondicional. É a distância que existe entre o que é finito, seja tão grande quanto for, e o que é infinito.

Todas essas posições, bem como a menção, como mera possibilidade, de que a função do inferno é permanecer vazio (conforme a anedota do Abade Mugnier que abre esta nota), podem ter parecido controversas ou pouco ortodoxas o bastante para justificarem a censura.

Resta porém a possibilidade de que o motivo da supressão tenha sido ainda mais prosaico e mais mesquinho. Afinal de contas, o universalismo de Tournier parece ficar bastante estabelecido no capítulo 21, que não foi censurado da versão brasileira:

Salvação não é mais uma idéia remota de perfeição, para sempre inacessível; é uma pessoa: Jesus Cristo, que veio a nós, veio para ficar conosco, em nossas casas, em nossos corações. O remorso é silenciado pela sua absolvição. Todos os homens podem se beneficiar desta expiação única; todos os homens, de fato, “todo o mundo” como João afirmou (1 Jo 2:2). Jesus Cristo morreu por todos sem qualquer distinção, para homens de todas as idades e regiões, para hindus, para budistas, para muçulmanos, para pagãos e para ateus; basta que nele creiam.

Não é impossível, portanto, que a raiz da controvérsia tenha sido as duas ou três ocasiões em que, no capítulo 22, Tournier sugere que os católicos acolhem e aplicam de modo menos neurótico do que os protestantes a boa notícia da graça:

É significativo o que um dos meus pacientes protestantes tenha dito: “O protestantismo me parece com um enorme esforço para se ganhar a graça pela boa conduta, enquanto que o catolicismo distribui esta mesma graça a todo aquele que a procura com um padre”.

Também aqui:

O moralismo restabeleceu a ideia de mérito, de uma graça que é condicional. E, em certos círculos protestantes, estas condições se proliferaram tanto e ficaram tão rígidas que se tornaram opressivas.

E aqui:

Em um dos círculos intelectuais católicos, um teólogo, Jean Guitton, afirma que “uma das implicações da doutrina cristã da graça é a natureza gratuita dos dons que são oferecidos a nós”. Fico agradavelmente surpreso ao vê-lo acrescentar que “esta é uma implicação sobre a qual os protestantes pensam, talvez com mais frequência do que nós”. Infelizmente, tenho a impressão que esta homenagem ao protestantismo seja imprecisa.

E aqui:

Contudo, noto uma maior proporção de pessoas oprimidas por esta deturpação entre os protestantes do que entre os católicos.

Pois, como eu mesmo já tive ocasião de aprender, em muitos círculos evangélicos desafiar abertamente a ortodoxia é visto como pecado menor do que mencionar o catolicismo numa luz positiva. Essa imprudência, em conjunto com a ameaça de ecumenismo do capítulo 24, podem ter representado a ofensa sem perdão que mereceu o silenciamento de Tournier.

O que é certo é que Paul Tournier (1898-1986) não escreveu Culpa e graça para gerar controvérsia ou para produzir uma revisão na ortodoxia. Seu propósito declarado foi ensinar seus colegas médicos a tratarem seus pacientes como gente – aquela postura que viria a ser conhecida como “medicina integral” e da qual Tournier é um dos mais celebrados precursores.

Tournier sonhava com um dia em que os médicos deixassem de olhar seus pacientes como pedaços de carne que só carecem de cura física, um dia em que os cristãos deixassem de ver as pessoas como almas desencarnadas que só carecem de salvação.

Os médicos já estão fazendo a sua parte.

* * *

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Os capítulos censurados de Culpa e graça (tela cheia)

25 de Julho de 2011

Jorge Bertolaso Stella: o humanismo de um pastor protestante

Goiabas Roubadas

Alguns líderes eclesiásticos cristãos, principalmente aqueles com maior influência na mídia, pautam sua atuação de acordo com valores claramente fundamentalistas. Além da constante luta contra causas humanistas, como o virulento embate direcionado aos direitos elementares da comunidade LGBT tão bem exemplifica, baseiam suas pregações religiosas na exclusividade.

