Quando a menininha se aproximou o pai de quase trinta e o filho de dez anos estavam sentados juntos na restinga repartindo um cigarro de maconha, sob a bênção de um poste de luz e de uma palmeira. Eram mais de nove da noite e um vento quente seguia a curva da praia em direção a eles. Dois pontos luminosos no horizonte denunciavam os barcos em que todos deveriam embarcar amanhã.
– O que as pessoas estão fazendo lá na lagoa? – a menininha quis saber, enrolando obsessivamente a borda do vestido até formar uma ponta que pudesse puxar. Não deveria ter mais de quatro anos, e estava descalça como eles dois.
Na lagoa comprida e escura diante da igreja, a menos de quatrocentos metros dali, homens de terno escuro e mulheres de túnicas brancas alternavam-se mergulhando uns aos outros na água salobra, metade água da chuva, metade água do mar, gritando muito e sacudindo os braços na luz frenética do incêndio.
– Estão se batizando – disse o pai. – Você deveria saber, sua mãe está ali.
A menina olhou um instante para a lagoa, os olhos turvos de absoluta distância e absoluta incompreensão. Depois fez beicinho e enfiou um pezinho na areia, como via que o menino estava fazendo.
– E por que as casas estão pegando fogo? Por que a igreja está pegando fogo?
– Porque estamos todos indo embora amanhã – o pai sugou a fumaça e deixou que penetrasse.
– Pra sempre? – quis saber a menina.
– Pra sempre – ele respondeu sem exalar.
A menininha suspirou, como se contemplasse o universo pela primeira vez, mas em momento algum deixar de puxar a ponta do vestido.
– Mas se vai todo mundo embora e não vai ficar ninguém aqui, porque estão queimando as casas?
– Porque vai todo mundo embora – indignou o menino, puxando o cigarro do pai.
– Porque há muitos anos não havia na ilha casa nenhuma – explicou o pai, – e as coisas vão aos poucos voltar a ser como eram. Como eram naquele tempo.
A menininha congelou no seu lugar diante dessa lógica, quedando imóvel como uma estátua.
– Mas você está muito certa em perguntar – o pai fez um gesto vago que incluiu o céu, a terra e o mar. – As pessoas é que são estranhas. Preferem queimar o presente do que deixar o passado para outra pessoa desmontar.
E estendeu a mão exigindo o cigarro de volta. Nesse momento as pessoas na lagoa começaram a cantar, de mãos dadas e braços erguidos. O pai acompanhou a música com a garganta, mas só abriu os lábios para acolher o cigarro.
A menina foi indo embora e o menino disse:
– Acho que ela nunca tinha visto um anão.





