08 de Outubro de 2010

Onde se vê o monstro da caatinga

Depositado por   Paulo Brabo

 

Estocado em Manuscritos

O pai do menino, que se chamava Romão, chegou sozinho em casa e ceou; deitou do lado da mulher e encostou a cabeça e fechou os olhos e sentiu no pescoço o fio gelado da própria lambedeira. Assustado, arregalou os olhos e viu o menino deitado em cima do peito dele, de peixeira em punho e pelado como o deixara no nada.

– Meu menino, como encontrou sua casa se tirei o fôlego de lhe largar tão longe?

O menino apertou o ferro na gola do pai, de modo que ele não se mexesse, e falou:

– O pai me soltou no meio das macambiras e fiquei berrando alto pra ver se aprendia a chorar, mas não consegui. Era a fatia entre o dia e a noite quando ouvi uma pisada de bicho. Limpei a remela e abri os olhos pela primeira vez, olhei por cima das espadas do cercadinho e vi que ia chegando pra me comer o monstro mais horripilante da caatinga.

– O capelobo? A cabeça satânica?

– Não, o morsto do sol, que tem corpo de leão, cauda de dragão, pescoço comprido e uma argola de chifres na volta toda da cabeça redonda, e cospe soda. Ele andou até onde eu estava, abriu a bocarra me comeu.

– E não morreu?

– Não morri. Fiquei no bucho do monstro, na gaiola das costelas, procurando uma saída. Quis abrir o ventre do bicho por amor de escapar, mas estava pelado e não tinha peixeira nem cuitelo. Quis escorregar pra fora pelo cu, mas o morsto do sol é evoluído e caga pra dentro. Entrei então de palestrar com o bicho dali mesmo da caveira das tripas e falei que ele não tinha como ser o morsto mais pavoroso da caatinga porque existia outro monstro ainda mais medonho do que ele. Ele inquiriu que monstro era, e onde vivia, e eu falei que ele trazia esse morsto dentro da própria pança. O bicho era furbo e não quis acreditar e eu disse vem espiar o morsto mesmo. Ele ficou curioso e engoliu a própria boca e foi recolhendo o pescoço para dentro até que a cabeça inteira do bicho estava dentro do ventre, só que do avesso, com a carne para fora. Ele falou: não estou vendo e eu falei: é pra já, e usei a corda que me sai do umbigo pra amarrar os cornos dele ali mesmo nas costelas. O morsto entendeu a minha ratoeira e tentou puxar a cabeça pra fora do bucho, mas já era tarde: não conseguia tirar pra fora porque estava presa nele mesmo. Ele então entrou de corcovear e me xingar de tudo que é nome e tentou me cuspir soda, mas só conseguiu cuspir no próprio estômago e ficou ainda mais macho. Só não me safei pela boca aberta por causa da língua do bicho, que é comprida feito cipó e ele usava pra tentar me segurar.

– E como fez pra escapar, minha criança?

– O bicho aquizanou e me xingou tanto que logo cansou e adormeceu. Amarrei ainda outra vez os chifres nas costelas do morsto, só que dessa vez usei de corda a própria língua do bicho. Só então desatei a corda que me sai umbigo, enrolei a porção solta em duas voltas e pus no ombro pra carregar. Saí pra fora pela goela aberta do monstro adormecido e quando vi estava quase em Caicó.

– Que maravilha, meu anjo de Deus!

O menino então usou a lambedeira para rasgar fora a camisa que o pai estava usando, depois apertou de novo o aço na goela do homem e falou: – Mas essa é só a primeira parte da história.



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Versões digitais dos manuscritos da Biblioteca do Monastério de São Brabo, nas Índias Ocidentais.
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