Manuscritos estocados em Novembro do Anno 2010 de Nosso Senhor
30 de Novembro de 2010

O jardineiro

Fotografia

29 de Novembro de 2010

O que eles estão pensando da igreja

Manuscritos

Desde a publicação de A bacia das almas, e em grande parte devido a um subtítulo nada sutil, meu nome tem sido associado àqueles que defendem um cristianismo sem igreja, uma espiritualidade comprometida com Jesus e descomprometida com a religião. Sou contado entre os que sustentam que uma manifestação institucional de igreja não foi de modo algum prevista por Jesus ou pelos autores do Novo Testamento, e que por certo não receberia a sanção deles. Aparentemente acredito que um cristianismo secular, desigrejado e informal, nos moldes das últimas inquietações de Bonhoeffer, descreve adequadamente não apenas a vocação cristã do vigésimo-primeiro século, mas também a do primeiro.

No que me diz respeito, essa é uma avaliação muito justa e equilibrada da minha disposição e, ao que tudo indica, não apenas da minha. Porém é natural que uma crítica a um sistema estabelecido não se levante em impunidade; a aparente proliferação de gente que se declara apaixonada pelas prioridades de Jesus e desinteressada nas prioridades da igreja formal, acompanhada da proliferação daqueles dispostos a defender esses cristãos seculares, vem despertando uma pequena mas inflamada Contra-Reforma.

Para discordar dos que discordam da vocação neotestamentária da instituição tem se levantado apologistas em todos os lados do espectro teológico. São cristãos que baseiam sua defesa da instituição no mérito de que amam a igreja e a comunhão dos santos; também tem em comum crerem que a igreja é uma organização formal representada por unidades administrativas que promovem encontros regulares e atividades autocentradas, e que nesses encontros e atividades consiste a comunhão dos santos. Fica claro que compartilhamos do mesmo mérito, mas não da mesma crença.

Quando fui convidado a contribuir com um capítulo para a coletânea O que eles estão falando da igreja, minha primeira reação foi responder que acreditava não ter mais qualquer contribuição para oferecer a essa discussão. Mas a vaidade e o amor pela exatidão (que são, evidentemente, nomes diferentes para uma mesma coisa) levaram-me a reconsiderar o direito de ficar calado. Afinal de contas, eles estão falando que a igreja é a instituição.

Escrevi três mil palavras e dei ao conjunto o título presunçoso e enganosamente acadêmico de Instituições, disciplinas e a geografia da devoção. Quem me conhece saberá prever a maior parte do que digo ali, embora não tenha como saber que fundamento meu argumento numa leitura das intransigências de Paulo e das revoluções do livro de Atos.

Se obrigado, no entanto, posso resumir a coisa toda em duas frases extraídas do próprio texto.

Em sua obsessão com a formalidade, ela [a igreja institucional] essencialmente impede a comunhão dos santos.

E, como se não bastasse:

Lutar contra a instituição é lutar contra a própria carne.

Na defesa pela igreja institucional, mais de uma pessoa já me ofereceu o seguinte apelo: “não é certo falar mal da igreja; a igreja pode ser uma prostituta, mas ela é nossa mãe”. Ao que aprendi depressa a responder, se é assim cabe aos seus filhos tirá-la dessa vida.

***

O que eles estão falando da igreja será lançado às 20h00 desta sexta-feira, 3 de dezembro, no auditório João Calvino da Universidade Presbiteriana Mackenzie (Rua da Consolação, 930, São Paulo – SP), com a inquietante presença dos autores.

28 de Novembro de 2010

Pelo menos a humanidade

Goiabas Roubadas

É da natureza do homem simpatizar apenas com as coisas que lhe dizem respeito, que tocam-no diretamente em algum ponto – por exemplo, o infortúnio. O céu, onde reina a felicidade ilimitada, encontra-se por demais acima da condição humana para que a alma seja vivamente afetada pela bem-aventurança dos eleitos; não conseguimos nos interessar mais do que moderadamente por seres perfeitamente felizes. É por essa razão que os poetas tem tido maior sucesso em descrever os infernos: pelo menos a humanidade está ali, e os tormentos dos culpados lembram-nos das misérias da vida.

François René de Chateaubriand (1768-1848) em O gênio do cristianismo

27 de Novembro de 2010

10 motivos pelos quais Papai Noel é melhor do que Jesus [3]

Ilustração

26 de Novembro de 2010

O ofício da subversão

Goiabas Roubadas

[As parábolas de Jesus] subvertiam o modo convencional de se enxergar Deus e a vida. Elas questionavam um “mundo”, um modo consolidado de se ver “as coisas como elas são”. As parábolas de Jesus convidavam seus ouvintes a abraçar um modo diferente de se enxergar a natureza das coisas e de se viver a vida. Na sua qualidade de convite para que as coisas fossem vistas de modo diverso, eram subversivas. De fato, enxergar de modo diverso talvez seja o fundamento de toda subversão.

E, do mesmo modo que Jesus contou histórias subversivas a respeito de Deus, seus seguidores contaram histórias subversivas a respeito de Jesus. O evangelho está repleto delas. Os seguidores de Jesus aprenderam bem a contar histórias subversivas, e podemos presumir que aprenderam o ofício com ele.

Marcus J. Borg e John Dominic Crossan, em The First Christmas

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