05 de Fevereiro de 2010

As possibilidades do futuro

Depositado por   Paulo Brabo

 

Estocado em Manuscritos

Se foi necessário tamanho parêntese para recuperarmos parte do sentido de duas únicas expressões da resposta de Pedro – “arrependam-se” e “sejam batizados“, é para ficar demonstrado que a aparente solidez das palavras é totalmente ilusória. As palavras são pedras que no rio do tempo perdem por completo as suas arestas e adquirem outras formas.

Os estudiosos dessas transformações linguísticas explicam que quando examinamos uma palavra hoje em dia, por mais aplicada que seja a nossa investigação, não temos como saber o formato exato que tinha essa mesma palavra há cem ou duzentos anos. A norma inflexível é que, com a acumulação dos incidentes do tempo, vai ficando mais difícil determinar como determinado termo era usado ou interpretado numa dada época. Isso sem contar o fato de que, mesmo dentro dos limites de um único intervalo de tempo (digamos, na nossa própria época) ou de um único autor (digamos, este), uma palavra não se submete a assumir um significado fixo, mas insiste em esconder sua nudez atrás de nuanças e fluididades.

Como resultado, as palavras, que deveriam servir para elucidar os sentidos, acabam encobrindo-os. Deveriam servir para garantir a fixidez de antigos registros, e acabam por sequestrá-la. O viajante do tempo que dispõe-se a recuperar os significados originais de um texto razoavelmente antigo (isso supondo-se que exista algo tão singelo e inequívoco quanto um “significado original”) deve procurar corrigir a maleabilidade das palavras à luz de escavações arqueológicas e idiomáticas, e consertá-las precariamente pelo cinzel e pelo gesso de outras palavras – precisamente como temos tentado ao longo destes últimos capítulos. Mas esta está longe de ser uma ciência exata, e cada restaurador produzirá novas matizes e pinceladas a partir do mesmo quadro original.

No caso do texto bíblico, a dificuldade no processo de restauração dos sentidos é acentuada por dois fatores. O primeiro é a formidável distância cultural que nos separa das sociedades que produziram os textos originais. Estamos falando de gente que habitava um idioma e uma cultura com prioridades e símbolos espetacularmente diversos dos nossos. Podemos ter quase por certo que encontraríamos mais pontos de contato e mais preocupações em comum com um visitante de uma civilização extraterrestre do que com um judeu do primeiro século – perplexidade que apenas aumentaria se nos postássemos diante de um peludo patriarca como Abraão ou um de um desgrenhado profeta como Elias. Sabemos o que alguns desses disseram ou escreveram, mas isso pode não ser o mesmo que saber o que pensavam ou o que queriam dizer.

A segunda dificuldade a ser levada em conta na determinação dos sentidos bíblicos originais são as camadas inclementes de interpretação e teologização a que os textos foram submetidos ao longo dos milênios. A erudição cristã sujeitou ao seu escrutínio virtualmente cada milímetro da superfície de ambos os testamentos: revirou cada pedra, mediu cada til, pesou cada maiúscula e publicou suas anotações. Graças à intervenção onipotente dos comentaristas, é hoje em dia virtualmente impossível aproximar-se da Bíblia pelo que ela é, como quem se coloca diante do texto pela primeira vez. O resultado é que em vez de salvaguardar os sentidos originais, os exegetas conseguiram garantir que jamais nos aproximaremos legitimamente dele (pelo menos não pela via da leitura, e esta é parte da boa nova). Mesmo para aqueles de nós que sabem-na de cor, a Bíblia permanecerá para sempre um livro desconhecido. Pensamos tanto sobre ele que o esgotamos de qualquer significado. Interpretar a Bíblia é perder o Jogo, e nossa única chance seria esquecê-la.

Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo, para remissão de vossos pecados; e recebereis o dom do Espírito Santo.

Ou,

Abracem a nova mentalidade inclusiva [porque o Reino foi inaugurado, e sua divina vocação é alterar todas as estruturas exclusivas do mundo], e cada de um vocês seja mergulhado na pessoa de Jesus, o messias, tendo em vista a absolvição das suas faltas, e receberão de presente [pela sua imersão na comunidade subversiva dos que foram tocados pela singularidade de Jesus] a lucidez do seu singularíssimo espírito.

É um instante momentoso, qualquer que seja a tradução a que você escolha recorrer. Porque o que está dito aqui é que os primeiros candidatos a seguirem a herança de Jesus depois de sua execução fizeram aos apóstolos uma pergunta exemplar e bastante prática – “o que uma pessoa deve fazer para honrar a obra e a herança de Jesus?” – e receberam uma resposta, para os padrões do cristianismo institucional, pouco ortodoxa: “abracem a vocação de mudar as estruturas do mundo” (arrependei-vos) e “sejam imersos na comunidade inclusiva que produz a incubação e a consequente lucidez do espírito” (e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo, para remissão de vossos pecados; e recebereis o dom do Espírito Santo).

É uma resposta revolucionária e subversiva – isto é, inteiramente digna de Jesus – porque não inaugura e não cancela nenhuma religião, não introduz nenhum rito e não rebaixa-se a qualquer teologia. Se é certo que um dos objetivos essenciais do livro de Atos dos Apóstolos é delinear é o formato mínimo da experiência cristã, esta será sua mais frequente e consistente resposta: arrependimento e batismo – os quais, decodificados pela narrativa de Lucas, representam subversão da ordem exclusiva do mundo e imersão na comunidade inclusiva dos tocados pela lucidez singular (ou Espírito Santo) de Jesus.

E, como se verá, a nova comunidade se mostrará tão radicalmente inclusiva que não tomará qualquer passo para distinguir-se do judaísmo de seus primeiros adeptos. Os perplexos ouvintes de Pentecostes, precisamente como os cento e vinte discípulos antes deles, são judeus, continuarão se considerando (e se comportando) como judeus e – não menos importante – permanecerão sendo vistos como judeus pelos demais representantes do judaísmo. O arrependimento e o batismo não fará deles convertidos a uma nova fé, não mudará o seu livro sagrado e não alterará em uma vírgula a sua vocação. O que está nascendo não é uma nova religião, mas um novo e irresistível movimento que não tem precedentes e não pode ser adequadamente descrito – “a que compararei o reino de Deus?”. Uma religião muda a forma como um homem reza; a árvore que está nascendo nesta menor das sementes deverá ser capaz aninhar o mundo e acolher em seus ramos todos os homens.

– Porque a promessa – explica o pescador, ainda surpreso diante da sua própria disposição em não excluir ninguém das possibilidades que espreitam no futuro – pertence a vocês, e aos seus filhos, e a todos que estão longe. Pertence a quantos o Senhor nosso Deus chamar.



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Versões digitais dos manuscritos da Biblioteca do Monastério de São Brabo, nas Índias Ocidentais.
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