Manuscritos estocados em Abril do Anno 2011 de Nosso Senhor
28 de Abril de 2011

A consistência histórica dos dons carismáticos

Manuscritos, Sonhos

– Posso entrar? – ela diz, e no instante seguinte já está dentro.

Adália tem trinta e sete anos. É o tipo intimidador de mulher que tem o corpo esguio e aprumado de quando tinha vinte, e usa vestidos justos e acalorados para não deixar qualquer dúvida disso. O rosto anguloso é tão bonito quanto naquele tempo, mas com uma sobrancelha mais atrevida e um sorriso mais largo. Quando acontece dela sorrir, o que não é o caso agora.

Enquanto o mulherão desaba no sofá cruzo os braços e viro-me para o espelho da parede, para uma rápida conferência: encontro sorrindo com um vago beicinho um cara que é três ou quatro mais novo do que ela, o tipo do sujeito que foi sempre magro demais mas agora está amadurecendo bem, os anos fornecendo o necessário e atrasado recheio às carnes. Ao mesmo tempo em que está ficando bonito o sujeito está ficando careca: mais um lembrete de que no mundo nada é de graça.

Jateado na base do espelho está o meu logotipo: um planeta Terra, e sobre ele uma Bíblia aberta, como se fosse um telhado invertido; com um pé em cada página do livro está um homem de terno apontando uma arma diretamente para a frente, em posição de James Bond; acima dele paira uma cruz e acima dela uma pomba, englobada por um arco-íris circular do qual projetam-se línguas de fogo que se abrem em feixe logotipo abaixo; onde as línguas de fogo atingem as páginas da Bíblia levanta-se do papel um anjo; onde atingem a Terra nasce ali uma igreja. De cada lado do logotipo há uma letra, F e B; o Brandão insiste que querem dizer “Facebook”, mas que prefiro pensar que representam meu nome, Fabrício de Barros. É um logotipo simples, mas tem a minha cara.

Ajusto o sorriso e ignoro deliberadamente a careca do homem no espelho. Não faz diferença: eu e Adália sabemos que fomos desde sempre irresistíveis. É praticamente nossa descrição de cargo.

– Enquanto você estava fora o secretário executivo da convenção esteve aqui – ela começa a falar olhando para o maço de papéis que tem nas mãos em vez de para mim, sinal inequívoco de que existe entre nós alguma pendência de que não estou certo de lembrar, – e deixou o dossiê do caso de Londrina.

– Muito bem, vamos então aos detalhes – descruzo os braços e sento-me para limpar a Taurus 9mm que está desmontada em cima da mesa. É melhor ignorar as manhas e permanecer profissional, se não quiser que o briefing seja interrompido pelos inevitáveis quinze minutos de suor e reconciliação. Acabei de sair do banho, a camisa está limpa, e nesse calor é difícil manter sob controle o efeito do desodorante.

Adália cruza as pernas com deliberação, como se existisse numa página dupla, e folheia devagar o dossiê.

– Mega-igreja, configuração usual, público A-B. Entre as doze maiores da convenção. O secretário disse que nunca tivemos caso mais importante.

– Mas quanto vale exatamente a igreja?

– Treze pastores – ela desce uma coluna de texto com os dedos, erguendo uma sobrancelha quando acha necessário. – Seis congregações. Dois mil e trezentos membros. Programa na TV, o pacote básico. Passivo de quase um quarto de milhão. E entradas mais do que proporcionais.

– Treze? Uma igreja com mais pastores do que Jesus tinha discípulos. Nunca é bom sinal.

– Acredite, eu sei – ela me olha nos olhos pela primeira vez, e deixamos que as memórias se assentem em silêncio entre nós.

– E qual é o caso? – sou eu a quebrar o momento, voltando a limpar o cano da pistola.

– Começou com uma atividade de fim de semana; chamava-se originalmente Magazine mas logo mudaram o nome para Arrebatados! Com o ponto de exclamação.

– E do que se tratava?

– Pense um Big Brother para crentes. Montaram no centro da arena de esportes uma casa com paredes de vidro, todos os aposentos vigiados por câmeras de vídeo, com transmissão pela internet. Um grupo de doze membros da igreja ficava confinado na casa do Arrebatados! da noite de sexta-feira até segunda pela manhã.

– Não saíam nem para assistir os cultos? – fico admirado com a mera possibilidade.

