21 de Maio de 2010

Afrasíabe e a quinta disciplina

Apresentado sem comentários por   Paulo Brabo

 

Estocado em Manuscritos

Haviam entrado num enorme labirinto de cozinhas, despensas e refeitórios abandonados, os pés descalços jurando silêncio contra o piso de enormes lajes de pedra.

– As cozinhas ininterruptas de Ufdebuch – disse Afrasíabe a Igmo Ma’wt, e ambos avançaram com as mãos pousadas sobre o cabo ornamentado dos gládios que traziam em bainhas de linho.

Andaram metade do dia sem encontrar intervalo no arranjo de mesas, fogões, pias, armários e fornos que se estendiam em perfeito silêncio em todas as direções. Havia fossos de luz e pátios internos cercados de colunas, mas poucas janelas, e nada além de armários e fornos dividia uma sala da outra; cada ambiente era no máximo separado por um vago desnível e interligado por um degrau de pedra ou dois.

Quando o sol derramou-se vertical dos poços de luz souberam que era o meio do dia e pararam no meio daquele deserto para comer. Mal haviam aberto os seus farnéis e um estrepitoso despencar de panelas se fez ouvir a vinte passos dali; sem qualquer intervalo seus gládios farejavam muito eretos o ar e seus ouvidos vasculhavam o silêncio morto em busca de algum perigo. Não ouvindo mais nada, concluíram que um pássaro – dos quais só se ouvia nos beirais, de vez em quando, o murmúrio – havia transtornado algum equilíbrio ancestral. Igmo Ma’wt baixou o pé que havia colocado sobre a mesa, Afrasíabe voltou a sentar diante do lenço de comida e embainharam os dois as suas armas.

– Dizem que há fantasmas neste lugar – disse Afrasíabe, puxando um pedaço de carne seca. – Dizem que se escondem nos velhos barris, ou tomam a forma de velhos barris.

– Você sabe dizer o que representam essas estátuas que encontramos em cada um desses nichos? Não são cozinheiras – ele mordeu um pedaço de pão enrijecido. – Isso que trazem nas mãos não parecem facas. São por acaso imagens de velhas deusas?

– Não são cozinheiras e não são facas. O que você está vendo são as estátuas mortuárias das Zdaure, as anciãs guerreiras de Ufdebuch. Não me diga que não ouviu falar.

– Pensei que fosse lenda.

– Há lendas menos estranhas – Afrasíabe extraiu do cantil um gole d’água. – As candidatas a Zdaure treinavam desde os três anos de idade, e só quando completavam sessenta e cinco podiam unir-se à Ordem. Se sobrevivessem, é claro, às provas. Lutavam tão bem que despertaram a inveja dos deuses, e os jovens guerreiros vinham de longe para serem treinados por elas.

– Você chegou a vê-las lutando?

– Ninguém as viu lutando, Igmo Ma’wt, e encontrou brecha para contar. Eram as Zdaure que treinavam os áinars de Puliq, e foram delas que eles aprenderam a Quinta Disciplina.

– A disciplina do silêncio e da morte.

– A disciplina da qual não se deve falar – corrigiu Afrasíabe. – Os maiores e melhores áinars permaneciam em Ufdebuch, e em troca do treinamento de seus soldados ofereciam favores sexuais às guerreiras anciãs. Na verdade, os grandes guerreiros não tinham permissão para deitar-se com mulher alguma que não fosse uma Zdaura.

– Você já esteve neste lugar – disse Igmo Ma’wt, e era apenas em parte uma pergunta. – Seus olhos olham para as coisas com demasiada familiaridade e com demasiado espanto.

– Passei algumas semanas em Ufdebuch antes da sua queda – ela não hesitou em confirmar. – Nestas salas se preparavam e comiam os mantangos de Masï, que tem as pernas muito grossas e ocas e a altura de dez homens. Cozinhavam-nos em sua própria urina nessas panelas enormes, ou assavam as línguas e os membros como se fossem leitões. Enquanto comiam os áinars cantavam, dançavam e faziam exibições de ginástica, e dos tonéis não cessava de jorrar o buril, a cerveja de sangue. As Zdaure observavam em silêncio nos cantos das mesas, apoiadas em suas espadas, como se fossem gárgulas.

Ela parou para observar a cena que só ela estava vendo. Depois olhou-o nos olhos para ele saber que mereceria uma confidência.

