Resta-nos saborear, devidamente estarrecidos, essa cândida vertigem: a boa nova oferecida e servida exemplarmente, pura, sem gelo e sem adornos. E o que resta, incrivelmente, é uma mensagem que não menciona céu e inferno; que não toca na função substitutiva da morte de Jesus; que não paralisa com a ênfase no retorno iminente da Retribuição, nem ameaça com o fim do mundo; que não acena com prosperidade, mas ensina a duvidarmos severamente de suas promessas; que pressupõe a mais intransigente e definitiva das partilhas, mas não se rebaixa a apelar a um raso “Jesus te ama”. Em resumo, um evangelho despido de tudo com o que viemos a vesti-lo depois.
Antes de dar início a esta releitura pessoal do livro de Atos incomodava-me o que eu sabia que não iria encontrar: os discípulos contando a seus candidatos recordações muito pessoais do homem apaixonado e subversivo que havia, para o bem ou para o mal, despertado a irrefreável paixão de todos os submetidos à sua influência. Meu sonho era ver os discípulos recontando a um público boquiaberto as tiradas nervosas do Filho do Homem; queria vê-los narrando suas parábolas, recapitulando suas generosidades, invocando suas provocações, encenando suas fúrias. Embora eu tenha me consolado pensando que esse lado mais intimista de Jesus havia sido enfatizado no primeiro volume da unidade que é Lucas/Atos, incomodava-me pensar numa boa nova apresentada sem uma retomada consciente e incessante da “narrativa de Jesus” como desfiada nos evangelhos.
Mas neste ponto, depois de examinar os discursos ausentes, vejo-me concluindo que a ausência dessas recapitulações não é para comparar com a significância de ver a boa nova consistentemente apresentada livre de teologizações. Afinal de contas, temos toda razão para inferir que os discípulos originais instruíram os recém-chegados no conteúdo narrativo da vida de Jesus; o próprio Lucas gastou metade do suas páginas fazendo precisamente isso em favor de seu Teófilo. Porém, pela pena de Lucas, não temos nenhuma evidência que aos discípulos ocorreu, em sua exposição da mensagem, macular a singeleza da boa nova com as complicações acessórias da teologia. A lição dessa austeridade não é que os discursos ausentes são omitidos na versão resumida inicial e exaustivamente enfatizados numa versão completa posterior. Ao contrário, ao apresentar-se como narrativa exemplar, o discurso de Atos declara abertamente que essas lateralidades teológicas não são em sentido algum relevantes para a tarefa da propagação do reino. É este seu rigoroso pronunciamento.
Mas o que resta apresentar da natureza da boa nova e da singularidade de Jesus, quando se omitem as teologias e as recordações? Qual é o formato mínimo da mensagem, que os discípulos parecem ter tomado por suficiente desde o primeiro instante?
Uma das chaves para a compreensão desse delicado mistério reside na fórmula “em nome de Jesus”, que os discípulos parecem ter usado desde as primeiras décadas, do que dão testemunho as cartas de Paulo. Havia naquela época, como hoje, pelo menos duas maneiras de se entender esse “em nome de Jesus”. Na interpretação mais trivial, e provavelmente a mais popular nos nossos dias, o nome literal de Jesus é tido como dotado de propriedades quase mágicas, podendo seu seguidor usá-lo indiscriminadamente como talismã ou a fim de validar qualquer encantamento ou oração.
Esse, no entanto, está longe de ser o sentido o sentido sugerido por Paulo e adotado pelos primeiros discípulos, que não ignoravam que em sua cultura o nome era um código figurado para todo o caráter de uma pessoa. Não se tratava, portanto, de recorrer a alguma propriedade sobrenatural de uma série de letras, ou de valer-se magicamente dos méritos de outro. Fazer “em nome de Jesus” era ao mesmo tempo agir imbuído da sua pessoa e na qualidade de seu substituto.
Para usar outra metáfora a que o Novo Testamento sempre volta, Jesus era uma Palavra que se ausentara para o céu mas devia continuar a ser proferida na Terra pelos seus seguidores. E, como representava ele mesmo a interrupção de todos os discursos, a única maneira de se proferir a Palavra na ausência de Jesus era abolindo a tentação dos discursos e reassumindo a sua prática. Colocar o pé no reino do Filho era passar a agir como ele ou “em nome dele” – a mesma formidável tarefa que em outros lugares o Novo Testamento chama de arrependimento.
