12 de Novembro de 2010

Cada dia

Depositado em juízo por   Paulo Brabo

 

Estocado em Manuscritos

1

Numa plantação irrigada trabalhava todos os dias um plantador de arroz chamado Poju.

As imensas quadras inundadas onde crescia o arroz de Poju estiravam-se numa ampla área de várzea ao longo da margem esquerda do Rio Branco, em cujas águas cor de pérola Poju gostava de nadar.

O vilarejo de Poedi ficava uns três quilômetros rio acima, mas Poju não ia à cidade com frequência. Ele morava sozinho com uma tia-avó numa casinha de madeira pendurada na lateral íngreme de um morro, na margem oposta do rio. Não havia vizinhos próximos, e fora uma viagem ou outra a Poedi para comprar a comida que não tinha como plantar, colher ou pescar, Poju passava os seus dias solitário, sem conversar com ninguém.

O plantador de arroz tinha mais de trinta anos, olhos impenetráveis, cabeça raspada. Não era alto demais, mas era tão forte e encorpado que dava uma impressão de gigante: os braços eram poderosos sem serem muito musculosos, as pernas muito brancas sustentavam uma caixa torácica impossivelmente larga, mais do que qualquer tronco de árvore. Quem o via de longe, de costas, sem camisa e inclinado para frente na água rasa de uma das quadras de arroz, podia ir embora com a impressão que tinha visto uma imensa pedra branca plantada na paisagem.

Mas a pedra se mexia e tinha coração. Poju dava mais um passo, as pernas e braços mergulhados na água, os dedos alisando, sondando, avaliando as hastes tenras do arroz. Em outra época os mesmos dedos estariam plantando as mudas, em outra empunhando a foice de mão para colher.

Ano após ano, a mesma paisagem e o mesmo arroz.

Nunca tinha falado sobre isso com ninguém, mas para Poju era coisa certa que, tivesse tido oportunidade, teria escolhido outro destino e outra ocupação. A verdade é que ele sentia-se forte e possante demais para passar os dias com água até os joelhos, como um búfalo. Sem que ninguém soubesse, ele escutava com inveja a conversa distante e despreocupada dos pequenos grupos de soldados que passavam pela estrada para passar em Poedi os seus dias de folga. Doía irremediavelmente em Poju sentir-se mais forte do que qualquer um eles; ter certeza que se tivesse chance demonstraria em combate mais ousadia, mais garra e mais resistência do que qualquer um.

Poju sonhava acordado com esse destino de homem de ação: se não o de soldado, o de explorador, de guerreiro, de caçador – o tentador destino de glória aberto a todos e a cada um, mas que no seu caso não passaria de um sonho. Sua sorte de plantador de arroz não mudaria nunca e não tinha como mudar.

Alguém que conhecesse esse seu anseio poderia pensar que lhe faltava a coragem de perseguir o destino que lhe apontava o coração. Não era verdade, e também é por isso que ele nunca falava sobre o assunto com ninguém. A Poju não faltava coragem, ele sabia, mesmo que nunca pudesse chegar a prová-la.

Faltava outra coisa.

Os olhos do plantador de arroz eram fracos, miseravelmente fracos. Poju não tinha como perseguir o sonho de homem de ação pelo motivo mais trivial e intransponível de todos: enxergava mal.

Seria incorreto dizer que Poju era cego, porque ele enxergava alguma coisa – mas essa alguma coisa não tinha definição, não tinha nitidez. À distância, Poju via como que por um vidro muito embaçado, como que através de uma carregada neblina. Ele não era capaz de distinguir formas nem traços da paisagem, apenas algumas cores, vagas formas e sombras.

Na prática, Poju enxergava apenas vultos muito indistintos e havia aprendido a guiar-se por eles. Ele podia dizer se havia alguém se aproximando, mas não saberia dizer quem; se erguesse os olhos em qualquer ponto da plantação, seria capaz de enxergar a linha escura que marcava o trecho de mato fechado ao longo da margem do rio – mas não era capaz de distinguir uma árvore da outra.

Era só muito de perto, quando chegava quase a tocar-lhe o rosto, que Poju era capaz de enxergar o que poderiam ser os primeiros traços distintivos de qualquer coisa, mas o fato é que ele não tinha como saber.

Como resultado da sua condição, não era apenas o sonho de herói que lhe havia sido negado. As coisas ricas e belas a que as outras pessoas estavam habituadas ele desconhecia. Poju nunca tinha visto os mares da lua, o cintilar das estrelas, o vôo de um gavião. Não seria capaz de reconhecer um rosto, nem mesmo o mais querido e mais próximo. Nunca tinha lido um livro. Não tinha mesmo como saber – e isso o incomodava muito – se era bonito, e naturalmente não teria coragem de perguntar.

O que acontecia com ele é que cada dia apenas chegava ao fim, um atrás do outro, e Poju tomava da plantação a direção de casa, apoiado em sua vara de caminhada.



Inquisição


Arquivos


Versões digitais dos manuscritos da Biblioteca do Monastério de São Brabo, nas Índias Ocidentais.
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