Assim que meu pastor começou a pregar naquela manhã de segunda-feira vi as narinas da sua indignação e soube que eu e ele tínhamos em mente a mesma palavra: Anticristo. Foi com verdadeiro deleite que o vi pregar sobre Eclesiastes 7:10 e denunciar, uma a uma, as mentiras dos que queriam violar a ordem mais fundamental das coisas e deixar o mundo à mercê da abominação.
– Esses idólatras exigem que o mundo inteiro se dobre diante deles – ele havia dito, e suas palavras ferviam na sua boca, – coisa que nem Satanás ousou pedir ou fazer.
Olhei por um instante para os lados, e vi com prazer que todos concordavam com a cabeça. No momento seguinte o pastor havia se debruçado para a frente sobre o púlpito e deitara languidamente sobre o próprio braço, como um guerreiro exaurido, um indicador meio curvado estendido em nossa direção.
– Mas, meus irmãos: eu garanto a vocês, diante do meu Deus, que não serei eu a violar as ordens da criação. Falo dos limites que Deus impôs aos homens desde que lançou as fundações deste mundo, e não serei eu a transgredi-los. Não será a minha família. Não será está igreja. Meus irmãos, o mundo inteiro pode se dobrar, mas nós diante de Deus estaremos de pé.
E a congregação havia explodido em aplausos e améns, como não se via desde a cruzada de 85, a mesma da foto no corredor da Escola Bíblica.
Quando saímos a igreja estava cercada, mas não fomos pegos inteiramente de surpresa. O presbítero Calebe já havia dito que devíamos estar prontos para enfrentar até mesmo a morte e o martírio, se assim aprouvesse a Deus, e havíamos incluído este ponto na nossa oração. Ali no gramado da igreja e debaixo do sol sem imperfeição do meio-dia me postei diante da minha família, como um cristão deve fazer, e esperei serenamente que viesse o fim.
O líder da equipe de demolição, um loiro corpulento de macacão laranja e botas amarelas, tirou o capacete e aproximou-se do grupo, parando a dois passos do pastor.
– O senhor vai ter que pedir para esse pessoal sair do caminho – ele disse, e sua voz era muito grave mas seu tom gentilíssimo, quase compassivo.
– Vocês conhecem por acaso o que é abominação? – perguntou o pastor, impassível, altaneiro, inteiramente consciente do seu papel. – Imagino que devem saber, pois estão trabalhando para o inimigo.
– Pastor, não sei do que o senhor está falando. Só estamos querendo fazer o nosso trabalho.
– Não serão mãos de homens a mover este marco – esclareceu o pastor, e estendeu a mão para nos incluir com o seu gesto . – Esta igreja está neste lugar desde 1945.
O homem suspirou.
– Não basta, e o senhor sabe disso. Vou ter de pedir para os senhores saírem da frente – ele disse, e a um sinal seu os seus capangas acionaram a partida de seus tratores e caminhões. Só estavam esperando que saíssemos da frente.
– A abominação é dar as costas ao momento presente e deixar que o diabo lhe venha por trás e enfie no cu – explicou o pastor, e embora o sangue tenha galgado todas as faces, nada havia de inexato naquela descrição.
Então minha filha de oito anos, que eu trazia bem segura do meu lado direito, soltou-se pacificamente da minha mão e andou até o espaço entre os dois homens. Ali ela abaixou-se, depositou com cuidado sua Bíblia no gramado diante do homem loiro e voltou ao seu lugar.
Sem dizer uma palavra, como que seguindo todos uma senha secreta, os membros da congregação repetiram um a um o seu gesto, colocando uma Bíblia ao lado da outra, até que um semicírculo de Bíblias separava a igreja e a congregação dos seus inimigos. O pastor foi o último a deitar desafiadoramente a sua contribuição.
Sentindo-se incapaz de atravessar aquela muralha, o homem recolocou o capacete, deu as costas e foi conferenciar com seus asseclas. Eram dez ou doze, todos vestindo o mesmo uniforme, e enquanto gesticulavam ao redor do seu líder seus veículos (que não haviam se dado ao trabalho de desligar) roncavam e trepidavam como possessos, babando, fumegando e ostentando seu potencial de destruição.
Qualquer que tenha sido o acordo a que chegaram, ficou muito claro que não foi sem discussão. O líder da equipe andou então até a muralha de Bíblias, agachou-se como minha filha havia feito e deixou sobre a Bíblia dela o seu telefone celular. Seus liderados repetiram o gesto, alguns muito a contragosto, e logo havia um pequeno arco de celulares sobrepondo o semicírculo de Bíblias.
Então entraram todos em suas máquinas e começaram a avançar em nossa direção, muito certos do que iriam destruir no caminho.





