Para os ouvintes deste primeiro discurso de Pedro “arrepender-se” parece ter representado mudar de idéia tanto a respeito de Jesus quanto a respeito de sua mensagem de inclusão. Gente que até aquele momento via Jesus como um criminoso, um herege e um perdedor passava a encará-lo como vencedor, messias e exemplo a ser seguido; De sorte que foram batizados os que receberam a sua palavra; e naquele dia agregaram-se quase três mil almas (Atos 2:41).gente que encarava sua mensagem de graça e aceitação como delírio vulgar de uma doutrina que não se dava ao respeito mostrava-se agora disposta a colocá-la escandalosamente em prática.
Para essa espetacular transformação a narrativa não fornece outra explicação que a incubação do espírito. Fica claro que a metanoia da promessa Pedro não era sustentada pela mera lógica da sua argumentação; ela trazia por endosso o sopro coletivo da terrível lucidez do Espírito. O argumento verdadeiro e o verdadeiro desafio daquela mensagem era a incontornável comunidade dos cento e vinte postados diante da multidão.
Pedro estava, afinal de contas, convidando seus ouvintes (judeus, todos eles) a integrarem uma comunidade tão inclusiva e tolerante que permitia – na verdade exigia – que homens e mulheres adorassem no mesmo espírito, no mesmo recinto e com a mesma voz. Naquela cultura e naquela sociedade poucos escândalos maiores eram tidos como concebíveis, mas essa miscigenação era mera sombra do que ainda estava por vir. Quem seria capaz de abraçar a exigentíssima inclusividade do reino até as últimas consequências? Quem seria capaz de suportá-la?
Em retrospecto, as radicalidades da vida comum devem ter parecido desafio de pouca monta comparado ao de associar-se a uma comunidade disposta a ver-se associada a qualquer um. Estamos todos mais ou menos dispostos a suportar ou desfrutar da vida comum, desde que possamos escolher pelos nossos próprios critérios essa companhia – e aqui, num só golpe da narrativa, três mil impenitentes abriram mão dessa prerrogativa, entregando-se à insanidade de uma comunidade sem verdadeiro critério de admissão além da disposição coletiva de estender esse mesmo cavalheirismo a todos. E fizeram isso, conta-se, porque o espírito de Jesus deixara sulcos suficientemente profundos na sua passagem pela vida de uma centena de testemunhas.
Não é tão cedo, portanto, que devemos decidir ter perdido Jesus de vista no livro de Atos, pois até aqui a coerência ideológica dos evangelhos prevaleceu. “Os que receberam a sua palavra”, isto é, os que acolheram a sua mensagem de inclusão, foram todos imediatamente incluídos – sem trâmite que não o batismo – na comunidade subversiva dos discípulos.
Pode ser preciso salientar que com toda a probabilidade nenhuma outra comunidade na história havia demonstrado tão desarmante disposição à inclusividade – e certamente nenhuma comunidade (além dos desdobramentos do movimento cristão) demonstrou-a depois. Três mil agregados num só dia – esta é a assombrosa marca da ausência de critério de admissão na comunidade dos seguidores de Jesus.
Todos os movimentos sociais são mais ou menos inclinados ao recrutamento; porém as comunidades que se dão ao respeito, especialmente as que alegam para si algum aval divino ou sobrenatural, impõem invariavelmente condições e critérios muito claros de seleção, normas normalmente severas que determinam quem pode e quem não pode participar – sob pena ou temor de resvalarem na mais completa descaracterização.
E como poderia ser diferente? Que grupo, que ideal e que sonho sobreviveriam a uma inclusividade sem restrições?
O filósofo francês Jacques Derrida, furioso mas terníssimo promotor da desconstrução, enquanto refletia sobre problemas e perigos semelhantes concluiu que a verdadeira justiça só se manifesta numa hospitalidade pura, absolutamente sem limites.
Immanuel Kant já havia avançado, em seu tratado sobre a Paz Perpétua (1795), a noção de “hospitalidade universal”, mas tratava-se de uma hospitalidade delimitada por claras restrições. Para o sensatíssimo Kant, uma nação só deveria oferecer hospitalidade sob duas condições: o estrangeiro deveria comportar-se pacificamente no país que estivesse visitando, e tinha o direito de visitar, mas não de permanecer.
Para Derrida, a única verdadeira hospitalidade, ao contrário daquela exemplificada pela cautela de Kant, é absolutamente incondicional – é imponderada e irrestrita e inescapavelmente arriscada. Para Derrida, impor restrições para a hospitalidade é o mesmo que sonegá-la. Devemos estar dispostos a acolher um estranho mesmo que “ele seja o diabo”, mesmo que ele se mostre pronto “a destruir nossa casa”.
