Manuscritos estocados em Dezembro do Anno 2010 de Nosso Senhor
30 de Dezembro de 2010

Elegia a um homem que esqueceu

Sonhos

Eu estava inteiramente nu, deitado sobre uma plataforma invisível vários quilômetros acima de um límpido mar azul turquesa, não maculado por traço de nuvem ou de terra. Depois de estar morto por tanto tempo, o toque do sol sobre o corpo fez-me o sangue queimar de nostalgia e de prazer, e me arrependi de não ter aproveitado mais daquele júbilo meramente sensorial enquanto estava vivo.

Percebi então que não estava sozinho; duas entidades radiantes mas muito translúcidas, com enormes rostos horizontais e braços em forma de W, pairavam dos lados da plataforma em que eu estava deitado, como médicos ao redor de uma mesa de operação.

– Brabo – disse-me uma delas, e estremeci por ver o meu nome sobrevivendo ao meu próprio esquecimento, – você está morto há quatro mil anos, mas usamos um algoritmo que você não compreenderia para reconstruí-lo a partir do conteúdo do seu blog.

A revelação não causou-me assombro ou desconforto, mas despertou-me a curiosidade. Ergui o braço e cobri o sol com a mão, e abri um sorriso perplexo ao entender que minhas palavras haviam bastado para reconstruir detalhes de mim mesmo que eu nunca havia colocado por escrito – coisas como a cicatriz em forma de meia-lua que tenho sobre o polegar da mão direita, e o fato de ser circuncidado.

– Reconstruímos com algum sucesso seu corpo e sua mente – continuou a entidade que havia dito meu nome, – mas não encontramos no que você deixou escrito qualquer traço de sentimento ou de um coração. Precisamos que você nos ajude aqui. Você escreveu por dez anos no seu blog; como se explica não ter deixado ali nenhuma parte do seu coração?

– Talvez ele não tivesse um coração em primeiro lugar – disse a segunda entidade, falando como se eu não estivesse ali. Entendi que não era a primeira vez que se expunha essa teoria a meu respeito.

Vendo que eu não tinha com que responder, a primeira entidade fez um gesto resignado com o braço e imediatamente a plataforma invisível que me sustentava desapareceu. Despenquei assobiando em direção ao mar lá embaixo.

Abracei o corpo que me restava e aguardei de olhos muito abertos o impacto, o esquecimento e o silêncio de morrer pela segunda vez.

29 de Dezembro de 2010

Mesmo que por um momento

Pormenor

28 de Dezembro de 2010

Proclamando o perdão dos pecados

Goiabas Roubadas

Com demasiada frequência a igreja contemporânea, em vez de anunciar o perdão, tem proclamado uma mensagem de julgamento e condenação. A ironia está em que, ao engajar-se nessa proclamação e ao abandonar o chamado cristão à proclamação do perdão, a própria igreja experimenta a ira e o julgamento de Deus. A igreja ocidental tem anunciado o julgamento, e fazendo assim tem se postado debaixo do julgamento de Deus.

Porém todas essas, a proclamação da narrativa do evangelho, a proclamação da trindade e a proclamação do reino de Deus encontram sua expressão mais completa na proclamação do perdão dos pecados. A declaração “seus pecados estão perdoados” faz pouco sentido na situação contemporânea. A recusa a deixar de sofrer é o coração do perdão cristão.Tanto pecado quanto perdão são conceitos alienígenas. Porém, mais do que nunca, a igreja é convocada a proclamar o perdão dos pecados. É o perdão dos pecados que revela o reino, que revela que o exílio terminou, que Deus em Jesus Cristo e em seu Espírito veio para perto de nós.

A igreja revela o significado dessa proclamação vivendo como comunidade perdoadora e perdoada. Aqui, como com todas as outras proclamações, é a existência de uma igreja que vive e crê nessa proclamação que age como única explicação (hermeneutic) do que está sendo proclamado. Essa proclamação é essencialmente anti-pragmática. A igreja das estratégias missionais centradas no crescimento e das estratégias sociais centradas na erradicação de todo o sofrimento não consegue enxergar isso. Ao anunciar o perdão dos pecados a igreja adentra o sofrimento do mundo, tomando sobre si os pecados do mundo a fim de levá-los para longe. Essa recusa a deixar de sofrer é o coração do perdão cristão.