São mestres na arte de demonizar o diferente. Fundamentalistas supostamente mais refinados, através de uma rigorosa análise teológica, qualificam irmãos da mesma tradição religiosa com rótulos absolutamente ultrapassados. Tal estratégia visa apenas aniquilar os supostos heterodoxos, alijando-os da instituição que tanto amam.

O outro grupo de fundamentalistas, mais popular e com forte penetração nas massas religiosas, não possui um discurso teológico tão “sofisticado” quanto o primeiro, mas através de uma forte presença midiática,
Apaixonado pela cultura hindu, foi responsável pela primeira tradução acadêmica do Bhagavad Gita.
aliada às inegáveis qualidades retóricas, arrebanha para si a opinião do vasto público religioso.

Tal realidade se faz presente em todos os grupos cristãos, do catolicismo-romano até a mais recente igreja neopentecostal.

Assim, nos dizeres do padre e sociólogo católico Pedro Ivo Oro, reproduzem o conhecido discurso de que “o outro seja o demônio”. O outro, no caso, é todo aquele que não se enquadra na suposta ortodoxia dominante, a saber: o seguidor de uma crença não cristã, o ateu, o agnóstico, o ecumênico, o simpatizante da teologia da libertação, o liberal, o neo-ortodoxo e etc.

Sabemos que a divergência no mundo das ideias não é apenas aceitável, mas é ferramenta fundamental para o desenvolvimento humano. Como bem dizia Nelson Rodrigues, “toda unanimidade é burra”. No entanto, os fundamentalistas não encerram suas divergências no âmbito do pensamento, mas levam essas diferenças naturais ao ponto mais extremo, acabando, literalmente, com a vida de seus oponentes.

Diante deste triste quadro, é interessante trazer à memória a biografia de modernos líderes cristãos que trilharam um caminho visceralmente oposto ao citado acima. Este é o caso do saudoso Jorge Bertolaso Stella.

Italiano de Abadia, cidade localizada na província de Parma, nasceu em 1888, chegando ao Brasil com apenas três anos de idade. Junto com seus familiares, estabeleceu-se no interior de São Paulo. De origem católico-romana, abraçou o protestantismo de orientação reformada, «Eu defendo a ordenação da mulher.»tornando-se pastor evangélico em 1919. Destacou-se como pastor por quase trinta anos na Primeira Igreja Presbiteriana Independente de São Paulo, comunidade mãe de todo o presbiterianismo paulista.

Sua formação intelectual é digna de nota. Teólogo formado, adquiriu real interesse pela filologia, sendo fluente no grego e hebraico. Tornou-se especialista em línguas absolutamente complexas, como o basco e o etrusco. Não obstante seu apurado conhecimento nessas línguas, sua principal contribuição à cultura brasileira reside no fato de ser o primeiro intelectual brasileiro a dominar o sânscrito, milenar língua indiana.

Apaixonado pela cultura hindu, foi responsável pela primeira tradução acadêmica do Bhagavad Gita, principal livro sagrado do hinduísmo. O trabalho de Stella foi além da tradução, contendo comentários históricos, lingüísticos e teológicos a respeito do clássico indiano. Seguindo esta linha, publicou vários estudos a respeito da cultura e religião do povo indiano. Detinha, ainda, um amplo conhecimento sobre budismo e jainismo. Defensor de um verdadeiro diálogo interreligioso, Stella distinguia-se do evangélico padrão brasileiro. «Buda, Zoroastro, Moisés, Maomé e Cristo são intérpretes de Deus.»Sua visão das crenças não cristãs não era marcada pela tradicional apologética. Além de considerá-las como manifestações naturais da religiosidade humana, analisava as mesmas com o rigor acadêmico de um verdadeiro historiador da religião.

Mesmo não concordando com o ateísmo, respeitava-o como forma de pensamento, ressaltando que o caráter de uma pessoa independia de suas convicções religiosas.

Foi professor emérito da cadeira de História das Religiões do antigo Seminário Teológico da Igreja Presbiteriana Independente do Brasil, localizado em São Paulo, e membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo.

