No princípio eram os judeus; isso foi antes dos cristãos.
Séculos antes que os cristãos inventassem o dogma, a teologia e a declaração de fé, os judeus já lutavam para encontrar, apresentar e preservar a verdade, e se mostravam (e provavelmente permanecem) mais interessados do que nós na questão de como aplicar na vida real a verdade que percebiam.
Porém as culturas utilizam diferentes ferramentas na tarefa de manejar a verdade, e os judeus usam desde sempre uma ferramenta que a cristandade e o ocidente em grande parte abandonamos: o diálogo. Os cristãos enxergam a verdade como pertencente ao dogma, os judeus como pertencente ao diálogo.Essencialmente, o método judeu de encontrar a verdade é associar-se com quem possa discordar apaixonadamente a respeito dela.
Os cristãos em geral enxergam a verdade como coisa dogmática – isto é, pertencente ao dogma, – mas os judeus tradicionalmente veem a verdade como coisa dialética – isto é, pertencente ao diálogo. Na prática, isso quer dizer que a tradição judaica não apenas tolera e incentiva a convivência e o respeito mútuo entre gente que discorda a respeito de questões fundamentais; ela pressupõe essa convivência e exige esse respeito.
Para o judeu da tradição rabínica, a fim de se encontrar a verdade (e não só isso, também a fim de se ensiná-la) é preciso adentrar e aprender a habitar um mundo de deliberações abertas, um mundo de tradições e autoridades que se respeitam mas se contradizem, um universo interligado e indeciso de interlocutores. Nesse universo, discordar, fazer perguntas e questionar respostas não será jamais visto como insubmissão ou incômodo. Nesse mundo, o questionamento sistemático não é visto apenas como o único modo de se encontrar a verdade (porque isso um cristão seria capaz de admitir); é tido também como o único modo de se expor a verdade.
Durante séculos esse diálogo entre os luminares do pensamento judaico aconteceu e foi transmitido de modo oral ou, como diríamos hoje, offline. Foi só a partir da destruição do templo, em 70 d.C., que esse legado e esse método passou a ser registrado por escrito, primeiro na Mishná e em seguida no seu comentário, o Talmude (concluído entre 400 e 600 d.C.).
Cada página do Talmude é uma explicação desse método dialético de se tratar a verdade, e um tributo a ele. Página após página o texto retraça cada laborioso passo sucessivo num processo de argumentação e contra-argumentação a respeito de cada mínima questão. Porém a originalidade do Talmude e do método que representa não está na apenas na apresentação de posições contrárias e na exposição dos pontos fracos e fortes de cada uma (operações que o Direito não desconhece) mas na sua recusa em apontar uma decisão final ou superior. Todas os pontos de vista são apresentados (e isso um cristão poderia tolerar, se não compreender), mas – pasme-se – as questões e decisões permanecem em aberto, aguardando o engajamento e o posicionamento de um novo interlocutor: o próprio leitor e sua época. Debaixo dessa ortodoxia generosa, as autoridades não servem para decidir em nosso lugar, servem para nos ajudar a pensar.