Em última instância, é essa proclamação do perdão dos pecados que não permite que a igreja seja subvertida por forças externas. A abertura ao sofrimento, a comunidade de amor radical e a pessoa e o senhorio de Jesus são todos revelados nessa proclamação. É por essa razão que a igreja que proclama o perdão dos pecados sofrerá perseguição. É essa proclamação que se mostrará sempre impalatável para todos os poderes, que irão por essa razão buscar corrompê-la ou aboli-la. O quanto a igreja permanece fiel a essa proclamação representa o teste definitivo do quanto ela permanece fiel à sua linguagem e à sua narrativa.

Daniel Oudshoorn
Poser or Prophet

27 de Dezembro de 2010

O monastério é o mundo

Goiabas Roubadas

Como se sabe, Weber argumentou que a Reforma Protestante abriu caminho para o capitalismo através de uma completa alteração das crenças e hábitos diários da vida. Weber mostrou-se particularmente interessado em Calvino e no calvinismo, pois encontrou neles o processo pelo qual as disciplinas monásticas – o dia ordenado de trabalho, a vida frugal, o ascetismo, a autonegação, o chamado para a vida religiosa, o individualismo, a predestinação, a dependência da graça por parte de seres humanos inteiramente incapazes de qualquer bem eles mesmos porém constantemente impelidos às boas obras em resposta à graça – deixaram os monastérios e alcançaram a população em geral.

Esses ritmos da vida diária mostraram-se cruciais na transição entre os padrões medievais e aqueles mais adequados ao capitalismo. Embora Lutero tenha tomado o primeiro passo na desconstrução do monasticismo medieval, a contribuição de Calvino foi fazer deste mundo um lugar de teste e de preparação para a vida em outro mundo que ainda não pode ser conhecido. A vida diária tornou-se cenário de uma racionalização sem precedentes, na qual cada momento estava sujeito a ordenação, escrutínio e prestação de contas.

O paradoxo aqui está em que Calvino não tornou a vida humana menos religiosa: ao contrário, a vida humana como um todo tornou-se um monastério. Porém foi precisamente essa ampla religionização que gerou tanto as possibilidades do capitalismo quanto o fim do protestantismo calvinista como tal. Porque, ao sacralizar a vida como um todo, Calvino também a racionalizou; ao colocar em andamento essa estirpe secular de ascetismo, deixou de haver qualquer necessidade para a perpetuação de algum conceito religioso. Um ascetismo puramente secular tornou-se o resultado lógico da teologia de Calvino, que pode então ser descartada, uma vez que já cumpriu sua missão. O calvinismo protestante funciona portanto como um agente catalisador que desaparece uma vez que tenha cumprido a sua tarefa.

Roland Boer, em Political Grace: The Revolutionary Theology of John Calvin

Leia também:
A teologia do Capital
Igreja e capitalismo
A Reforma e a psicotização da experiência

26 de Dezembro de 2010

Quão ingrata deve ter sido a vida

Goiabas Roubadas

Certos defensores da Reforma tomam outro caminho, e asseguram que ela se assemelha ao Renascimento em que veio para matar o ascetismo dos tempos médios, e restituir à vida todas as suas alegrias. Em primeiro lugar, é um erro vulgaríssimo, já refutado por Ozanam, o de considerar a Idade Média como época de flagelamentos e martírios, sendo que no âmbito profano tinha trovadores e malabaristas, e costumes cavalheirescos e rústicos de muita poesia, e lendas épicas e devotas de extraordinária beleza, e festas e regozijos contínuos, e no religioso ordens mendicantes, cujos fundadores professavam o mais simpático e profundo amor à natureza. Além disso, como pode alegrar a vida um culto iconoclasta, frio e árido, que nada concede à imaginação nem aos sentidos, e priva a arte de metade do seu domínio? Quão ingrata deve ter sido a vida naquela república de Genebra, tal como a organizou Calvino, sem festas nem espetáculos, e onde tudo estava regulamentado, até as vestimentas e as comidas, à moda dos antigos espartanos, com um tribunal de censura para os atos mais insignificantes?

Menéndez y Pelayo, Historia de los heterodoxos españoles, II

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O sacro rompimento