– Participavam por um telão colocado no santuário, davam depoimentos, aquela história. E eram avaliados todos os domingos pelo seu comportamento: o quanto eram vistos orando, lendo a Bíblia, repartindo a comida e as horas de internet. O mais perverso tinha de sair da casa mas não era visto como “eliminado”: era deixado para trás. E na sexta-feira seguinte um novo membro da igreja entrava na casa para substituí-lo.

– Então não terminava nunca?

– Era pra terminar quando o público decidisse que nenhum dos remanescentes merecia ser eliminado, mas não chegou a chegar nesse ponto. Em fevereiro passado entrou na casa o nosso problema.

Ela estende três páginas impressas e uma foto pixelada, presos por um clipe.

– Caio de Jesus. Caio nunca é um bom presságio.

– Trinta e dois anos, auditor, casado, duas filhas. Na madrugada de domingo do seu primeiro fim de semana na casa, seu amigo Caio teve uma visão. Deus estava usando o Arrebatados! de Londrina para escolher novos doze discípulos, que deveriam julgar as nações no fim do mundo agora em 2012.

– E naturalmente todos refutaram a visão à luz da Bíblia.

– E naturalmente todos acreditaram. Caio explicou que a partir daquele dia não poderiam sair da casa nem mesmo durante a semana, até que o armagedom pessoal de cada um estivesse completo. Explicou ainda que para ganhar o prêmio os candidatos teriam que vencer todas as tentações: homens e mulheres da casa teriam de tomar banho juntos, confessar suas fantasias um ao outro e dormir pelados na mesma cama para demonstrar a sua pureza.

– Não há como negar que há uma consistência histórica nos dons carismáticos – opino, ajustando a mola do ferrolho e começando a remontar a Taurus. Adália me olha por um instante. Digamos que já havíamos visto o mesmo espírito exigindo as mesmas coisas.

– A controvérsia se estendeu durante semanas, blá-blá-blá, até que o pastor da igreja resolveu dar um basta na coisa e fechou sumariamente a casa. O que aparentemente demonstrou que ele era o Anticristo.

– É claro.

– O problema é que a essa altura metade da igreja já estava apoiando o profeta Caio. Para resumir: com o apoio dos seus Onze, o profeta convocou uma assembleia, conquistou a maioria, mudou o estatuto da igreja e expulsou como impenitente toda a ala moderada. E, desnecessário dizer, reinstaurou a casa.

– Mais uma vitória para a democracia.

– Para conferir acesse www etc.

Ela deixa que o dossiê caia sobre a mesa de centro e reclina-se no sofá olhando diretamente para mim. A esta altura já juntei o cano ao ferrolho e o ferrolho ao chassi; termino acoplando o carregador com um sensato clique.

– Estou supondo que nossa missão seja recuperar a igreja para a convenção, rever o patrimônio perdido e expulsar do templo o falso profeta e os sectários.

– E derrubar a casa – ela lembra. – Espero que dessa vez possamos usar explosivos.

Tento ignorar a provocação, mas não devo esquecer o que prometi.

– Já acionamos o Brandão?

Ela olha sem ver para o relógio de pulseira fina nas costas do pulso.

– A esta hora ele já deve estar em Londrina fazendo o trabalho dele.

– Muito bem, Adália – congratulo, congratulando-me secretamente por ser tão gentil.

Nesse momento entra sem bater o nosso cliente, Januário Cembrino, secretário executivo da convenção. Quarenta e tantos anos, sempre de terno e gravata, Januário e é um sujeito muito baixo e compacto, o tipo de homem que Adália gosta de chamar de portátil. Tem rosto quadrado, os cabelos curtos e encaracolados de imperador romano e a pele castanha de índio brasileiro. Adália estaria perdidamente apaixonada por ele se já não estivesse por mim.

– Fabrício, espero que Adália já tenha lhe colocado a par de tudo – ele se deixa cair sem vontade na cadeira na minha frente. – E da importância do caso.

Deixo sobre a mesa a pistola e o lenço de flanela que estava usando para dar o polimento final. Só então produzo meu melhor sorriso.

– Ora, boa tarde pra você também. Mais entusiasmo, Januário, você sabe muito bem que vamos tirar você de mais essa. Tenha um pouco de fé.

– Espero que sim – ele limpa a testa com o lenço.