Esses emblemas trazem em si mesmos a sua elucidação: a boa nova no livro de Atos omite as elucubrações teológicas que viriam mais tarde a nos distrair, porque só tem tempo para a prática do reino. Dito de outra forma, a boa nova é exclusivamente viva e vital, e só tem tempo para a encarnação de Jesus (isto é, a materialização de Deus) em seus discípulos; a boa nova é a realização na vida real e comunitária do que Jesus encarnou e representou.
Em retrospecto, talvez seja por isso que em Atos os discípulos gastem tão pouco tempo recapitulando diante de seus ouvintes os episódios pitorescos da passagem de Jesus pela terra. Mais ousados do que jamais seríamos e muitas vezes mais coerentes do que temos sido, os discípulos sentem que sua vocação com relação à narrativa de Jesus é menos recapitulá-la do que imediatamente reassumi-la. Eles entendem a urgência da expressão “em nome de Jesus”, e levam muito a sério o seu “como meu Pai me enviou, estou enviando vocês”.
A comunidade do reino vive, dessa forma, a tensão de uma Pessoa que está ausente mas cuja presença celebram incessantemente; a tensão de uma Palavra que foi embora mas deve ser constantemente proferida e, por assim dizer, reencenada; de um morto que vive em todos que o encarnam, de um espírito que só se manifesta nos que se comprometem com a beleza da sua revolução.
Seu meio é definitivamente a sua mensagem, e ambos encontram-se na encarnação. Essa centralidade da incorporação da vida de Jesus no modo de vida de seus discípulos – a boa nova como atitude existencial – encontra ressonância na ênfase (presente, salvo engano, em todos os sermões do livro de Atos) na ressurreição corpórea de Jesus. Como está observado por Alan F. Segal em seu Life After Death:
Ao descreverem a qualidade de uma pessoa que sobrevive à morte [...] estavam também fazendo julgamentos sobre o que é importante e transcendente na vida humana; estavam encontrando modos de descrever o significado e o propósito do “eu” terreno. Isso acabou tendo consequências para o modo como enxergavam sua própria existência na terra.
Isso é especialmente verdadeiro no caso dos primeiros cristãos, que ao contrário dos gregos, enxergavam a vida após a morte – a vida de Jesus – como uma formidável restauração do corpo físico e não como uma negação final dele.
Na opinião dos apóstolos, a ressurreição corpórea e definitiva de Jesus era o endosso incontornável do seu modo de vida e de morte. A morte não havia sido capaz de conter o Filho do Homem, mas isso porque sua vida neste mundo havia sido irreparavelmente alicerçada na transcendência. Tudo tomado, o argumento dos discípulos no livro de Atos resume-se a este: a ressurreição de Jesus é indicação inescapável de que devemos viver como ele – ou, dito com outras palavras, seu modo de vida é a chave para a verdadeira transcendência. Arrepender-se não é mais do que abraçar as implicações desses terrores.
E, como não cessam de pronunciar em atos e palavras seus incômodos sucessores, viver como Jesus é viver com o outro e para o outro, com todos e para todos. É esta a redentora Palavra, a tremenda Palavra, que o mundo é convidado a proferir. Esse convite, recursivamente, é feito apenas quando a Palavra é proferida – e isso não se faz com palavras, mas com poder; não na lógica humana das validações e dos discursos, mas na carne humana banhada com o espírito de humanidade, no sangue e no corpo divinos, na encarnação, na mesa compartilhada, na vida real.

Rastros dos apóstolos
- Como perder Jesus de vista no livro de Atos
- Ascensão sem trégua das testemunhas
- A escassez seletiva: selecionar é interpretar
- O Jesus terreno e o Cristo extraterrestre
- Com as mulheres
- Como reconhecer, entre dois discípulos, um apóstolo
- A plenitude dos tempos
- A verdadeira mensagem
- A lucidez profética
- A vexação de Satanás
- A volta ao que poderia ter sido
- A fermentação da morte
- A incubação do espírito
- Formato mínimo
- O que se diz é o que não se diz
- A linhagem do batismo
- As transgressões do céu
- Um mundo além do perdão
- Breve história do arrependimento
- Arrepender-se é mudar o mundo
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- O fim de todos os governos
- A mesa universal e as redentoras transgressões
- Os discursos ausentes: céu e inferno
- Os discursos ausentes: Jesus morreu em seu lugar [1]
- Os discursos ausentes: Jesus morreu em seu lugar [2]
- Os discursos ausentes: Jesus vai voltar
- Os discursos ausentes: prosperidade
- Os discursos ausentes: Jesus te ama
- A Palavra presente
- A disciplina da inclusão
- O acaso e o herói
- A divina soltura
- A graça dos vasos comunicantes
- A invenção da gentileza