O problema com a hospitalidade condicional, explica Derrida, é que ela não consegue estabelecer a paz, porque está fundamentada, em última instância, numa violência. Qualquer comportamento “inaceitável” do estranho será interpretado por nós como violência da parte dele e será corrigido com violência da nossa parte, mas isso apenas porque fomos nós que cometemos a violência de não aceitá-lo incondicionalmente em primeiro lugar. Quando impomos condições para a hospitalidade não estamos verdadeiramente abertos à outra pessoa e não nos confrontamos de fato com ela; o que fazemos nessa postura é anular a alteridade do outro, desfigurando-o e remoldando-o à nossa própria imagem.
O problema com a hospitalidade pura, por outro lado, é que abrir mão de critérios de seleção e de mecanismos de controle não é coisa que seres humanos prefiram de fazer voluntariamente. Intuitivamente sabemos que abrir mão de controle é abrir mão do futuro – e isso comunidade nenhuma deseja fazer, porque seu sonho é a consagração e seu sustento a idéia de permanência. Uma comunidade radicalmente inclusiva é uma ameaça porque não há nela a ordem interna que garante seus próprios resultados e suas próprias premiações; sua ausência de limites nos impede, muito literalmente, de podermos prever onde ela vai parar.
Para Derrida, a verdadeira hospitalidade deve representar uma abertura irrestrita a esse futuro desconhecido, um futuro sobre o qual nada pode ser determinado – a não ser que não será de forma alguma condicionado “pelos conceitos historicamente restritos de humanidade, de ética e de democracia debaixo dos quais trabalhamos atualmente”1.
A hospitalidade radicalmente inclusiva produzirá, para usar a linguagem dos evangelhos, um reino sobre o qual só podemos falar através de comparações. Para adentrar o reino será preciso abrir mão daquilo que nos é mais caro – e deve estar evidente que o que valorizamos acima das possessões são os nossos critérios. Quem ousará arrepender-se/mudar de mentalidade, passando a ignorar as normas políticas, sociais, culturais, econômicas, sexuais e religiosas de relacionamento a fim de pisar o domínio desconhecido e arriscado de uma inclusividade radical? Quem irá se dispor a despojar-se de tudo que possui para adquirir a pérola que ninguém parece querer? Quem ousará adentrar voluntariamente o campo minado do Reino?
Muito claramente, só será capaz de fazê-lo quem tiver sido devidamente seduzido pelo Não-condicionado, aquele que estiver inteiramente imbuído do seu espírito. Em seus dias na terra Jesus já havia trabalhado em todas as frentes para fazer avançar a noção de que as respostas de Deus, ao contrário das nossas, não são condicionadas. Sua santidade é singularidade de critérios, não distância espiritual. Deus, ao contrário de nós, derrama generosidade sobre justos e injustos. Deus come com pecadores e toca os impuros. Deus está trabalhando quando cremos que só é seguro descansar. Deus é amor, e as obrigações do amor só o que não é amor pode restringir.
A narrativa de Atos vai revelando, passo a passo, as tremendas consequências e desafios associados a essas vertigens. Se Deus não é condicionado, nossa hospitalidade – nossa disposição à tolerância e à aceitação – também não deve ser. Se Deus não é condicionado, o futuro também não deve ser. Se Deus é amor, amar é prover expressões tangíveis e mensuráveis do incondicional2.
E esses desafios veremos quem estará disposto a abraçar, e até onde.

Rastros dos apóstolos
- Como perder Jesus de vista no livro de Atos
- Ascensão sem trégua das testemunhas
- A escassez seletiva: selecionar é interpretar
- O Jesus terreno e o Cristo extraterrestre
- Com as mulheres
- Como reconhecer, entre dois discípulos, um apóstolo
- A plenitude dos tempos
- A verdadeira mensagem
- A lucidez profética
- A vexação de Satanás
- A volta ao que poderia ter sido
- A fermentação da morte
- A incubação do espírito
- Formato mínimo
- O que se diz é o que não se diz
- A linhagem do batismo
- As transgressões do céu
- Um mundo além do perdão
- Breve história do arrependimento
- Arrepender-se é mudar o mundo
- As possibilidades do futuro
- Pecar é omitir-se
- O escândalo da hospitalidade
- A invenção do não-condicionado
- O fim do mundo
- Os recursos necessários
- O que havia sido usurpado
- O fim de todos os governos
- A mesa universal e as redentoras transgressões
- Os discursos ausentes: céu e inferno
- Os discursos ausentes: Jesus morreu em seu lugar [1]
- Os discursos ausentes: Jesus morreu em seu lugar [2]
- Os discursos ausentes: Jesus vai voltar
- Os discursos ausentes: prosperidade
- Os discursos ausentes: Jesus te ama
- A Palavra presente
- A disciplina da inclusão
- O acaso e o herói
- A divina soltura
- A graça dos vasos comunicantes
- A invenção da gentileza




