Porque Deus amou o mundo de tal maneira que
João 3.16
O cristianismo viveu, portanto, a primeira metade da sua história sem conhecer e sem reconhecer a ideia de redenção que muitos cristãos contemporâneos creem representar a coluna mais central do evangelho – a ponto de nos termos tornado incapazes de ler o Novo Testamento sem encontrá-la em cada palavra.
Porque não deve haver dúvida: nós, de alguma tradição evangélica, não carecemos da ajuda de um comentário para encontrar no texto bíblico a doutrina da morte substitutiva. Qualquer que seja o texto, o que quer que esteja querendo dizer, efetuamos sua conversão automática para o glossário de Anselmo e de Lutero antes que nos atinja de outra forma; a doutrina da satisfação está dentro de nós.
Assim, diante de “Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu filho”, não lemos que “Deus deu o seu filho de presente”, mas que Deus o matou.
Diante de “Jesus sofreu por nós”, não lemos que sofreu “por nossa causa” ou “em nosso favor”, mas que sofreu em nosso lugar.
Diante de “Jesus levou os nossos pecados na cruz”, não lemos que Jesus “carregou para longe” ou “em sua morte desembaraçou-se vitoriosamente” dos nossos pecados, mas que foi punido espetacularmente por eles.
Diante de “Jesus sofreu por nós para que sigamos os seus passos”, não lemos que “devemos sofrer pelos outros”, mas que Jesus sofreu em nosso lugar para que não precisemos sofrer.
Lemos “pelas suas feridas fomos sarados” como se quisesse dizer “pelas nossas culpas foi castigado”, e entendemos que quando disse que não há maior amor do que dar a vida pelos amigos Jesus estava falando exclusivamente da sua morte.
Algumas versões da Bíblia chegam, muito desautorizadamente, a incorporar essas facilidades no seu texto principal.
Parte do problema se origina numa compreensão muito equivocada do sistema de ofertas e sacrifícios do Antigo Testamento. Ao contrário do que costumamos pensar, os sacrifícios pelo pecado não eram oferecidos em lugar do pecador; eram oferecidos em seu favor, e é uma diferença importante. Não se entendia que novilhos e ovelhas sofriam no lugar do ofertante, e muito menos que eram punidos em seu lugar; o sangue das ofertas era derramado em favor do pecador, e era dessa forma que alguns pecados eram cancelados.
A lógica dos sacrifícios e holocaustos não era “uma coisa oferecida em lugar da outra”, mas “uma coisa pura oferecida em favor de uma coisa falha”. É por isso que quando associam a morte de Jesus aos sacrifícios do Templo os autores do Novo Testamento salientam a pureza, a disposição voluntária e a singularidade daquele que morreu, não sua posição como substituto em alguma transação eternamente pendente.
A do sacrifício, além disso, é apenas uma das imagens utilizadas pelos autores do Novo Testamento para representar a natureza fluida e imaculada da redenção. Outra imagem usada por eles é a do resgate, segundo a qual Jesus fez – em sua vida, morte e ressurreição – mais do que o necessário para garantir nossa liberdade de todos os tipos de escravidão. E, da mesma forma, nada há na ideia de resgate que implique a necessidade de substituição ou a nomeie.
O próprio apóstolo Paulo, que graças a Lutero ficaria para sempre marcado como proponente original da teologia substitutiva, usa mais de uma imagem para caracterizar a obra de Cristo: sua obra como redenção, como sacrifício, como propiciação, como reconciliação, como mediação, como representação e como união mística. O apóstolo usa essas imagens com a mesma precisão e imprecisão com que Jesus usava suas parábolas. Para Paulo, cujo testemunho essencial é que a letra mata, nenhuma palavra humana podia esgotar o Significado do que havia sido proferido por uma Palavra Viva.
Será então necessário retornarmos conscientemente à ideia de que Jesus morreu por nós, isto é, em nosso favor, e não em nosso lugar. Será necessário abandonar a ideia de satisfação, sobre a qual o Novo Testamento nada tem a dizer, e voltar à ideia de remissão de pecados, sobre a qual o Novo Testamento não se cala. Não há substituição precisamente porque há redenção.
Qualquer outra tentativa de explicar o mistério da morte de Jesus equivale a negar o seu horror e seu perpétuo incômodo. Dizer que Jesus morreu em nosso lugar para satisfazer a justiça divina é colocar sobre a sua morte uma bandagem que oculte convenientemente a nudez do escândalo da cruz – e esta é uma ferida que não deve deixar de sangrar. Talvez Jesus tenha morrido para poder abrir por dentro, com sua espada, o ventre da morte. Talvez tenha morrido porque todos os homens morrem, e os homens bons morrem primeiro. Talvez tenha morrido para abrir o caminho e deixar na trilha recém-aberta as marcas do atalho que conduz à vida. Talvez tenha morrido porque Deus teve inveja da morte e, como refletiu Simone Weil, o sofrimento do homem era, até o evento da encarnação e da cruz, impensável vantagem do homem sobre Deus. Talvez tenha morrido porque ninguém foi capaz em sã consciência de ouvir o que ele tinha a dizer, e tiveram a dignidade de silenciá-lo com as próprias mãos – ao contrário de nós, que dizemos que o ouvimos e não fazemos o que ele diz, e nisso assassinamos diariamente a sua herança.
A chave talvez esteja no testemunho dos que propuseram a boa nova durante os mil anos em que ela se manteve intocada pela doutrina da substituição. De que modo explicaram o mecanismo da redenção os cristãos entre o silenciar do último dos apóstolos e a publicação de Anselmo?
A resposta, que nunca deixa de maravilhar, é que durante esses mil anos os cristãos pouco fizeram para explicá-lo. Os pais da igreja e apologistas ocuparam-se de muitas coisas, mas não se ocuparam de sistematizar a obra da redenção. Os pais da igreja a apologistas cometeram muitos erros, mas o mérito de seu respeitoso silêncio sobre esse assunto deve ser contado em seu favor.
Quando se ocupam do assunto, os pais da igreja tendem a explicar a redenção não pela morte de Jesus, mas pela encarnação; para eles a encarnação é o modo e a redenção o resultado. É por isso que nesse período nenhum concílio deliberou sobre o mecanismo da redenção (e muito menos sobre a doutrina da morte substitutiva), mas muitos deliberaram sobre a natureza humana e divina de Cristo. Era essencial que ficasse demonstrado que Jesus tinha sido Deus e homem ao mesmo tempo, porque nesse mistério consistia o próprio mecanismo da redenção. Como sustenta ainda hoje a Igreja Ortodoxa, para eles a redenção estava revelada em que Deus fez-se homem para que homens pudessem tornar-se deuses.
Paralelamente, é necessário entender que a noção de substituição está implícita no discurso da boa nova apresentado pelos autores do Novo Testamento, mas em posição oposta à que reservamos para ela e com um sujeito oposto. Para o Novo Testamento, devemos nós agir como os substitutos vicários de Jesus, e não o contrário. Na lógica do reino, não é que Jesus nos substituiu para que fossemos salvos; nós é que somos salvos para que sirvamos de substitutos dele. Por isso o “como o Pai me enviou estou enviando vocês”; por isso o “Jesus sofreu pelos outros para que sigamos seu exemplo e seu destino”; por isso “o Espírito os capacitará a serem minhas testemunhas”. Nossa vocação é vivermos e morrermos na qualidade de substitutos de Jesus, cumprindo (satisfazendo) nisso a vontade do Pai.
Não há nada que queiramos menos.

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