Para dar testemunho da intensidade e da ambivalência desse diálogo, inquiro uma página retirada mais ou menos ao acaso do Talmude Babilônico. Sublinho os interlocutores apenas para salientar a sua abundância:
Quando veio à Palestina, R. Dimi disse em nome de R. Johanan: Tudo isso foi dito quando não havia um decreto civil por parte do governo que violasse os deveres religiosos; porém, se houvesse, seria obrigatório sacrificar-se até mesmo pelo mais leniente dos mandamentos. E, quando veio, Rabbin disse em nome da mesma autoridade: Mesmo se não houvesse um decreto perverso dessa natureza, a pessoa poderia descumprir o mandamento em privado; porém, publicamente, é obrigatório sacrificar a vida, mesmo se for para cumprir o mais leniente dos mandamentos. O que se entende por “o mais leniente dos mandamentos?” Disse Rabba b. R. Itz’hak em nome de Rabh: Nos dias da perseguição religiosa é obrigatório resistir, mesmo que a exigência diga respeito a um cadarço de sapato. E o que é considerado “publicamente”? Disse R. Jacob em nome de R. Johanan: Se for feito na presença de não menos do que dez israelitas. R. Jeremias questionou: E se houvessem nove israelitas e um pagão? Vinde ouvir o que ensinou R. Janai, irmão de R. Hyya b. Aba: Podemos inferir que, como no caso de Corá não havia menos de dez israelitas, o mesmo se aplica no caso de santificação em questão. Mas Ester não foi compelida a pecar com Assuero, na presença de mais de dez israelitas? Disse Rabha: No caso de o fazerem em seu próprio benefício é diferente; se não fosse esse o caso, de que modo poderíamos emprestar vasos de cobre para os persas para que encham suas casas de oração com brasas vivas por ocasião de seus festivais? Mas como é para o benefício deles, não é considerado transgressão. Rabha concorda com essa teoria em outro lugar, quando afirma que se um pagão mandar um israelita cortar feno no sábado para o gado dele, com a ameaça de matá-lo, ele deve cortar o feno para não ser morto. Mas se o homem disser: “Corte o feno e jogue no rio”, no que se pode ver que ele quer apenas vencer os seus escrúpulos religiosos, será melhor para esse israelita resistir e ser morto do que obedecer àquela ordem.
E outro do Gênesis Rabá:
Quando foram criados os anjos? R. Johanan disse: Foram criados no segundo dia, como está escrito, És tu que pões nas águas os vigamentos da tua morada, (Salmo 104:3), seguido por, Fazes dos ventos teus mensageiros (v. 4). R. Hanina disse: Foram criados no quinto dia, pois está escrito, E voem as aves acima da terra no firmamento do céu (Gênesis 1:20), e está escrito, E com duas voava (Isaías 6:2). R. Luliani b. Tabri disse em nome de R. Isaac: Quer aceitemos a opinião de R. Hanini ou a de R. Johanan, todos concordam que nenhum anjo foi criado no primeiro dia, do contrário estaria dito que Miguel estendeu o mundo ao sul e Gabriel ao norte, enquanto o Santo, bendito seja, media no meio, mas [está escrito], Eu sou o Senhor que faço todas as coisas, que sozinho estendi os céus, e espraiei a terra – quem estava comigo? (Isaías 44:24).
E assim por diante, porque o fio não se interrompe onde o deixei. Como se vê, a ideia subjacente não é resolver a discussão, mas perpetuá-la. É inevitável neste ponto mencionar a história do rabino a quem um cristão perguntou porque ele sempre respondia uma pergunta com outra pergunta. O rabino, muito previsivelmente, respondeu: E por que não?
Essa obsessão com a discussão aberta e com o diálogo não é apenas casual; ela faz parte de todo um modo de pensar e ver o mundo. Há ecos dela nas discussões de Jesus com os fariseus e nos raciocínios de Paulo, e ainda na decisão do concílio de Jerusalém, cujo resultado exigiu o convívio entre gente que discordava sobre coisas que considerava de importância absolutamente vital.
Do modo como o Talmude preservou essa tradição, o estudante não é apenas obrigado a conhecer e aprender a demonstrar a supremacia de uma decisão. Ele é convidado a retraçar, reconstruir e entender todos os raciocínios ligados a cada questão; aprende a pesar ambivalências e a conviver com contradições. É tremendamente custoso aproximar-se desse legado, porque ele requer não apenas fé, mas uma participação ativa na sua constituição. A fé que o método dialético do Talmude exige e pressupõe é a fé no intelecto humano, a fé na capacidade de julgamento das gerações posteriores.
Ao contrário dos cristãos, que se levantariam mais tarde para propor e defender uma verdade que é essencialmente conceitual, para a tradição rabínica o método de se conhecer a verdade passa por discutir exaustivamente as suas implicações. De fato, a ideia subjacente é que só podemos ter um vislumbre da verdade pela análise inclemente das suas implicações – e uma única mente, uma única linha de pensamento, não bastará para esgotá-las todas. Para preservar a natureza da verdade, será necessário manter debaixo de uma única tradição todas as vozes que discordam a respeito dela.
Para que todos sejam um: da agremiação dos discordantes à tolerância zero
- A verdade na assembleia dos discordantes
- A árvore com muitos ramos
- Os discursos da reforma




