07 de Abril de 2010

O que havia sido usurpado

Fermentado por   Paulo Brabo

 

Estocado em Manuscritos

Quando dá a um pobre você não está dando do que é seu,
está devolvendo o que pertence a ele.
Você é quem havia usurpado o que é comum,
aquilo que foi dado para o comum benefício de todos.
Ambrósio de Milão

 

A ganância, que é idolatria, não é o desejo de acumular riquezas e não é o anseio pela aparente liberdade que as riquezas podem comprar. O verdadeiro motor da ganância é um fetiche mais profundo, mais oculto e mais raramente expresso em palavras, pois trata-se do desejo pelo direito de não depender de ninguém, o vertiginoso direito de poder viver sem qualquer consideração pela vontade e pelas necessidades dos outros.

Em última instância, a ganância é o anseio pelo distanciamento completo dos embaraços do mundo, e seu impulso subjacente é uma completa negação do mundo. A seu modo, portanto, a obsessão pela acumulação de bens é uma espécie de ascetismo, uma forma de negar e afastar-se das complicações da vida. Nosso sonho mais rigoroso é acumular bens e riqueza até que o mundo exterior não tenha absolutamente qualquer modo de nos atingir, até que estejamos perfeitamente a salvo e perfeitamente distintos do mundo.

É precisamente essa ilusão de isolamento a denúncia da parábola registrada por Lucas no décimo-segundo capítulo de seu evangelho, a história do homem rico que decidiu encarcerar-se em celeiros com suas provisões e bens, porque havia angariado suficiência “para muitos anos”. Esse homem havia satisfeito idealmente o coração secreto da sua ganância, porque era (ou se julgava) finalmente independente de tudo e de todos. A história escancara que essa sua autonomia é ilusória, pois explica que Deus decidira secretamente requerer a sua vida naquela mesma noite. Porém, em termos estritos, o homem já conseguira adquirir em vida a estirpe de morte que escolhera para si mesmo, porque a completa separação do mundo e das pessoas, embora seja o alvo ideal de toda a ganância, é uma espécie muito literal de morte. Na história o protagonista deve morrer na mesma noite em que planeja sua independência – porque, no fim das contas, já escolheu a morte. Estando plenamente suficiente, separado das contingências da vida e das necessidades dos outros, já está morto.

Acumular riquezas é construir defesas contra o mundo, e nisso a ganância é indistinguível de qualquer outra obsessão com a morte. Que os ricos e os gananciosos são obcecados pela morte é evidente no que negam a morte continuamente. Recusam-se a mencionar a morte ou a reconhecer o seu poder, mas vivem construindo contra as contingências da vida barreiras que lhes pareçam suficientemente seguras. Todos os que criam estavam unidos e tinham tudo em comum. E vendiam suas propriedades e bens e os repartiam por todos, segundo a necessidade de cada um.O homem rico vive percorrendo os limites da sua propriedade, estudando vulnerabilidades e planejando ampliações; ele teme encontrar alguma brecha em seus muros, porque não quer deixar entrar qualquer traço de vida e, consequentemente, de morte.

Quando escolhem neste ponto despojar-se de seus bens em favor de todos os outros, os integrantes da comunidade do espírito estão fazendo precisamente o trajeto contrário, isto é, abraçam sem intermediários a vida e a morte, o mundo e as pessoas. O homem rico da parábola decide construir para si celeiros que deveriam funcionar como barreira efetiva contra a entrada do mundo; inversamente, ao despojar-se dos seus bens os romeiros de Pentecostes estão baixando suas defesas, demolindo as muralhas que os protegiam.

Séculos depois, devidamente iluminado por essas coisas e estarrecido diante delas, coube a Proudhon proclamar sucintamente que “propriedade privada é roubo”. Como observou meu amigo Dan Oudshoorn, isso não quer apenas dizer (como disseram, ver acima, pais da igreja como Ambrósio de Milão) que acumular bens é subtrair sem autorização de um patrimônio que Deus designou a todos e não apenas a alguns; ceder às tentações da propriedade privada não é apenas roubar dos pobres, é roubar a nossa humanidade de nós mesmos – precisamente porque nossos bens acabam exercendo a obscena função de barreira intermediária entre nós e o mundo, entre nós e os outros.