– Agora, tenho de reconhecer que é um caso difícil. Preciso saber se tenho a sua permissão para usar todos os recursos. Línguas de fogo? Dons carismáticos? Cai-cai? Unção do riso? Água de Jerusalém?

– O que for necessário – ele cede.

Estendo o braço e aperto a mão dele de determinada maneira.

– O que for necessário – ele me olha muito sério.

– Então vamos, Adália, que o campo é o mundo.

Levantamos os três, pego as chaves do carro e Adália já colocou o dossiê na minha mochila. Guardo com todo o cuidado a pistola dentro da gaveta, pego a minha Bíblia e logo estamos longe dali.

25 de Abril de 2011

Epitáfio

Manuscritos

Escreveu-me ontem à noite o Alysson Amorim, depois de ler A entropia da instituição, para lembrar o que eu lhe disse uma vez: Deus não requer santos ou escritores; ele é mais ambicioso e requer gente.

Talvez seja assim com todos: escrevemos nosso próprio epitáfio e esquecemos imediatamente, até que na hora necessária um amigo venha nos iluminar com o que sabíamos desde sempre.

24 de Abril de 2011

A entropia da instituição

Manuscritos

Homilia para o dia da ressurreição

 

Foi no dia do lançamento do O que eles estão falando da igreja; conversávamos, os autores que iam chegando, ao redor de uma mesa da cantina do Mackenzie e eu fiz uma das minhas intervenções usuais contra a instituição. Imediatamente, com doses iguais convicção e provocação, o Alessandro Rocha (que eu havia conhecido naquele momento) reagiu apaixonadamente:

– Mas o que é você está dizendo, Brabo? Até parece que você não sabe que a Bacia é uma igreja! Já faz algum tempo que venho pensando em escrever sobre isso, que a Bacia das Almas do Paulo Brabo é uma instituição e que é sem dúvida uma igreja.

E com essa verdade despiu-me ali mesmo, embora tenha tido a gentileza de não delatar-me diante do auditório quando “compomos a mesa” um ao lado do outro alguns minutos mais tarde.

Fazendo isso, o Alessandro (que de resto, e inclusive por isso, descobri naquele dia ser um cara absolutamente notável) abriu uma ferida que venho tentando tratar pelo menos desde meados de 2007. Em retrospecto, foi justamente a convicção de que estava criando uma igrejinha que me fez recolher deste sáite a caixa de comentários, para evitar (ou pelo menos retardar) a ilusão de que formávamos aqui alguma espécie de “comunidade”.

Embora exista oficialmente desde 2004, a Bacia não tomou fôlego até o dia em que fomos encontrados e levados a sério pelo Volney Faustini, isso talvez em algum momento de 2005. Nesse intervalo escrevi protegido e abençoado pela convicção de saber: publico “e ninguém lê” (como me disse naquela época minha irmã Alice, para me incentivar).

O que venho ponderando desde 2007, porque venho lutando contra ela de forma mais ou menos consciente desde aquela época, é essa curiosa e avassaladora tendência humana a institucionalizar (e assim anular) as boas intenções, tendência que mostra-se mesquinha o bastante para se materializar até mesmo em mim, que dou testemunho aberto contra ela, e entre aqueles que afirmam concordar comigo quando digo isso.

Acabei tendo de concluir que a institucionalização tem sua própria entropia, sua própria e particular lei da gravidade. Uma das leis da termodinâmica explica que os sistemas deixados por si mesmos tendem ao caos e à desordem; isso explica, para dar um exemplo que é uma enorme simplificação, porque a mais impecável das casas tende a ficar suja e bagunçada a não ser que você dispenda energia lutando contra essa tendência irreversível. Mas a termodinâmica explica também que a desordem é uma tendência irresistível precisamente porque é na desordem – ou mais, propriamente, na “perfeita desordem interna” – que os sistemas encontram o equilíbrio. Uma casa limpa e arrumada é difícil de manter (isto é, requer para manter-se o dispêndio periódico de energia) justamente porque é uma casa limpa e arrumada é coisa tão evidentemente contrária ao luxuriante caos que se encontra de modo natural no mundo físico.

Esse é o ritmo das coisas no universo físico, mas os sistemas culturais criados pelo homem conformam-se à tendência inversa. Deixados por si mesmos, os sistemais humanos tendem não ao caos (e portanto ao equilíbrio), mas à ordenação, à petrificação e à sistematização. As iniciativas humanas tendem à institucionalização. Os mais selvagens e bem intencionados dos ideais humanos tendem a ser sequestrados a apropriados para sustentar a ordem e a permanência do sistema; nessa entropia inversa, Jesus passa a ser usado como credencial de impérios e Che Guevara se reduz a uma estampa numa camiseta de marca.