Também participou de inúmeras comissões tradutoras da Sociedade Bíblica do Brasil. Como especialista em assuntos bíblicos, sua opinião a respeito da formação do cânon demonstra seu espírito científico e progressista. Para Stella, a Bíblia, mesmo sendo Palavra de Deus, foi composta através de um longo processo cuja influência de textos provenientes de outras culturas foi determinante. Desta forma, leis contidas no Pentateuco, por exemplo, foram inspiradas no conhecido Código de Hammurabi. Em suma, houve um intercâmbio entre a antiga cultura hebréia e a de seus vizinhos orientais. «Como fruto nutritivo do cristianismo apareceu, na igreja primitiva, o comunismo. A natureza é comunista e altruísta. Deus é comunista.»Esta constatação é inaceitável para grupos fundamentalistas, pois destrói a ideia de uma revelação pura e restrita ao antigo povo de Israel.

Além de importantes obras de teor teológico, filológico e historiográfico, Bertolaso Stella tinha como máxima divulgar seus pensamentos em breves opúsculos, quase todos publicados pela saudosa Imprensa Metodista. O importante não era manter-se restrito ao seleto círculo de teólogos, acadêmicos ou intelectuais, mas divulgar seu conhecimento para o verdadeiro público alvo de um ministro religioso, a igreja. Abordaremos, brevemente, alguns temas debatidos por Jorge Bertolaso Stella.

1 – Direitos da Mulher

A Igreja Presbiteriana Independente do Brasil, denominação a qual Bertolaso Stella esteve ligado até o final de sua vida, apenas admitiu mulheres ao oficialato pleno, isto é, presbiterato e pastorado, em 1999. No entanto, desde o início de sua vida pastoral, sua defesa em prol do ministério feminino foi uma marca distintiva. Sobre este assunto escreveu no livreto “A Primeira Igreja Presbiteriana Independente de São Paulo e a Renovação”, datado de 1974, os seguintes dizeres:

Eu defendo a ordenação da mulher para o santo ministério, sim, mulheres pastoras. Deus chama as mulheres para o ministério ou pastorado. Esse Ser Eterno escolhe a quem quer e quando quer para sua obra santa. É um erro pensar que Deus somente escolhe homens para o pastorado. Nós nunca demos à mulher o lugar que ela realmente merece. Preconceitos, estreiteza de mente e ignorância, muitas vezes têm impedido que ela exerça a tarefa de que é digna e capaz. A mulher em coisa alguma é inferior ao homem. A mulher é a natureza para significar que ela é tudo. No código indiano das Leis de Manu, encontramos esta expressão: a mulher é imagem da terra. Aquela gente, bastante antiga, já conhecia o valor da mulher.

2 – Transitoriedade de doutrinas e dogmas

Ao contrário da postura fundamentalista, Jorge Bertolasso Stella defendia que determinadas doutrinas são passiveis de revisão, devendo evoluir de acordo com o ser humano. Deus não seria estático:

Existem doutrinas, princípios e praxes que precisam de uma revisão, são obsoletos e tiveram razão de ser somente em determinada época. O volume não é pequeno e constitui uma carga pesada para a Igreja, que ameaça ir ao fundo como o navio, descrito no livro de Atos.

3 – Humanismo

Claras ideias humanistas são expostas no livreto Um Só Mundo, publicado em 1957:

A humanidade é uma só. Os mares, lagos, rios, montanhas, vales e outra qualquer coisa, não podem dividir o mundo em partes separadas. Essa separação existe somente na superfície. No fundo, tudo é igual. As conquistas são imorais. Tudo deve ser para todos. Há terra, ar, luz que constituem o ambiente e pertencem a qualquer criatura enquanto viver. Não é humano uma nação, uma família ou um indivíduo apossar-se de uma parte do mundo, de uma região ou de uma parte da terra e abandonar os outros seres, deixando-os na penúria, sem trabalho, sem terra para cultivar, semear e viver. Em regra, o que motiva a guerra, que é câncer da humanidade, é justamente a noção de pátria, nação e povo.

Encontramos no trecho acima uma clara crítica ao espírito nacionalista e xenófobo.

