10 de Março de 2010

A invenção do não-condicionado

Apresentado sem comentários por   Paulo Brabo

 

Estocado em Manuscritos

Não há diferença entre heróis e vilões, entre virtuosos e vis. Heróis fazem o que é certo pelo desejo de aceitação e pelo medo de estarem errados; vilões fazem o que é errado pelo medo da aceitação e pelo desejo de estarem errados.

Medo sempre, desejo sempre. No cerne de tudo estão estes dois irmãos, cada um nos puxando para um lado. Somos impulsionados por eles. Somos determinados por eles.

No modelo estrutural – na mitologia – da psicanálise quem articula os impulsos contraditórios do medo e do desejo é o superego, a porção da personalidade que nos diz sem pausa o que devemos fazer, o que devemos sentir e, particularmente, o que não devemos fazer. O superego, que corresponde em alguns sentidos à voz do dever ou da consciência, é a parte de nós construída a partir das indicações daquilo que a sociedade toma por aceitáveis. Tudo o que sua mãe e seu professor ensinaram que você não deve fazer (isso é feio, menino, isso não se faz) alimentam agora os argumentos e prioridades do superego.

O superego, que nos ensina sem cessar o que é errado, refreia por essa razão os impulsos violentos e sexuais. Não fosse o superego sairíamos por aí beijando a comissária do avião ou esmurrando o policial rodoviário (ou o contrário) porque nada haveria para nos impedir se surgisse em nós esses desejos. Não veríamos, literalmente, nada de errado nisso.

Porém o superego requer um tremendo preço para desempenhar esse papel civilizador e regularizador da sociedade: a culpa. Em seu ministério de nos dizer incessantemente o que fazer, o superego encontra na culpa seu método, seu argumento e seu combustível. Mesmo se não estamos matando ninguém ou maltratando ninguém, o superego nunca desiste e nunca se cala; ele vai tentar fazer com que nos sintamos culpados por não estarmos ajudando alguém, por não estarmos procurando um emprego melhor, por não estarmos lendo um bom livro ou fazendo dieta. Vai tentar fazer com que nos sintamos culpados até mesmo pela nossa caretice, por não estarmos nos divertindo o bastante ou desfrutando de sexo fácil agora que é fácil encontrá-lo pela internet. Suas demandas são inatingíveis e sua condenação implacável. Não há como satisfazer ou calar o superego; não há abstinência ou devassidão que o impeça de gotejar continuamente culpa e ansiedade na corrente sanguínea.

São portanto medo e desejo que sustentam o poder do superego. A ânsia de nos entregarmos ao desejo é refreada pelo medo da culpa. O medo de estarmos perdendo tempo nos leva por vezes a nos entregarmos ao desejo, mas se nos entregamos ao desejo o superego injeta uma renovada dose de culpa, e com ela medo e ansiedade, e o círculo se fecha. O que quer que façamos ou deixemos de fazer, o poder do superego apenas aumenta, e persistimos sendo conduzidos por medo e desejo.

Porém não são apenas os métodos do superego que nos são ensinados pela sociedade; a sociedade também nos ensina o que devemos temer e, ainda mais, o que devemos desejar. Nada há de natural no desejo humano; somos ensinados a desejar, somos ensinados o que desejar e somos ensinados a sermos conduzidos pelo desejo. Como resultado, passamos a vida perseguindo desejos que não nos pertencem e podemos não chegar a conhecer aquilo que realmente queremos.

Numa palavras, somos condicionados. Não conhecemos a autodeterminação e não chegamos a lugar algum, porque tropeçamos sem cessar nas cordas do medo imposto e do desejo condicionado.

Os deuses e heróis de todas as literaturas compartilham conosco dessas limitações, sendo regidos pelos mesmos impulsos contraditórios. Habitantes do Olimpo e personagens de Hollywood, nossos pais e nossos professores, nossos cúmplices e nossos inimigos – todos retém essa marca.

Então, em algum momento do passado, Deus ou os evangelistas sonharam um homem como nunca havia existido, e registraram sua singularidade nos quatro evangelhos que chegaram até nós e em outros manuscritos mais controversos (e controversos precisamente por apresentarem um protagonista menos singular).

Porque Jesus é exceção de caráter espetacular na história de todas as literaturas. Aqui está um homem que, por um lado, não se afasta do mundo (a solução da literatura oriental para o problema), mas por outro lado absolutamente não se deixa condicionar por ele.

Muito antes que Nietzsche vislumbrasse Zaratustra, Jesus percorria as alamedas e arcadas dos evangelhos na qualidade de primeiro herói não-condicionado da história.

O curioso é que Jesus não fez muita coisa além de morrer, mas sua passagem pela narrativa da humanidade abriu uma tremenda brecha de divisão no seu tempo e fendeu irremediavelmente as eras atrás de si, porque sem fazer muita coisa ele revelou escandalosamente, vertiginosamente, como seria se os seres humanos vivessem de modo absolutamente não-condicionado. Escancarou sem escapatória como seria se não fossemos regidos por medo e temor. Se não vivêssemos respostas prontas. Se perseguíssemos o nosso desejo mais profundo e essencial e não os desejos que nos imprime a sociedade.