– Você é muito novo para ter ouvido falar nele, mas foi meu amante o mais hábil e temível dos áinars de Ufdebuch, o grande Gabcìk – ela disse o nome como se fosse a pétala de uma rosa de sonho.

– Ah, uma transgressão – Igmo Ma’wt estendeu a mão e puxou para si uma das uvas selvagens do lenço que Afrasíabe abrira sobre a mesa. – Você deitou com um dos amantes proibidos das Zdaure.

– Deitar, meu amigo, não faz qualquer justiça ao que tivemos. Naquela época eu tinha as carnes rijas de uma gazela e trazia no rosto a beleza de dois pontos cardeais.

– E como foi? – ele mordeu a uva que tinha roubado.

Ela ergueu os olhos para o sol que não podia ver, para que somente ela tivesse acesso àquela visão.

– Gabcìk tinha mais de trinta anos quando o conheci. Era um homem quieto, mas seu silêncio era um mel, um néctar que lhe escorria sobre o corpo. Nossas mãos se roçaram um dia numa das passarelas, e no momento seguinte estávamos em alguma sala. O grande Gabcìk fazia amor como um deus; eu já havia estado com outros homens, mas esses amam convulsamente, como animais. Gabcìk entrou em mim com a precisão de uma adaga que encontra logo o coração, e não se moveu mais. Ficamos ali encravados, nossa carne pulsando em uníssono, enquanto ele acariciava-me com ternura absoluta os pés e beijava-me os seios. Nossa carne apenas existiu em conjunto, sem qualquer rejeição ou violência, como se o homem inteiro fosse um enxerto que ele esperava que a imobilidade tornasse indistinguível de mim. Esse abraço, essa pausa, esse absoluto alinhamento de fluxos e correntes sanguíneas, durou dois ou três dias. Quando, quando…

E ela sorriu para si mesma, sinalizando que não podia continuar.

– E as Zdaure não descobriram que você havia surrupiado o seu favorito?

– Não naquele momento. Eu não estaria viva para contar se elas tivessem descoberto.

– Mas o que aconteceu?

– Fui mandada para o inferno, para casar-me com Eskringal, mas disso você sabe.

– E o que houve com Gabcìk?

Ela ficou muito séria.

– Desceu ao inferno para estar comigo. Sua descensão durou sete anos e em cada um dos sete portões, depois de uma longa luta com as divindades tutelares, Gabcìk teve de deixar uma peça da sua armadura: o capacete de bronze, a capa de lã, o peitoral de pedras preciosas, as sandálias de sisal, a camisa de linho misto, a túnica de malha rubra dos áinars e a espada de Inz. Chegou à sala do trono inteiramente nu, o mais formidável dentre os homens, no dia em que completava quarenta anos de idade. Eskringal, que já havia sido avisado da sua chegada, atravessou o peito de Gabcìk com um garfo antes que ele pudesse dizer-me uma palavra. Depois mandou esquartejá-lo e enviou uma parte do seu corpo para cada uma das nove nações do inferno.

Nesse momento um pássaro desceu de um dos poços de luz, saltitou duas ou três vezes sobre a mesa e começou a beliscar as migalhas que Igmo Ma’wt havia deixado cair.

– Eis o seu fantasma – ele disse.

Ela ficou olhando para o pássaro, mas ignorou o que ele disse.

– Recolhi o corpo dele quando Eskringal puxou para si o seu garfo – prosseguiu Afrasíabe, – e Gabcìk, o único homem que já pisou esta terra, deitou nos meus lábios o seu último suspiro antes que eu pudesse lhe contar. Morreu sem saber que fazer amor com ele me havia deixado perpetuamente fértil com a sua semente.

Igmo Ma’wt recolheu finalmente o sorriso.

– Todos os meus filhos são filhos de Gabcìk – disse Afrasíabe, – e todos eles Eskringal matou, com exceção de um, que escondi no corpo de uma águia e Eskringal tomou por uma criança do inferno.

– E onde está esse filho de Gabcìk?

– Passo a vida procurando – ela explicou. – E você sabe como são os homens, basta que comecemos a amá-los para que arranjem um jeito de escapar da nossa vida.

– E você certamente sabe que pelo menos algumas das Zdaure eram férteis.

A esta altura já haviam cravado seus gládios no coração um do outro, e o pássaro voou para longe.



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