Os seres humanos constituem uma irmandade na face da terra. Não importa a cor da pele, costumes diversos pelo ambiente e mesmo tendências diferentes. Todos os homens são irmãos e por isso devem se amar, banindo o egoísmo e cancelando a guerra, que significa a destruição da grande família humana.

4 – Defesa dos animais

Em uma época em que este tema sequer era ventilado, encontramos em Mensagens Evangélicas:

Ama os animais, com os quais tens muita afinidade. Tu também és um animal. Eles compreendem a tua linguagem e tu entendes a deles. Possuem um corpo: sede da dor e do prazer. Eles amam e odeiam, choram e riem como tu, pedem e oferecem, nascem e morrem. Belo é o provérbio que reza : – O justo olha pela vida dos seus animais (Provérbios 12.10).

Fiel às descobertas científicas, o pastor ítalo-brasileiro afirma a existência de sentidos nos animais.

5 – Posicionamento socialista e democrático

Como fruto nutritivo e apreciável dessa árvore frondosa, que se chama cristianismo, apareceu, na igreja primitiva, o comunismo. A Natureza é a mestra do homem e os seus ensinos são diretrizes da vida. Não podemos despregar os olhos dela. A natureza é comunista e altruísta. Deus é comunista. Ele criou tudo para todos. Segundo Gênesis 1:29-30, a terra, a água, o ar e a luz pertencem a todos. A criança nasce comunista. Ela se apodera de tudo quanto à cerca, não conhece restrições. A primeira família humana, da qual todos descendem, era comunista. Religiões e grupos há, que praticam o comunismo, por ser expressão do amor e da união. O comunismo cristão que estou tratando aqui, nasceu de persuasão, não da imposição. O seu princípio basilar era expresso com esta frase : “o que é meu é teu”. Não estava em voga a outra frase que o apresenta assim, por alguns: “o que é teu é meu”.

Interessantes essas colocações de Bertolaso Stella. Publicadas em Conceitos Religiosos, de 1976, portanto em pleno regime militar, assumem uma postura claramente esquerdista. No entanto, como bom humanista, ele diverge do tipo de comunismo “à lá soviético”, onde tais ideais eram impostas por uma estrutura autoritária.

6 – Crítica ao cristianismo institucionalizado

Suas críticas ao cristianismo de sua época são mordazes e contundentes:

O cristianismo atual fracassou. É um cristianismo capitalista e egoísta, repleto de viúvas e velhos pobres, famintos e miseráveis.”
Conceitos Religiosos, 1976

O Cristianismo de Cristo não carece de reforma, nem de ser substituído. O cristianismo dos homens, que é cheio de especulações filosóficas, teológicas e doutrinárias, esse, sim, precisa ser reformado, digo mais, substituído.”
Um Só Mundo, 1957

Pouca gente conhece a história dos Concílios. Alguns deles agiram sem muita caridade cristã. O célebre Credo de Nicéia, por exemplo, aprovado no ano de 325, que muita gente o repete quase de joelhos, se fosse apertado nas mãos revelaria gotas de sangue, porque foi elaborado no ambiente de discórdia, inveja e ódio.”
A Primeira Igreja Presbiteriana Independente de São Paulo e a Renovação, 1974

7 – Visão científica e crítica a respeito da própria Bíblia

Como experiente exegeta, produziu comentários claramente vinculados ao método histórico-crítico de estudos bíblicos:

Eu sou pela volta ao passado, pelas origens primeiras do cristianismo e isto, porventura, daria um Novo Testamento mais resumido. Os Evangelhos foram elaborados, lapidados, modificados. Outros aforismos de Jesus estão nos chamados apócrifos.”
Conceitos Religiosos, 1976

8 – Respeito e compreensão para com outras expressões religiosas

O espírito aberto e tolerante, aliado ao fato de ser um profundo conhecedor das religiões, principalmente orientais, levou o pastor presbiteriano independente de São Paulo a considerar toda a expressão religiosa humana como nobre. Nenhuma seria detentora exclusiva da verdade:

