Manuscritos estocados em Fevereiro do Anno 2011 de Nosso Senhor
27 de Fevereiro de 2011

A infância em 1977

Recomendações

O ilustrador Daniel Lieske acaba de colocar no ar a versão em português do primeiro capítulo de sua série Wormwood Saga – uma história em quadrinhos concebida para ser lida na tela do computador, de preferência com o botão de rolagem do mouse. Aparentemente a partir deste ponto a história deve tomar um rumo de fantasia mais ou menos formulaico, mas a reconstrução emocional de 1977, neste primeiro capítulo, ressoou em mim de modo potentíssimo. Clique na imagem ou aqui para ler.

27 de Fevereiro de 2011

Digno de crédito

Fé e Crença

Vamos resumir aquilo em que você acredita. Trata-se da crença de que um zumbi judeu cósmico é capaz de fazê-lo viver para sempre se você comer simbolicamente a carne dele e dizer-lhe telepaticamente que você o aceita como mestre para que ele possa remover da sua alma uma força maligna que está presente na humanidade porque uma mulher feita a partir de uma costela foi convencida a comer a fruta de uma árvore mágica por uma cobra falante. Sem dúvida, soa totalmente digno de crédito.

Comentário deixado por TheVidNerd neste vídeo do Youtube

23 de Fevereiro de 2011

O sequestro do testemunho

Manuscritos

Com o perdão da palavra, especialmente aos afortunados que desconhecem a expressão, uma palavrinha sobre o testemunho pessoal, o nome que se dá no círculos evangélicos ao ato de repartir-se (especialmente em público) a narrativa individual da conversão.

Qualquer um que teve o revés de esbarrar numa estação de rádio evangélica não desconhece o tom inequívoco de quem está falando DAQUILO QUE DEUS FEZ NA MINHA VIDA, mas os de dentro sabemos – pela experiência e também porque nos ensinaram – que essas peças literárias envolvem não apenas uma entonação e uma retórica, mas uma suposta relação com a aquisição e o exercício da própria salvação.

Não deve haver dúvida de que foi a cultura evangélica a introduzir na experiência cristã a centralidade do conceito de testemunho pessoal. Agostinho escreveu as suas Confissões e o apóstolo Paulo deixou-nos um ou dois esboços de autobiografias espirituais (nos quais, muito significativamente, não menciona os detalhes da sua conversão), mas o exemplo deles não parece ter deixado grande impacto na teologia e na liturgia.

Foram necessárias a Reforma e sua onde de impacto para que a prática tomasse forma e alcançasse a consagração. O paradoxo, portanto, está em que o movimento que privatizou praticamente todos os aspectos da experiência religiosa acabou sacralizando a confissão pública.

Que se saiba, o testemunho público de conversão encontrou seu lugar na liturgia cena no século dezesseis, pela mão dos puritanos norte-americanos. Tratava-se, aparentemente, um recurso para medir e garantir a afinidade de cada história pessoal à crença correta. Os que desejavam ingressar na congregação tinham de narrar publicamente o processo de conversão, de modo a que a comunidade pudesse avaliar a ortodoxia dos conceitos e episódios trazidos pelo candidato.

Essa formalidade lateral alcançou o centro do palco nos movimentos evangelísticos e carismáticos dos séculos dezoito e dezenove. A partir daí “contar ao mundo o que Deus fez por mim” passou a ser o cerne e a razão de ser, o método e o objetivo, dos movimentos de evangelização de cada braço do evangelicalismo. Como todas as soluções com vocação para a perpetuidade, a glorificação do testemunho pessoal apresentava mais de uma vantagem: além de cimentar no neófito e nos membros da comunidade o senso de pertença, servia também como ferramenta de propaganda para os candidatos a candidatos (isso sem contar que relegava a um segundo plano, de onde podiam permanecer ignorados, os desafios mais exigentes e embaraçosos da herança cristã – mas estou me adiantando).

