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15 de Janeiro de 2010

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Investigado por   Paulo Brabo

 

Estocado em Manuscritos

Ela era a única que saía de casa todos os dias para a escola; os homens tinham feito o Pai ligar para o trabalho dizendo que estava com problema de família em outro estado e passaria pelo menos uma semana fora, e tinha ligado também para a Diretora para falar que a Mira e a Natália estavam muito doentes e que só a Pamela estava indo para a escola não sei por quantos dias. As manhãs estavam cinzas e tinha um vento frio que entrava por todas as frestas e fazia as janelas sacudirem, e quando a van buzinava o Mais Magro abria a porta e ela saía pelo portãozinho com a mochila da Pucca e sua jaqueta de náilon amarela que tinha pelinhos ao redor da touca e embarcava e gritava com todo mundo e fazia as lições e comprava lanche e brincava no parquinho com a Amanda e com a Beatriz e cobria uma ou duas páginas de caligrafia sem que ninguém mandasse, e no final o pai da Amanda que era bonzinho empurrava uma por uma no balanço e ainda pegava ela no colo e dava um beijo. Um dia ele perguntou como estavam as coisas em casa, e ela sorriu e não disse nada, mas viu a mãe da Amanda esperando no carro e lembrou que não via sua própria Mãe há quatro dias e que aquele era o quinto, porque tinha marcado cada dia com um grampo de cabelo colorido no bolso do gorila Vicente, vermelho, azul-claro, amarelo, verde e amarelo queimado; só tinha visto o canto do cabelo vermelho dela saindo para fora da banheira numa das vezes que tinha levado os pratos de papelão para a suíte.

Então chegou de novo o sábado e no sábado ninguém saiu de casa. As nuvens tinham girado a semana toda por cima da cidade, muito baixas, mas foi só no domingo antes do almoço, enquanto ela assistia televisão com o Vicente, que estalou uma carreira de trovões e começou a chover, e na mesma hora tocou a campainha. Não a campainha da rua, mas a da varandinha, que ficava junto da porta da frente.

O Pai começou a gritar lá em cima por trás da mordaça, e o Mais Gordo, que tinha olhado furioso para ela por ter deixado o portãozinho sem o cadeado, correu e tirou todos os celulares de cima da mesa e guardou na primeira gaveta do balcão. O Mais Magro saiu da cozinha e subiu correndo levando a Mira e a campainha tocou de novo e os gritos lá em cima pararam de repente, mas por causa da chuva talvez ninguém tivesse escutado.

O Mais Gordo prendeu a faca no cinto no meio das costas, logo em cima da bunda, e levantou ela nos braços para ela olhar pelo olho mágico e dizer quem era. É o carteiro, ela falou baixinho, e o Mais Gordo achou estranho porque era domingo e os carteiros não trabalham no domingo, mas não disse nada. Ele abaixou ela no chão, fez sinal para ela ficar de bico fechado, como já tinham combinado tantas vezes, e abriu a porta.

Bom dia, o carteiro falou e sorriu, que chuva, e estava sem o uniforme e de bermuda xadrez com quadrados pretos e brancos e tênis e camisa verde estampada para fora da calça e capanga de couro e chaves do carro na mão e ela não esperava ver ele daquele jeito. Ela tremeu porque podia ver o carteiro e o carteiro podia ver ela, e ela podia ver a faca e ele não podia ver a faca, e o Mais Gordo sem abrir a porta inteira falou bom dia.

O carteiro então virou o corpo para olhar para dentro e sorriu para ela e disse, bom dia, minha amiga, e ela não disse nada. O que foi, o Mais Gordo falou, e o carteiro falou com ela seu pai está em casa, e na mesma hora em que o Mais Gordo falou ele saiu ela falou ele está lá em cima, porque não tinha como falar uma mentira enquanto o carteiro olhava direto nos olhos dela. Então o carteiro levantou as sobrancelhas e olhou para o Mais Gordo e ele disse então já chegou, deve estar lá em cima descansando.

Posso falar com ele, o carteiro falou, estou com uma coisa que acho que pertence a ele, e o Mais Gordo deixa que eu entrego e o carteiro se não for incômodo prefiro entregar eu mesmo. Ela respirou fundo e teve coragem de dar um passinho e estendeu um pouco a mão e disse quer entrar e o carteiro já estava entrando e pegou na mão dela e estavam frias e sentou no sofá de frente para ela, e quando ele sentou o Vicente afundou devagar no sofá e encostou a cabeça na perna dele.

Você não quer ir lá em cima chamar o seu pai, o Mais Gordo falou com ela, mas lá de cima alguém disse já estou descendo, e ela ficou corada na hora porque não era a voz do Pai, era a voz do Mais Magro, e o Mais Gordo andou até a escada e tomou cuidado para não ficar de costas para o carteiro, e enquanto ele subiu o Mais Magro desceu, e estava de boné. O carteiro ficou em pé na hora e sorriu e estendeu a mão para ele pegar e disse bom dia, acho que já nós vimos alguma vez, sua filhinha é linda, como é mesmo o nome do senhor, e o Mais Magro disse na hora Rafael e apertaram as mãos bastante tempo, o Vicente olhando tudo deitado no sofá.