A fim de se lutar contra essa tendência dos sistemas humanos à institucionalização é necessário o dispêndio periódico – melhor seria dizer contínuo – de energia. Os movimentos humanos mais vivos e vitais tendem à mumificação e à esterilidade, e essa tendência só pode ser domada enquanto lutamos deliberadamente e continuamente de modo a manter acesa a sua subversão. Num sistema físico, requer-se o dispêndio de energia para se manter a ordem; num sistema cultural, requer-se o dispêndio de energia para se evitá-la. A energia que nos mantém à salvo da petrificação cultural se chama espírito.

Os sistemas humanos tendem à ordem porque em grande parte acreditamos que é a ordem – a iniciativa civilizadora de lutar contra o caos, a decadência e a deterioração – que nos torna humanos. A contradição está em que, embora se alimente dessa intenção tipicamente humana de perpetuar o que é bom, a instituição acaba perpetrando a morte prematura da vida que se propunha a preservar. Consequentemente, para lutar contra a instituição, isto é, para lutar a favor da vida e gerar a raríssima semente da ressurreição, é preciso abraçar – continuamente, deliberadamente, subversivamente – a morte.

Permitam-me então anunciar às claras o que deveria ser evidente, que a Bacia está morrendo e há muito tempo, que está em franco declínio e que sua a única chance de exercer a sua vocação é precisamente morrendo e fechando as portas. Periodicamente dispendo alguma energia na tentativa de retardar o processo humano, que está também em mim, de transformá-la numa instituição. Assim recolho os comentários, assim recuso-me a dar qualquer entrevista, assim declino a todos os pedidos para visitar igrejas e fazer palestras. Trata-se de conduta muito artificial, isto é, requer muita energia, e a requer sempre. Mas ninguém pode lutar contra uma tendência que mata sem dispor-se a morrer periodicamente.

Fique então declarado que a Bacia vai acabar, que está definhando aos poucos e que seu momento final está cada vez mais próximo. Se tudo der certo, eu mesmo e o corpo que fala por mim sobreviveremos a ela, porque nada vale o preço de institucionalização alguma.

E enquanto estou dispendendo a energia necessária para desiludi-lo, meu caro e impenitente leitor, será conveniente lembrá-lo e lembrar-me de quem na realidade sou. Dois livros amarrados às pressas não bastam para esconder os fatos: não sou escritor, não tenho curso superior e duvido continuamente ser o que sempre digo que sou, ilustrador; o testemunho que posso dar é que sou um cara, um ser humano, com tudo de maravilhoso e de mesquinho e de contraditório que a palavra implica. Quando você se sentir tentado a pensar no meu nome ou nas minhas ideias com um mínimo que seja de autoridade ou de solenidade – “como afirma Paulo Brabo”, – esta é a precisa hora de você rever os seus conceitos e de lembrar com quem e de quem está falando.

Nesta confissão sazonal será preciso lembrar que interessam-me não só as pérolas mas também os porcos. Minha alma não fixou residência nas ideias sobre Jesus, na história da igreja na contradição das teologias; frequento com obsessão igual ou maior – e com igual superficialidade – tudo que diz respeito a arqueologia, filologia, ufologia, cinema, software, Segunda Guerra Mundial, sexologia, história, literatura, filosofia indiana, antropologia, fotografia, canetas, cadernos, música pop e brega, histórias de terror, psicologia, neurologia, relíquias de santos, exploração espacial, pintura, filmes de monstro, história da arte, ficção científica, cabala judaica, vodu, alquimia, biologia, culinária árabe, indiana e italiana, aldeias medievais, nudismo, azulejos, literatura de cordel, assassinatos em série, espadas, criptozoologia, antropofagia e nazismo, bem como todas as revistas e embalagens e arquitetura e programas de rádio e selos e arte em ferro e músicas de baile, desde que não sejam da nossa época.