E parte essencial do escândalo está precisamente no fato de Jesus não ter feito muita coisa. A maior parte das porções narrativas dos evangelhos é dedicada ao confronto de Jesus com gente que vinha até ele para lhe dizer como ele deveria agir e o que não deveria fazer. Todos queriam explicar a Jesus como corrigir o seu curso e todos lhe diziam claramente o que fazer: Maria, os fariseus, João Batista, Judas, os irmãos do trovão, Pedro, os habitantes de Nazaré, os samaritanos, os herodianos, o Diabo, os sacerdotes, os estudiosos da Torá, os que queriam coroá-lo rei, os que queriam poupá-lo da morte, os que não queriam que ele curasse no sábado, os que queriam apedrejar a mulher adúltera, os que queriam que ele não transgredisse as leis rituais, os que queriam que ele parassem de ensinar, os que exigiam dele explicações, os que pediram dele uma confissão e um álibi, os que o chicotearam, os que o alçaram à cruz, os que falaram com ele durante a sua execução, os que queriam que ele abraçasse outra prioridade que não as criancinhas.

Em todas essas ocasiões Jesus recusou-se a oferecer respostas condicionadas, isso é, respostas regidas pelo medo e pelo desejo.

Jesus é o primeiro herói da literatura, talvez o único, a não cair nas armadilhas do superego. Não apenas o Filho do Homem não dava ouvidos aos que vinham lhe dizer o que fazer, mas recusava-se por completo a sentir-se culpado por não agir em conformidade com as expectativas dos outros. Jesus não curou todos os doentes da Palestina; não convenceu a todos com que argumentou; não hesitou em deixar uma multidão esperando para descansar ou ficar sozinho; não correu atrás dos desiludidos para explicar melhor a sua proposta; não foi visitar seu amigo Lázaro em seu leito de morte – e recusou-se a sentir-se culpado diante de todas essas faltas, mesmo quando as vozes suplentes do superego lhe diziam muito claramente como ele devia se sentir.

O Filho do Homem recusava-se a alimentar a cadeia sistêmica de temor e desejo, e recusava-se a ser alimentado por ela. Era um super-homem não porque tivesse superpoderes (os quais, como dão testemunho as histórias em quadrinhos, só tem poder de consolidar os ciclos de medo e desejo), mas porque recusava-se a julgar os outros pelos poderes que não tinham e pelos poderes que exigiam dele.

Um homem absolutamente suficiente, absolutamente não-condicionado e impermeável à culpa – eis uma visão terrível de se ver, e de tudo que Jesus fazia e representava nada despertou mais paixão e mais ressentimento do que esta sua característica. Entre outras coisas, um homem não regido pela culpa pode começar a fazer o que quiser, e nada há que a sociedade considere mais abominável e ameaçador. A culpa, intuíam os fariseus e sacerdotes, é ingrediente essencial para manter-se a estabilidade das instituições e a coesão da sociedade. O que seria do mundo se todos começassem a fazer o que quisessem, e não o que a cultura explica que devem querer? O que seria do governo? O que seria da religião?

Seria o reino de Deus, é a resposta não-condicionada de Jesus, e por não ser condicionada os líderes acharam-na por completo inaceitável. Tiveram de eliminar o escândalo do seu campo de visão, tiveram de silenciá-lo através da mão condicionada da justiça, porque do contrário teriam de continuar encarando a alternativa de frente. Um homem íntegro sem culpa não era algo que deveria existir, pelo que antagonistas ancestrais se mancomunaram para eliminar da terra esse embaraço.

Pronto. Jesus agora estava morto, e os que davam ouvidos às fábulas de que ele havia ressuscitado não representavam nem de longe perigo semelhante, inclusive porque concordavam que a ameaça havia ascendido ao céu, de onde não podia fazer mal a ninguém e de onde não representaria um mal exemplo. O mundo estava em paz. A ameaça e o escândalo do não-condicionado haviam sido silenciados antes que pudessem ter desintegrado o tecido da sociedade.

Então, quando tudo parecia ter voltado à ordem, Jerusalém é sacudida pela desordem do Pentecostes. Os cento e vinte se levantam e falam ao mesmo tempo, explicando que é hora de mudar o mundo, e logo acrescentam-se a esses os primeiros três mil.

A maravilha não está no número de convertidos, porque prosélitos qualquer um pode fazer. A maravilha está na resposta não-condicionada, absolutamente digna do Mestre que nunca abraçaram em vida, que essa gente se mostrará disposta a oferecer. Porque esses três mil “perseveravam na doutrina dos apóstolos e na comunhão, no partir do pão e nas orações”. Isto é, continuavam submetidos ao modo de vida e aos ideais dos apóstolos, viviam juntos, comiam juntos e estendiam a mente a Deus.

O que está dito efetivamente aqui (e ficará ainda mais claro mais adiante) é que os três mil e tantos homens e mulheres dessa nova comunidade recusavam-se agora, obstinadamente como Jesus, a serem regidos pelo medo imposto e pelo desejo condicionado. A partir de agora farão apenas o que lhes soprar o espírito, e o espírito sopra onde quer. Criava-se uma raça de gente subversiva que só se mostrará disposta a fazer o que achar melhor.

E o texto esclarece que a primeira resposta condicionada de que abriram mão foi o desejo absolutamente irresistível que temos de estar em outro lugar, com outras pessoas, fazendo o nosso dever ou buscando o nosso prazer. Cometeram o ato revolucionário de não quererem estar em outro lugar, de recusarem-se a voltar para casa, de se bastarem onde estavam e com quem estavam, de abraçarem uma comunidade sem critério e sem fama e – talvez o mais notável de tudo – de não se sentirem culpados por isso. Estavam absolutamente livres. Haviam trocado o imaginário pelo real. O mundo estava sendo desconstruído e demolido por eles, e nas suas ruínas só havia pessoas e o reino de Deus.

O não-condicionado não apenas não havia se calado, como era aparentemente contagioso.



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Versões digitais dos manuscritos da Biblioteca do Monastério de São Brabo, nas Índias Ocidentais.
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