Há uma só religião. O que há é desenvolvimento da religião, evolução, transformação do sentimento religioso. Resta olhar com tolerância e simpatia para com as outras religiões que procuram interpretar a Deus e a consciência humana. O Bhagavada Gita traz esses aforismos de tolerância. Cap.VII: 20-23.”
Um Só Mundo, 1957

Nós falamos em religião imperfeita. É imperfeita a linguagem dos selvagens? Não. É imperfeita ao nosso ponto de vista, considerada pela cultura, mas ela serve ao supostamente primitivo para expressar sua ideia, o seu pensamento. A história da religião é um campo de cultura universal e permite ao estudioso apreciar a ideia de Deus no tempo e no espaço. Vêm-se religiões que tiveram a sua época, sua influência em determinados países e também sua decadência, ou melhor, a sua transformação e manifestação em outras ideias espirituais.
Um Só Mundo, 1957

Todas as religiões gozam de uma inspiração verdadeira. Cada uma de suas Bíblias ocupa seu lugar em um grau determinante na escala das revelações divinas.
Um Só Mundo, 1957

Os chamados fundadores de religiões, como, entre outros, Buda, Zoroastro, Moisés, Maomé e Cristo, são intérpretes de Deus, revelando através da experiência e dependendo do grau de consciência divina de cada um. Mas, Jesus Cristo, para mim, todo consciência de Deus, é diferente dos outros.
Antologia de Estudos Religiosos, 1979

 

Este é um pequeno resumo do pensamento de Jorge Bertolasso Stella. Pretendo, quem sabe, trabalhar de forma mais apurada esta singular figura do cristianismo protestante brasileiro.

Em tempos de fundamentalismo, seria bom que sua voz fosse ouvida e compreendida.

André Tadeu de Oliveira, no Bule Voador
via Roger, via Alysson

24 de Julho de 2011

Protestantes no purgatório e católicos no inferno

Divino preconceito

Comparecem como menos que coadjuvantes, no livro que estou escrevendo sobre a relação entre protestantes e a igreja católica, algumas das crenças e práticas que desde a infância tenho invejado no catolicismo. De meu posto de observação na árida e antisséptica sala de espera que é a liturgia protestante, passei a vida admirando catedrais e cobiçando secretamente determinadas doutrinas católicas que me pareceram desde sempre igualmente terríveis, incompreensíveis e atraentes.

Há, por exemplo, o purgatório, a condição intermediária de purificação a que são submetidos os que foram poupados do inferno mas não se mostraram merecedores de uma transferência sem escalas para o céu.

Como venho aprendendo com O nascimento do purgatório de Jacques Le Goff, a noção de purgatório, por mais alienígena e arbitrária que pareça aos que habitam este lado da represa da Reforma, nasceu menos de uma forçação de barra teológica do que como produto e extensão da ênfase católica na ideia de comunidade – a Igreja como a inabalável, ininterrupta e indestrinçável comunhão dos santos.

O purgatório é em parte o resultado da arrojada crença de que nem mesmo a morte pode separar os salvos e interromper a comunhão dos santos. Como o Redentor enxertou a vida eterna no coração do mundo e anulou para sempre o poder da morte, a separação entre vivos e mortos é mera ilusão: faz todo sentido que os vivos continuem a interceder em favor dos mortos1:

Nossos votos e ofertas pelos mortos são mais agradáveis a Deus do que nossas orações e boas obras pelos vivos, pois as pobres almas do Purgatório estão mais perto de Deus, carecem de auxílio mais premente e são incapazes de ajudar a si mesmas.

Não custa lembrar que santa Anne Catherine Emmerich (1774-1824), informada por suas visões, explica-nos que “as almas dos protestantes sofrem por mais tempo e com maior intensidade no purgatório, por contarem normalmente com poucos amigos e parentes para orarem por eles”2.

Ao contrário do que possa parecer, há nessa visão do sofrimento dos protestantes no purgatório mais gentileza e graça do que verdadeiros desprezo e rejeição. Menos clementes e mais dogmáticos, os protestantes ao longo dos séculos têm preferido ser visitados por visões de católicos no inferno.

NOTAS
  1. Thomas A. Nelson, na sua introdução ao Purgatório do padre F. X. Schouppe. []
  2. Nelson, op. cit. []