A divisão entre cristianismo e judaísmo tornou-se mais acentuada no seguinte: da forma como os rabis escolheram apresentá-la, a sexualidade era um atributo duradouro da personalidade. Embora potencialmente rebelde, a sexualidade era passível de controle – do mesmo modo que as mulheres eram ao mesmo tempo honradas como necessárias para a existência de Israel e impedidas de se intrometerem no assunto sério da sabedoria masculina. Era um modelo baseado no controle e na segregação de um aspecto irritante mas necessário da existência. Entre os cristãos ocorreu o oposto. A sexualidade tornou-se baliza com uma elevada carga simbólica precisamente porque seu desaparecimento no indivíduo comprometido foi considerado possível, e porque pensava-se esse desaparecimento registrasse, mais acentuadamente do que qualquer outra transformação humana, as qualidades necessárias para a liderança na comunidade religiosa. A remoção da sexualidade – ou, mais humildemente, a remoção do âmbito da sexualidade – passou a representar um estado de resoluta disponibilidade para Deus e para os semelhantes, associado ao ideal de uma pessoa dedicada.
Peter Brown, 1987
A noção de que o físico é apenas um símbolo ou sombra daquilo que é realmente real deixa a porta aberta para um repúdio da sexualidade e da procriação, da importância da filiação e da genealogia, do sentido histórico e concreto da escritura e, na verdade, da própria memória histórica. Por outro lado, a ênfase no corpo como a própria sede da significância humana não dá margem a tais desvalorizações. Um eu e um coletivo que concebem sua realidade última como espiritual se comportará de modo muito diverso de um eu e um coletivo que veem o corpo como a sede privilegiada da essência humana.
Daniel Boyiarin, Carnal Israel

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