…louvando a Deus e angariando a simpatia das pessoas. E cada dia o Senhor lhes acrescentava os que iam sendo salvos.
Esta é uma paisagem que poucas vezes se voltará a ver, nessa inteireza, no decorrer da história: uma comunidade aberta que se despoja de todos os condicionamentos impostos pela sociedade e mantém-se ao mesmo tempo inteiramente inserida no seu mundo. Os monges, quando surgirem, terão o recato de fugir para o deserto e a decência de refugiarem-se em suas ordens. As igrejas se fecharão em seus edifícios e seus ritos, devidamente protegidas (isto é, separadas) por suas ortodoxias.
Aqui, no entanto, o que resta é gente – gente que permanece junta, come junta e mantém as portas da vida aberta para quem quer que seja. Nessa inclusividade, qualidade que seus integrantes herdaram de seu mestre, reside a vocação e a singularidade da primeira colônia do reino.
Quando paramos para ponderá-lo, o que o Espírito igualitário construiu até aqui tem um quê muito distinto de monasticismo urbano. Gosto dessa expressão, porque ela contém em si uma deliciosa contradição. Se os da comunidade do reino recusaram-se a separar-se do mundo1, como farão mais tarde os eremitas, é com o fervor e a seriedade que associamos ao monasticismo que se comprometeram com suas primeiras disciplinas, a da partilha de bens e a da pobreza voluntária.
Ao longo da história a igreja tentará imitar esse zelo civilizatório e criará para si novas disciplinas: a disciplina do silêncio, a disciplina dos encontros dominicais, a celebração de dias santos, a confissão, as liturgias, os hinos, os livros devocionais, as abstenções, as catequeses, as escolas dominicais, as confirmações, os celibatos, os testemunhos, as orações padronizadas, os credos, os concílios, a veneração dos santos, os estatutos, as profissões de fé. Cada uma dessas disciplinas se mostrará, a seu tempo, de grande valor na articulação pessoal e comunitária do compromisso de gente de carne e osso com a boa nova. Cada uma, a seu modo, estará confirmando aquilo que decidimos antes: que a subversão do reino – seu incômodo essencial a todas as estruturas de dominação – deve ser continuamente encenada.
O que devemos encontrar no livro de Atos, no entanto, não é o valor da construção de novas disciplinas, mas precisamente o contrário. O que esta narrativa traz em seu cerne (e nisso é rigorosa continuidade da narrativa de Jesus) é a notícia de que mesmo as disciplinas mais valiosas, úteis e apreciadas são na realidade arbitrárias e contingentes – e que, se tomadas como algo mais do que isso, tornam-se verdadeiramente prejudiciais.
Na verdade é necessário que as disciplinas sejam arbitrárias, do contrário seriam incapazes de transmitir adequadamente o seu teor de sua subversão. O impacto do episódio do lava-pés, por exemplo, reside no fato de que algo assim nunca havia sido feito antes; sua sedução está em que não se tratava de algo comum, esperado ou necessário. Seu poder reside na sua arbitrariedade; o mesmo pode ser dito, em grande parte, das disciplinas católicas e das liturgias evangélicas. Nada há de necessário nas disciplinas cristãs, e aqui reside sua beleza e, paradoxalmente, sua ameaça de contradição.
Porque o que pede que reconheçamos a narrativa da boa nova é que, por serem essencialmente contingentes, todas as disciplinas do reino devem se submeter radicalmente a uma disciplina superior, que é a disciplina do amor e da inclusão.
Neste momento do livro de Atos, por exemplo, todos se submetem à comunhão de bens e à pobreza voluntária; hoje em dia alguns chamarão essa postura de arbitrária ou desnecessária, e não serei eu a contradizer essa opinião. Na verdade, enxergo que o verdadeiro apelo desse despojamento coletivo, sua irresistível sedução, reside no quanto ele é em última instância cosmético e desnecessário. Ele exibe todo a exuberância e o arrebatamento de uma declaração de amor – e sempre haverá aqueles que também declararão desnecessárias as declarações de amor.
O que devemos absolutamente reconhecer, no entanto, é que o comprometimento dos primeiros cristãos com a disciplina do despojamento está absolutamente alicerçado no seu compromisso com a disciplina superior da inclusão. Eles despojam-se de suas riquezas distintivas para demonstrar além de qualquer de dúvida que todos estão incluídos e que todos podem se incluir. Eles criam uma disciplina contingencial com a finalidade de salientar a centralidade da essencial.
Esse seu comprometimento com a severidade do amor, no entanto, está prestes a exigir dos habitantes do reino um preço talvez maior do que o despojamento dos seus bens materiais. Como se verá, a disciplina inegociável da inclusão demandará de seus porta-vozes que abram exceções que neste momento, se pensassem no assunto, tomariam por absolutamente impensáveis. Requererá que, em favor de uma maior, abram mão de disciplinas que tomam por absolutamente essenciais. Requererá que declarem o abraço comum valor mais importante do que a ortodoxia, a pureza ritual ou mesmo a unanimidade.
Porque existiram desde sempre grupos dedicados à proteção abnegada de seus integrantes; porém nunca antes existiu um grupo cuja missão mais essencial fosse deixar claro ao mundo e a si mesmos que todos os de fora são indistintamente dignos da honra da inclusão e da igualdade.
A ambição dos cidadãos deste reino é abraçar os confins da terra, mas no caminho a intransigência do amor exigirá um mundo inteiro de transgressões, A disciplina da inclusão reza que demonstrar o amor requererá a coragem de, em palavras e atos, declarar desnecessário o que tomávamos antes por essencial.
FIM DA PRIMEIRA PARTE

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- Os discursos ausentes: Jesus morreu em seu lugar [2]
- Os discursos ausentes: Jesus vai voltar
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- Os discursos ausentes: Jesus te ama
- A Palavra presente
- A disciplina da inclusão
- O acaso e o herói
- A divina soltura
- A graça dos vasos comunicantes
- A invenção da gentileza
- Afinal de contas, o que rejeitaram não foi o mundo, mas as estruturas de dominação que o corrompem e desfiguram; sua postura, nesse sentido, é de tremenda identificação e amor ao mundo, e não de separação dele. [↩]