Sou um cara muito tímido mas sinto-me perdidamente atraído por aglomerações humanas, especialmente aquelas mais arbitrárias e transitórias, coisas como feiras, rodeios, exposições-feiras, filas de refeitório e manifestações políticas. O calor altera o meu humor sempre para o pior, mas sinto-me irresistivelmente atraído pela praia no verão – porque é ali que estão as pessoas, e porque emprestam seu charme e sua bendita contradição ao que sem elas seria meros sol, sílica e água salgada, três coisas que uma infinidade de outros planetas além do nosso seriam capazes de oferecer.

Já fui visto por pessoas vivas cavando poços mortos, fazendo salada de frutas, pulando fogueiras, roubando galinhas, beijando homens, despindo mulheres, matando animais, andando descalço em shopping centers, tomando banho pelado em rio, visitando prostíbulos, entrando em boates, saindo de motéis, dando conselhos matrimoniais a sacerdotes, conversando com prostitutas, furando filas, fazendo sexo, dando cursos de vendas, registrando empresas, contratando advogados, fazendo serenatas de amor, esquecendo datas importantes, aceitando tratamento preferencial, cobrindo telhados de casas, criando publicidade para vender produtos de que ninguém precisa – algumas dessas coisas com atenuantes, outras com agravantes, algumas vezes de graça, outras por dinheiro, o que não muda o fato de que me mantenho disposto a fazer um saudável número delas, não necessariamente nesta ordem.

Tudo que já falei e fiz, bem como tudo que deixei de fazer, pode ser mal entendido e será mal entendido e pode muito tranquilamente ser usado contra mim. Não fiz nenhum voto de pobreza, de silêncio ou de castidade, e provavelmente não os recomendaria a ninguém. Com o passamento de Krishnamurti, não deve haver guru que lute de modo mais consciente para se manter antiguru: para se manter menos sério, mais promíscuo, menos confiável, menos estável, mais inclassificável, menos coerente.

Que essa enumeração sirva para lembrar não só que para não ser uma instituição é preciso manter-se uma pessoa, mas que para não ser uma instituição é preciso manter-se um corpo.

Leia também:
BABELISMO: As perversas construções humanas e a graciosa desconstrução divina
A invenção do não-condicionado

22 de Abril de 2011

Pra mim basta um dia

Filmes

Este documento contém clipes de vídeo que só podem ser visualizados na página da Bacia na internet.

O que acontece quando você pede que o mundo inteiro registre, em vídeo, um único dia na Terra? Você recebe 80.000 vídeos e 4.500 horas de filmagem de 192 países. O produtor Ridley Scott e o diretor Kevin Macdonald, vencedor do Oscar, pegaram esse material bruto – todo ele filmado em 24 de julho de 2010 – e criaram Life in a Day/A vida num dia, um documentário que retrata esse caleidoscópio de imagens a que chamamos de vida. Estréia nos Estados Unidos em 24 de julho de 2011.

 

 

Veja também:
Gli altri siamo noi
Basta um dia
Dois bebês

21 de Abril de 2011

Quando o reino vem

Goiabas Roubadas

“Vinde a mim, todos que estai cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e achareis descanso para as vossas almas. Porque o meu jugo é suave, e o meu fardo e leve”. Essas palavras dominaram a mensagem e a obra de Jesus por completo; elas contém o tema de tudo que ele ensinou e fez. Deixam também claro que em seu ensino Jesus deixou para trás, e muito, a mensagem de João Batista. João, embora tenha já entrado em conflito silencioso com os sacerdotes e os escribas, não chegou a se tornar um sinal definitivo de contradição.

“Os caídos e os ressurretos”, uma nova humanidade em contraste com os antigos homens de Deus – esses, Jesus Cristo foi o primeiro a criar. Ele entrou em imediata oposição com os líderes oficiais do povo, e neles com a natureza humana em sua manifestação usual. Eles pensavam em Deus como um déspota que guardava as observâncias cerimoniais de seu palácio; ele respirava na presença de Deus. Eles viam Deus somente na sua lei, que haviam convertido num labirinto de desfiladeiros escuros, becos sem saída e passagens secretas; ele o via e sentia em todo lugar. Eles tinham posse de milhares dos mandamentos divinos e achavam, por essa razão, que o conheciam; ele tinha apenas um, e o conhecia através dele. Eles haviam tornado essa religião num negócio mundano, e não havia coisa mais detestável; ele proclamava o Deus vivo e a nobreza da alma.

Se empreendermos uma visão geral do ensino de Jesus, veremos que ele pode ser agrupado sob três tópicos. Cada um é de tal natureza que é capaz de conter o ensino todo, que pode ser portanto exposto integralmente através de qualquer um deles.