Acumular bens é confessar que nossa identidade e nosso valor estão de alguma forma ligados às coisas que conseguimos angariar ou manter, e não a nós mesmos. Essa é uma admissão desumanizante, e para escaparmos da consciência disso aplicamos o mesmo critério desumanizador aos outros, julgando-os pelo que podem oferecer para nos impressionar e reservando nossa generosidade para os que não carecem dela (isto é, os que podem recompensá-la). A ganância é idolatria porque é essa degradante confissão de insuficiência e de desgraça.

Novamente, é por essa razão que os da comunidade do espírito sentem a necessidade de despojarem-se literalmente dos bens que os amarram e confundem. Quando diluem tão imprudentemente o seu patrimônio, estão confessando em altos brados a suficiência do reino de Deus, onde aos pássaros não falta alimento e onde a elegância das flores é motivo de embaraço para reis e dignatários. Confessar o reino é confessar que nada há que temer e que nenhuma barreira deve ser construída entre o ser humano e a vida, entre um ser humano e outro. É apostar, loucamente, na suficiência do cavalheirismo e da gentileza. Ao mesmo tempo em que se despojam, os novos discípulos dão testemunho de que acreditam que a vida partilhada vale todos os riscos (de que a riqueza não salva) e se mostrará capaz de suprir todas as carências (que a riqueza não satisfaz). É uma confissão insensata mas simetricamente digna de Jesus, e neste momento são todos simultaneamente afixados e identificados com ele na cruz.

Tornaram-se, finalmente, as testemunhas que Jesus havia desafiado que fossem, porque aprenderam a falar tão-somente a linguagem da graça, da generosidade, da inclusividade e da dádiva – a qual, conforme proposto incessantemente pelo Filho do Homem, é a própria linguagem (isto é, a identidade) de Deus.

A reviravolta está em que descobrem, como todos que se embrenham nesse caminho estreito, que nada há mais vantajoso, benéfico e curativo para eles mesmos do que “ajudar” os outros diluindo a vida e demolindo as barreiras que haviam passado a vida erguendo contra os avanços deles. Os romeiros de Pentecostes, que haviam, como todos, acumulado riquezas a fim de garantir a sua própria liberdade contra a ameaça dos outros, deparam-se agora com a maravilha articulada por Moltmann: o momento em que o outro deixa de ser um limite à nossa liberdade e passa a ser uma inesperada extensão dela.

É ainda por essa razão que o seu despojamento deve ser total. Primeiro, para que não acabem incorrendo no que Derrida chama de hostipitalidade – isto é, a complexa rede submersa de conflitos e hostilidades que acompanha necessariamente as relações de hospitalidade. A hospitalidade deve ser radical ao ponto do esvaziamento, do contrário não será de fato hospitalidade. Enquanto houver distinção entre hóspede e anfitrião, entre doador e beneficiado, entre ricos e pobres, haverá cobrança e hostilidade (mesmo que encobertas), e essas são tensões inteiramente incompatíveis com o mecanismo imaculado da graça. Enquanto houver algum apego à propriedade haverá alguma barreira, por isso a completa dissolução, o esvaziamento sem paralelo e sem precedentes. Possuir é manter-se condicionado.

Segundo, porque o despojamento total é o preço do encontro definitivo consigo mesmos, é o momento da morte do ego e da ressurreição, e na qualidade de heróis míticos os peregrinos de Pentecostes não hesitarão em dar esse último passo – que será o seu primeiro. Morrem porque querem viver, dão tudo porque querem ser livres. Quem quiser preservar a sua vida irá perdê-la, já havia profetizado o inclemente paradoxo de Jesus.

E, finalmente, quando se vulnerabilizam por completo, esses homens e mulheres encontram-se consigo mesmos e com uma suficiência que não podiam sonhar que chegariam a experimentar. Abrindo mão daquilo que o rico busca encontrar incessantemente na riqueza, isto é, controle, os peregrinos encontram controle e autodomínio – e encontram-nos num regime permanente que a riqueza, por definição, é incapaz de prover.

Estão, simultaneamente e pela primeira vez, disponíveis para outros – não porque deram aos outros tudo que possuíam, mas porque encontraram-se consigo mesmos e será a primeira vez que os outros poderão vê-los, a cada um, como realmente são. Porque abriram mão das riquezas e dos bens que vinham servindo de barreira entre eles mesmos e os outros, serão finalmente capazes de compartilhar aquilo que, nas palavras de Santo Ambrósio, haviam “usurpado” das outras pessoas, aquilo que havia sido “dado para o benefício comum de todos”.

Não os seus bens, mas eles mesmos.



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Versões digitais dos manuscritos da Biblioteca do Monastério de São Brabo, nas Índias Ocidentais.
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