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13 de Janeiro de 2010

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Entregue em consignação por   Paulo Brabo

 

Estocado em Manuscritos

Ela era a única que podia sair de casa, e a única que não podia fazer nada para fazer os homens irem embora. Está certo que ela só podia sair quando eles deixavam, e eles ficavam olhando pela fresta da cortina para ver se ela estava indo como eles tinham mandado na direção do mercado. Ela andava corada e de braços colados no corpo, como um robô, de medo de demorar e de medo que alguém parasse para perguntar onde ela estava indo sozinha.

Ela fazia exatamente como eles mandavam porque – ela ainda sentia o bafo do Mais Magro falando com ela, um bafo que podia ser de bebida ou de má higiene ou daquela coisa pior – nós estamos com a sua família. Não faça nenhuma besteira ou a gente acaba com eles. E ela tinha imaginado sua família estirada no chão da varanda de trás, como o Valente que o Mais Gordo havia pisoteado até fazer sair dele flores vermelhas que ela nunca imaginava que havia dentro dele, que era dela mas agora estava no céu dos cachorros, onde tem pessoas para cuidar deles. Ela imaginava como seria se toda sua família fosse para o céu dos cachorros cuidar do Valente e deixassem ela sozinha na terra, com os homens. E quando ficasse velhinha, no céu das pessoas, não haveria ninguém para cuidar dela e da casa enorme. E se chegasse antes, como seria e quem cuidaria da casa, depois que o Mais Gordo fizesse sair dela flores vermelhas.

Ela tinha dinheiro apertado na mão e uma lista de compras na bolsinha cor-de-rosa. Passou na frente da casa da Dona Edna e ela estava fuçando o jardim e não queria visse ela passando, mas a Dona Edna ergueu a mão de luva verde e uma pazinha laranja suja de terra e disse Pamela, como está sua mãe e ela só sorriu e fez que estava com pressa. Ficou vontade de entrar saltitando pelo caminhozinho de cimento vermelho e cheirar o canteiro de rosas e contar Temos bandidos em casa, mas lembrou a coisa terrível que o Mais Gordo tinha feito com o seu pai, e ele tinha prometido que faria pior se ela um demorasse mais de vinte minutos, dois falasse com qualquer pessoa e três chamasse a polícia. Eles tinham feito ela repetir as regras várias vezes. E o Pai tinha dito Menina do Pai, faça exatamente como eles estão mandando, e naquela hora ela tinha visto nos olhos do Pai, que ela nunca tinha visto chorando e nunca tinha visto com tanta raiva, que ele não estava preocupado com ele mesmo mas com a Mãe e com as meninas, e isso deixou ela mais com medo do que qualquer outra coisa que os homens tinham feito, até contando o que tinham feito com o Valente. Mas na imaginação ela contou à Dona Edna o que tinham feito com o Valente e ela tirou as luvas para dar um abraço ali mesmo no jardim e dizer que maldade e agora está tudo bem.

Foi na volta do mercado, ela com duas sacolas na mão, que o carteiro que estava escondido atrás de uma van quando ela virou a esquina atravessou a rua para falar com ela, porque ele vivia dizendo que era amigo dela quando conversavam pela grade e ela estava brincando de massinha ou dando banho no Valente ou abraçada nas pernas do Pai enquanto ele tomava cerveja Verão sentado na varanda no último calor da tarde.

Minha amiga foi ao mercado, disse o carteiro feliz, nunca sabia que você já tinha autorização para andar sozinha por aí. E ela disse já sou uma moça, e era o que todos diziam, e disse também, tchau, e o carteiro, ei, que tanta pressa, como está aquele cachorro bonito que faz dias que não vejo. E ela pensou em contar minhas irmãs estão presas no quarto e minha mãe está deitada na banheira e meu pai está amarrado no chão do quarto vestido com roupa de trabalho mas com um pé de meia só porque ele nunca conseguiu vestir a outra meia. Mas não disse nada porque não podia demorar e não podia falar com ninguém e não podia chamar a polícia, só falou o Valente não está mais entre nós, como tinha visto a Dona Mércia falar sobre a mãe dela, mas isso foi pior porque ele achou graça e riu alto. E disse achei que estavam viajando, não vi mais ninguém em casa, e ela disse não. Ele foi se abaixando para ajudar ela a carregar as sacolas pesadas mas ela não quis e puxou as sacolas para longe e então a Dona Edna apareceu no portão de testa franzida e perguntou, Menina, está tudo bem, como se o carteiro nem estivesse mais ali.

Tenho de ir pra casa, ela explicou e olhou para ver se dali o Mais Magro podia vê-la com aquelas pessoas se estivesse espiando pela cortina com o revólver do porta-luvas do Pai na mão, mas não tinha como saber por causa das árvores da rua e a Dona Edna já estava tirando as luvas e saindo pelo portãozinho e querendo saber o que estava acontecendo. Eu só queria ajudar a menina, não sei como deixam uma menina tão pequena ir sozinha ao mercado, e ela corrigiu já sou uma moça, esperando que aquilo explicasse tudo, e a Dona Edna falou, Pamela, está tudo bem, quer que a gente leve você pra casa? Ela disse NÃO, não precisa, é tão perto e deu um passinho e a Dona Edna, tem certeza mesmo, seus pais estão bem, tudo bem em casa, e disse ao carteiro também nunca vi isso, ela nunca sai sozinha, e ele, faz dias que não vejo movimento na casa.

E ela ficou ainda mais corada e entendeu, com tanta inteligência e tanto frio na barriga que nunca sabia que era tão moça para experimentar, que estava fazendo uma Coisa Errada e que se não arranjasse um jeito de deixar o carteiro e a Dona Edna falando sozinhos naquela mesma hora quem seria castigado seria a Mãe e o Pai e as suas irmãs. Os bandidos tinham falado que iam acabar com a família dela se ela não seguisse as regras um dois e três, e ela ficou pensando será que começariam pela Mãe e será que usariam o revólver.

Ela pensou que deveria parecer tranquila e mudou o rosto completamente e disse bem feliz não posso falar tenho de correr pra casa e saiu gingando apostando corrida com as sacolas, e o carteiro sorriu e falou que menina sapeca e foi andando devagar atrás dela pela calçada. A Dona Edna gritou vou ligar pra sua mãe pra saber se está tudo bem e subiu os degraus do portãozinho batendo as luvas do lado da calça e ela gritou mais forte ainda o telefone está com problema, como tinham falado que ela deveria falar.

Quando ela colocou as sacolas no chão devagar para as coisas não caírem e foi fechar o cadeado do portão pequeno o carteiro passou por ela e pegou na sua mãozinha e perguntou está tudo bem mesmo e ela pensou na regra número dois e com a outra mão puxou uma coisa da bolsinha cor-de-rosa e escondeu na mão do carteiro e desejou nos olhos dele é o nosso segredo, só olhe depois, e ele abriu um pouco a mão para olhar o que ela tinha colocado ali, mas ela já tinha pegado as sacolas e estava descendo a rampa do carro.

Quem abriu a porta para ela foi o Mais Gordo e enquanto gritavam com ela ela ficou pensando no carteiro lá fora com a meia do pai dela na mão.

Pamela

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