Em primeiro lugar, o reino de Deus e sua vinda.

Em segundo lugar, Deus o Pai e o infinito valor da alma humana.

Terceiro, a supremacia ética do mandamento do amor.

Que a mensagem de Jesus seja tão singular e poderosa deve-se justamente ao fato de ser tão simples e, ao mesmo tempo, tão rica. É simples a ponto de poder ser esgotada em cada um dos conceitos essenciais que ele proferia, e tão rica que cada um desses conceitos parece inesgotável, o completo significado dos aforismos e parábolas inteiramente fora de nosso alcance. Mas trata-se de ainda mais do que isso, porque ele mesmo é a credencial de tudo que disse. Suas palavras falam conosco, através dos séculos, com a vivacidade do momento presente. É aqui que fica comprovado o ditado profundo que diz: “Fala, para que eu possa te ver”.

A mensagem de Jesus a respeito do reino de Deus percorre todas as formas e manifestações da profecia que, extraindo sua cor do Antigo Testamento, anuncia o dia do julgamento e o governo visível de Deus no futuro – até a ideia da chegada interior do reino, a começar da mensagem de Jesus e tendo ali o seu início. Sua mensagem abarca dois polos com diversos estágios intermediários, que fazem com que se mesclem um com o outro.

No primeiro polo a chegada do reino parece ser um evento puramente futuro, e o reino em si o governo visível e exterior de Deus; no segundo, parece ser algo interior, algo que já está presente mas faz sua entrada precisamente agora. Vê-se, portanto, que nenhum dos dois conceitos de reino de Deus, nem o modo como sua vinda é representada, são livres de ambiguidade.

Jesus extraiu a noção da vinda do reino das tradições religiosas da sua nação, onde ela já ocupava lugar de destaque. Ele incorporou os aspectos dela nos quais o conceito era ainda uma força viva, e acrescentou aspectos novos. As expectativas eudemonísticas de caráter mundano e político foi tudo que ele descartou.

Não deve haver dúvida de que a ideia dos dois reinos, um de Deus e outro do diabo e do conflito entre eles, e de que no conflito final em algum momento futuro o diabo, expulso há muito do céu, seria derrotado também na terra, era uma noção que Jesus simplesmente compartilhava com seus contemporâneos. Ele não a iniciou; ele cresceu nela e a reteve. A outra noção, no entanto, O próprio Deus é o reino.de que o reino de Deus “não vem com aparência exterior”, de que ele já está aqui entre nós, é somente dele.

É verdadeiramente difícil e de responsabilidade a tarefa do historiador de discernir entre o que é tradicional e o que é peculiar, entre cerne e casca, na mensagem de Jesus do reino de Deus. Quão longe devemos ir? Não queremos roubar sua mensagem de seus matiz e caráter originais; não queremos transformá-la num pálido sistema de ética. Por outro lado, não queremos perder de vista seu caráter e força peculiares, como fazem os que querem explicar toda a mensagem de Jesus a partir das ideias gerais que prevaleciam no seu tempo. A própria maneira com que Jesus fazia distinção entre os elementos tradicionais – ele não deixou de lado nenhum em que houvesse uma centelha de força moral, e não aceitou nenhum que encorajasse as expectativas egoístas da sua nação, – essa própria discriminação nos ensina que era a partir de um conhecimento mais profundo que ele falava e ensinava.

Nós porém possuímos testemunho de natureza muito mais extraordinária. Quem quer saber o que significava na mensagem de Jesus o reino de Deus e a sua vinda deve ler e estudar as suas parábolas. Verá então o que ele queria dizer: o reino de Deus vem quando vem ao indivíduo, entrando em sua alma e aferrando-se a ela. Por certo o reino de Deus é o governo de Deus, mas é o governo de Deus no coração de indivíduos: é o próprio Deus em seu poder. A partir deste ponto de vista, tudo que há de dramático no senso externo e histórico desaparece, desaparecendo também todas as esperanças para o futuro. Tome qualquer parábola que lhe ocorrer, a parábola do semeador, a da pérola de grande valor, a do tesouro enterrado no campo: a palavra de Deus, o próprio Deus, é o reino. Não é uma questão de anjos e demônios, tronos e principados, mas de Deus e da alma, da alma e de seu Deus.

Adolf Harnack (1851-1930), em O que é o cristianismo
Palestra III