19 de Março de 2010

Possível

Confiscado por   Paulo Brabo

 

Estocado em Manuscritos

– Não há muito que contar – ela disse, como sempre dizia quando havia muito.

Ela estava loiríssima na luz oblíqua do outono, deitada na grama e abraçada às minhas pernas na sombra da macieira. Com uma mão ela apertava o maço de Marlboro e a caixa de fósforos, e com a outra subia-me sem pausa a coxa. Eu estava de bermuda larga sem roupa de baixo e seus dedos brincavam gentilmente, em inesgotável interesse, com o que quer que encontrassem ali dentro.

Abaixo de nós a grama fazia uma curva acentuada em direção às castanheiras, à estradinha e ao vale lá embaixo, onde o Serchio corria solene seu destino de lugar-comum, resignado e brilhante como uma joia em seu estojo. Do outro lado do vale as colinas verdes com suas aldeias se acentuavam até levantar os mármores brancos dos Apuanos; deste lado e aos nossos pés vagalhões de uma neblina vasta e inusitada ocultavam periodicamente a realidade, como se um deus principiante estivesse apagando febrilmente um esboço atrás do outro.

– É claro que não pude ler dossiês dos outros convidados – ela retomou – mas não era preciso. Eu sabia que todos traziam a mesma ladainha sobre ajustes populacionais, gráficos de Gantt, transferência de poder e reassimilação ética de minorias.

– E o seu não trazia nada disso – ajudei, desfiando seu cabelo com uma folha amarela de macieira.

– O meu trazia tudo na medida certa – ela puxou uma tragada compenetrada e me passou o cigarro, sem lembrar que eu já estava fumando um. – Os caras acham que o seu modelo de transferência de poder está completo porque pensaram em territórios, constituições e presidentes. Idiotas! No modelo da atualidade uma rede de blogues ou uma biblioteca virtual podem representar mais poder do que o Executivo de uma nação inteira.

– O Google Books – eu disse, devolvendo o cigarro depois de tragar obedientemente com o meu ainda na mão.

– Exato. O Google – ela aceitou o cigarro com reverência. – Falemos de transferência de poder.

Com um baque surdo tocou a grama outra das maçãs pequenas e ácidas que saltavam da macieira carregada para fechar o cerco ao nosso redor. Estendi a mão e silenciei as duas ou três mais próximas no saco de papel, junto com os cogumelos porcini que nos havia trazido a Monica e as nozes que nos havia dado a Sonia.

– Mas, como eu suspeitava e ficou claro nas conferências privadas, eu estava ali por causa das minhas observações sobre o modelo de coordenação retroconvergente de Bergier. Aparentemente eu trazia as luzes que eles estavam querendo.

– Estranho – eu disse, como era nosso costume, e apoiei a cabeça no tronco atrás de mim. – Coordenação retroconvergente. Devo me sentir culpado por você já me ter explicado essa?

– Na dúvida você deve sempre se sentir culpado.

Ela assentou as duas mãos na grama e escalou-me de costas o corpo, acomodando por fim a cabeça no meu peito. Seu cigarro estava acabando e me perguntei se ela acenderia outro. Lá longe à nossa direita, na cabeceira do vale, ameaçava uma tempestade cor de chumbo perfeitamente silenciosa, que sabíamos nunca nos alcançaria.

– Você sabe que o que estamos fazendo é atrasar o relógio – ela apertou-me por um instante a mão esquerda. – Uma máquina do tempo.

– Sim. Essa aula eu não perdi.

– Você sabe aqueles jogos em que alguém derruba uma peça de dominó e essa peça derruba outras duas, que derruba quatro e assim por diante, até que milhares de peças acionadas pela primeira acabam formando um desenho ou subindo as escadas de um estádio?

– Sei. Brincamos disso uma vez, você lembra? Na casa de praia com o Fabrizio e o Luca.

– Lembro! – ela saltou um pouco no lugar, sinceramente emocionada por eu não ter esquecido. – Então, se a questão é atrasar o relógio, é preciso ter em mente que é perfeitamente possível derrubar aquela pedra original se, antes de começar o jogo, derrubamos para trás uma única peça interna do modelo, uma peça qualquer.

– Faz sentido – fiz a cinza cair sobre a grama imaculada.

– A questão é que, embora com esse procedimento seja possível garantir que a primeira peça será derrubada, não é absolutamente certo que derrubando uma peça interna sejamos capazes de recuperar o desenho original. Para conseguir isso seria necessária coordenação muito maior.

– E o que é mais importante, derrubar a peça original ou recuperar o desenho?

– É precisamente disso que se ocupa o modelo de coordenação retroconvergente de Bergier – ela virou-se de frente e deixou-me um beijo levíssimo no queixo barbeado. – E, no presente caso, ninguém tem ainda certeza.

– E você acha sinceramente, no presente caso, que é possível derrubar aquela peça original? Será possível fazer a água correr fora daqueles sulcos de que falamos outro dia?

– Para voltar é preciso descarrilhar o trem. Mas é sempre possível.

Ela amassou solenemente o maço de Marlboro, e nós dois sabíamos que havia uns dez cigarros perfeitamente bons ali dentro. Segurei com as duas mãos o rosto que me olhava, com a deliberação e o respeito de quem segura e traz para si o fruto da árvore da vida, e beijei-a na boca sem fechar os olhos.

Nesse ponto o vento ergueu a neblina que cobria a estradinha de terra à nossa esquerda e lá estava o Matteo, gordinho e barbudo em seu uniforme azul de carabiniere, para contar que dois homens estavam procurando a Caitlin, e esperavam lá em cima na aldeia debaixo do arco da igrejinha.

Erguemos acampamento e fomos avançando descalços pelo campo minado de maçãs, ela segurando o saco de papel com nosso jantar e eu levando nossas meias e sapatos. Deixei que ela seguisse na frente, abrindo os braços para envolver por antecipação as costas intermináveis de Matteo, enquanto eu recolhia as pontas de cigarro para dentro do maço amassado. Balancei a cabeça, em puro deleite e pura incredulidade, diante da constatação de que ela trazia dentro de si o nosso filho.



Inquisição


Arquivos


Versões digitais dos manuscritos da Biblioteca do Monastério de São Brabo, nas Índias Ocidentais.
Lista de entrega

Clique aqui para receber o conteúdo da Bacia por e-mail