Nos últimos cem anos a fabricação privada do testemunho pessoal, tanto em palavras quanto nos episódios que o comporão, tem sido absolutamente central na experiência comunitária evangélica – pelo menos tão fundamental quanto o ato de proferi-lo. A centralidade do testemunho é tamanha que o adorador só alcançará definitivamente a estatura de membro legítimo e integral do grupo, o divisivo status de um de nós, quando for capaz de proferi-lo. Não importa que o candidato participe da comunidade com toda a assiduidade ou paixão, ou já há tanto tempo; enquanto seu testemunho não estiver construído e exposto ele não estará completo como integrante do corpo.

A prática de se narrar publicamente a conversão é portanto a construção de uma construção; representa a introdução de uma novidade que ao mesmo tempo explica e perpetua a dinâmica que a sustentará.

Os evangélicos passaram a definir-se, em grande parte, como aqueles que “dão testemunho”. Não há como viver na arena evangélica sem acabar intuindo que o testemunho pessoal é ao mesmo tempo a narrativa da entrada e a chave da entrada na elite dos completos. Não há como evadir-se a esse regime, porque é ele que define a comunidade e a função de cada um dentro dela. Fabricar um testemunho pessoal é, muito literalmente, fabricar uma identidade; proferi-lo é também legitimar a identidade do grupo.

continua

17 de Fevereiro de 2011

Se é cara

Goiabas Roubadas

Sejam felizes. Se em alguma ocasião a felicidade se esquecer de vocês, não se esqueçam vocês da felicidade. Tenham sempre isso mente.

Deve bastar pouco: não deve ser cara a felicidade. Se é cara, não é de boa qualidade.

Roberto Benigni

Leia também:
Uma só coisa
O evangelho de Borges

16 de Fevereiro de 2011

O fim da história

Goiabas Roubadas

Ao proclamar e viver dentro da memória subversiva do evangelho de Jesus, ao revelar a natureza triúna do Deus sofredor, ao testemunhar o reino de Deus e o senhorio de Jesus e ao anunciar o perdão dos pecados, a igreja profere um enfático “não” à declaração de Fukuyama de que a História terminou com a vitória do capitalismo de livre-mercado e com as democracias liberais ocidentais. Essa quádrupla proclamação está fundamentada numa escatologia cristã que declara que foram a crucificação e a ressurreição de Jesus que assinalaram o fim da História.

A História não terminou com a queda da União Soviética; ela terminou dois mil anos atrás quando um pequeno grupo de mulheres visitou a sepultura de um revolucionário tombado, e encontraram-na vazia. Foi uma voz angelical, não uma voz do Departamento de Estado norte-americano, a anunciar o fim da História. Foi um anjo a dizer: “Por que vocês buscam entre os mortos aquele que vive? Ele não está aqui: ele ressuscitou.” A igreja é o corpo de pessoas que vive depois do genuíno fim da História.A História terminou quando Deus levantou Jesus dentre os mortos e revelou-o como o Senhor da História.

A igreja, portanto, é o corpo de pessoas que vive depois do genuíno fim da História. Concluída a História, a igreja declara e encarna a nova criação de todas as coisas. Jesus é o verdadeiro fim da História, e a proclamação e a vida da igreja são a verdadeira chave da História. É este elemento externo do cristianismo que gente como Fukuyama é incapaz de compreender. Ele afirma:

Os homens provaram-se capazes de suportar as mais extremas adversidades materiais em nome de ideias que existem somente no domínio do espírito, quer seja a divindade de vacas ou a natureza da Trindade.

Quando a igreja ocidental voltar a encarnar fisicamente essa quádrupla proclamação, o poder do liberalismo de livre-mercado e das democracias liberais serão reveladas como o fogo de palha que são, e não como uma força monolítica capaz de levar a história a seu fim. A igreja, portanto, continuará a amar, a sofrer, a perdoar, a proclamar e a confrontar os poderes em meio a Babel até o retorno de seu Senhor – que trará o verdadeiro telos/fim e a consumação de toda criação e de toda a história.

Daniel Oudshoorn
Poser or Prophet