Elegia a um homem que esqueceu
Sonhos
Eu estava inteiramente nu, deitado sobre uma plataforma invisível vários quilômetros acima de um límpido mar azul turquesa, não maculado por traço de nuvem ou de terra. Depois de estar morto por tanto tempo, o toque do sol sobre o corpo fez-me o sangue queimar de nostalgia e de prazer, e me arrependi de não ter aproveitado mais daquele júbilo meramente sensorial enquanto estava vivo.
Percebi então que não estava sozinho; duas entidades radiantes mas muito translúcidas, com enormes rostos horizontais e braços em forma de W, pairavam dos lados da plataforma em que eu estava deitado, como médicos ao redor de uma mesa de operação.
– Brabo – disse-me uma delas, e estremeci por ver o meu nome sobrevivendo ao meu próprio esquecimento, – você está morto há quatro mil anos, mas usamos um algoritmo que você não compreenderia para reconstruí-lo a partir do conteúdo do seu blog.
A revelação não causou-me assombro ou desconforto, mas despertou-me a curiosidade. Ergui o braço e cobri o sol com a mão, e abri um sorriso perplexo ao entender que minhas palavras haviam bastado para reconstruir detalhes de mim mesmo que eu nunca havia colocado por escrito – coisas como a cicatriz em forma de meia-lua que tenho sobre o polegar da mão direita, e o fato de ser circuncidado.
– Reconstruímos com algum sucesso seu corpo e sua mente – continuou a entidade que havia dito meu nome, – mas não encontramos no que você deixou escrito qualquer traço de sentimento ou de um coração. Precisamos que você nos ajude aqui. Você escreveu por dez anos no seu blog; como se explica não ter deixado ali nenhuma parte do seu coração?
– Talvez ele não tivesse um coração em primeiro lugar – disse a segunda entidade, falando como se eu não estivesse ali. Entendi que não era a primeira vez que se expunha essa teoria a meu respeito.
Vendo que eu não tinha com que responder, a primeira entidade fez um gesto resignado com o braço e imediatamente a plataforma invisível que me sustentava desapareceu. Despenquei assobiando em direção ao mar lá embaixo.
Abracei o corpo que me restava e aguardei de olhos muito abertos o impacto, o esquecimento e o silêncio de morrer pela segunda vez.









