19 de Novembro de 2010

Onde se vê Baltazar Síase, se abraça uma vocação e se conhece a vingança

Auditado por   Paulo Brabo

 

Estocado em Manuscritos

– Pois numa encruzilhada encontrei um homem que ficou muito admirado da minha aparência e quis saber de onde eu vinha e falei que não sabia. Quis saber para onde eu ia, e falei que não sabia. Quis saber como eu me chamava, e falei que não sabia.

«Dar nome às pessoas é erro ainda mais comum do que dar nome às coisas», o homem falou, «mas é erro de natureza diversa. Não se deve dar nome que albergue toda uma categoria de coisas, porque nenhuma coisa é igual à outra; cada bolo é um bolo diferente e nenhuma pedra é como a seguinte. Não se deve dar nome aos homens pela razão oposta, porque nenhum homem é diferente do outro: cada homem é todos os homens. Eu não respondo quando chamam, mas as pessoas me chamam de Baltazar Síase.»

«Mas quem é a sua pessoa, se lhe chamam por um nome que não é o seu?», eu falei.

«Aqui se tem uma pergunta totalmente diferente. Minha pessoa é o último homem livre da face da terra.»

«Último não», remendei logo, «que livre também eu sou.»

«Isso eu duvido, mas é coisa muito ligeira de se verificar. Minha própria liberdade fica evidente em que sou eu que atravesso as palavras, não sou atravessado por elas. Sua mercê a esta altura não ignora que as palavras são o espírito vicário que anima o bicho-homem. Uma criança de colo não passa de um pedaço de carne até que seja varada pela palavra, ocasião em que passa a ser um corpo; e um corpo nada mais é do que uma máquina movida a palavra.»

«Nenhuma palavra ainda me atravessou», expliquei, «e ai da palavra que tentar. Vai ser a última coisa que a dita palavra vai fazer.»

«Quão belos são os pés dos exterminadores de palavras!», admirou-se o homem que não respondia por Baltazar Síase. «A sua é a mais bela vocação, e aquela de que falam todos os profetas! Quando a última palavra for dizimada os homens serão livres, e a palavra será indistinguível da carne.»

«Essa é uma daquelas coisas em que se deve acreditar?»

«É o que dizem desde sempre as palavras, mas as palavras se prestam a qualquer coisa. No dia da conclusão da criação Satã andou pelo mundo procurando quem se dispusesse a se prostituir em troca de nada, e as palavras foram as únicas a ceder à sua oferta. Nem mesmo o homem, a mulher e os poetas se rebaixaram por tão pouco. Desde aquele dia as palavras são as aliadas mais valiosas do inimigo dos homens, porque aparentam castidade e rigor mas deitam com qualquer um por nenhum preço.»

«Se é assim temos muito a aprender com elas.»

O homem então me olhou como se pela primeira vez.

«Na verdade não é impossível que sua mercê seja jovem o bastante para ser ainda livre, visto que carrega o próprio cordão umbilical ainda preso ao corpo, como o tangerino leva o relho. Não custa imaginar que eu poderia ensinar a usar as palavras como armadilha e armadura, em vez de como esqueleto. Fale uma coisa: agradaria à sua mercê soprar espírito nas palavras em vez de ser soprado por elas? Minha oferta e minha ameaça são uma coisa só: o miserável que domina as palavras é senhor do universo inteiro.»

«Sou tão livre que não sou livre para me sujeitar à sua oferta,» expliquei. «Quando a palavra chegar vou me saber pronto de litigar com ela».

«Deixe no menos que eu lhe deixe uma palavra como escapulário, assim sua mercê terá como me reconhecer quando nossos pés se embrenharem de novo na mesma estrada. Todo homem não sabe me reconhecer quando me vê pela segunda vez, porque uso as palavras à maneira de feição, e as palavras sempre mudam.»

«Ninguém me deu ainda uma palavra», eu falei.

«Pois se é a sua primeira devemos escolher com cuidado e com sensaboria, como se escolhem as definições do horóscopo. Quais foram as suas aventuras até este momento?»

«Há pouco versejei com uma tropa de desendemoninhados que me disseram do mar, e antes disso escapei das tripas do morsto da caatinga.»

«Esses minórdios não bastam para merecer uma palavra. E antes disso, o que tem para dizer de sua justiça?»

«Antes disso vim ao mundo, e largou-me um homem num ninho de macambiras.»

«Esse homem era seu pai,» disse-me Baltazar Síase, e em seguida me deu minha primeira palavra e partiu, e não recordo se era alto ou baixo, novo ou velho, se estava pelado ou vestido, se era bonito ou feio, porque apertou-me a vista com o garrote das suas palavras.

– E que palavra lhe deu no fim esse senhor? – quis saber o pai do menino.

– A palavra que me deu foi vingança.

O menino então girou a peixeira junto à virilha do pai, fazendo com que se enrolasse pouco a pouco na lâmina o membro desonesto que o concebera. O corpo do homem estirou como couro debaixo do sol, e ele falou:

– Não faça nada, meu filho, de que vá se arrepender depois. Vingança é uma palavra que não se usa na presença de quem nos deu ao mundo; ainda mais que minha intenção era refazer o caminho e trazê-lo de volta agora mesmo, depois de dormir um pouco.

– Então é verdade que as palavras não enrubescem de mentir – falou o menino, – e que pintam intenções onde só havia um homem dormindo.

– As palavras brotam do coração – implorou o homem, – e o coração ninguém pode julgar.

– Mas o sangue não mente – decretou o menino. O homem então fechou os olhos e deu um grito, porque ouviu o assobio de pele sendo cortada e sentiu quando lhe jogaram sobre a barriga um cilindro de carne candente e banhado de sangue.

Quando a mulher convenceu-o a abrir os olhos o menino não estava mais ali. No quarto escuro o homem estendeu a mão para recolher a carne que lhe pesava sobre a barriga, e entendeu que os dedos prendiam um cordão umbilical.

Mundicéia

  1. Onde se nasce
  2. Onde se vê o monstro da caatinga
  3. Onde se fala dos desendemoninhados
  4. Onde se vê Baltazar Síase, se abraça uma vocação e se conhece a vingança


Inquisição


Arquivos


Versões digitais dos manuscritos da Biblioteca do Monastério de São Brabo, nas Índias Ocidentais.
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