Senta, disse o Mais Magro, e sentaram os dois, e o Mais Magro falou tem uma encomenda pra mim, e o carteiro riu e pegou a capanga que tinha deixado na mesinha e falou não sei bem se é uma encomenda, e abriu a capanga e ficou mexendo nos bolsos lá dentro e depois puxou para fora duas meias marrons de homem que estavam bem dobradas lá dentro e estendeu para o Mais Magro, e ela estava muito muito vermelha e olhou para o carteiro, depois para o Mais Magro e depois de novo para o carteiro, mas ninguém estava olhando para ela, e o carteiro ainda estava com as meias na mão.

Depois de muito tempo o Mais Magro ficou muito sério, respirou fundo, pegou as meias e falou onde você encontrou, e o carteiro, são meias muito elegantes, estamos achando que são italianas. Estavam num pacote que se molhou com a chuva e o endereço se perdeu; só sabemos que é nesta rua. O Mais Magro acariciou as meias e olhou para o carteiro e falou macio quem é o remetente, e o carteiro na hora, o pacote se perdeu, e ela deu um passo para trás e viu que o revólver do Mais Magro estava preso no cinto nas costas dele no mesmo lugar em que o Mais Gordo tinha colocado a faca dele.

No silêncio que ficou ela ficou com medo que o Mais Magro olhasse pra ela e perguntasse se ela já tinha visto aquelas meias alguma vez?, porque se ele perguntasse ela ia começar a gritar e a bater com os punhos fechados com toda a força e falaria para o bandido você não é o meu Pai, meu Pai está amarrado lá em cima e vocês machucaram ele, mas agora tinha medo de que os bandidos fizessem aguma coisa ruim também com o carteiro, se desconfiassem que ele sabia de alguma coisa. Podiam acabar com ele.

O Mais Magro estendeu as meias de volta e disse que eram muito bonitas mas não eram dele, obrigado, não estou esperando nenhuma encomenda de meias, e o carteiro pegou as meias e falou tem certeza, e o Mais Magro nem respondeu. O carteiro amassou as meias e guardou no bolso da camisa estampada e disse parece que a chuva está passando, e o Mais Magro ficou em pé e disse boa sorte para encontrar a sua Cinderela e puxou ela para junto do corpo dele com as duas mãos no ombro dela, como se os dois fossem muito chegados e como se ela fosse mesmo filha dele, e ela ficou zonza e teve vontade de vomitar, e ele ainda sorriu e o carteiro também sorriu e levantou, e na imaginação dela o carteiro também tinha um revólver escondido nas costas e estava pronto para puxar depressa o revólver agora que estava em pé e apontar para o nariz do Mais Magro e ia falar tira as mãos da Menina e o Mais Magro levantaria as mãos e ela correria abraçar o carteiro e fecharia os olhos e o revólver faria click e seus pais ficariam muito agradecidos e diriam para o carteiro vir morar com eles e fariam uma casinha especial só pra ele no meio do quintal. Mas ele só ajeitou o Vicente no sofá e foi andando até a porta.

Obrigado e bom dia, um bom dia, menina, e ela correu até a porta, que o Mais Magro estava pronto para fechar, e já estava com o Vicente debaixo do braço. Espera, ela falou; sua vontade era choramingar para o carteiro e pedir me leva contigo, eu e o Vicente estamos prontos para quebrar as regras dos bandidos e chamar a polícia, mas não podia fazer isso porque não era certo deixar o Pai e a Mãe e as meninas com os bandidos enquanto ela e o Vicente ficavam com o carteiro e com a polícia, então não disse nada, só estendeu a capanga e as chaves que o carteiro tinha esquecido em cima da mesinha e o Mais Magro, que não queria de jeito nenhum que ela chegasse perto do carteiro, pegou da mão dela e entregou na mão do carteiro, e disse criança é foda, e aquilo não soou como uma coisa que o pai dela teria dito, mas o carteiro ainda agradeceu obrigado.

Está tudo bem, o carteiro falou olhando direto no olho dela e ela ainda disse tudo bem, mas para falar a verdade não tinha entendido se ele tinha feito uma pergunta. Ela olhou bem nos olhos do carteiro para ver o que ele estava pensando, mas só encontrou cansaço, não achou sinal de que ele sabia o que estava acontecendo ali na casa dela ou de que tinha entendido as coisas que ela vinha deixando pra ele. Ela teve a impressão de que o que ele diria se pudesse é que já tinha feito mais do que a obrigação aparecendo na casa dela daquele jeito no domingo, e que já era hora dela parar de brincadeira e deviam ir cada um para a sua casa e deviam esquecer o assunto e se distrairiam com a televisão e comeriam Doritos e veriam as vídeocacetadas e todos sorriram e o Mais Magro pediu para o carteiro fechar por gentileza o cadeado do portão quando saísse e ele, sem problema e a porta fechou.

E ela notou que não estava parando de chover coisa nenhuma.

Pamela

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Versões digitais dos manuscritos da Biblioteca do Monastério de São Brabo, nas Índias Ocidentais.
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