Manuscritos estocados em Setembro do Anno 2010 de Nosso Senhor
30 de Setembro de 2010

O Jesus pugilista desafia o Cordeiro

Goiabas Roubadas

Numa entrevista que deu há alguns anos para a Relevant Magazine, Mark Driscoll (conhecido pastor de Mars Hill, em Seattle) afirmou:

Em Apocalipse, Jesus é um boxeador profissional com tatuagem na perna, espada na mão e o empenho de fazer alguém sangrar. Esse cara eu consigo adorar. Não consigo adorar o Cristo hippie, de fralda e de aura, porque não consigo adorar um cara que eu mesmo surraria com facilidade.

Tenho dificuldade em entender como um discípulo de Jesus pode se considerar incapaz de adorar um cara que “surraria com facilidade”, sendo que cada discípulo de Jesus já o crucificou. Também não consigo enxergar o que há de digno de adoração em alguém que empunha uma espada “com o empenho de fazer alguém sangrar”. Dito isso, não me surpreende que Driscoll acredite que o Apocalipse apresente Jesus como um “boxeador profissional”. Essa imagem violenta de Jesus, fundamentada numa interpretação literalista de Apocalipse, é muito comum entre cristãos conservadores, tendo sido em especial popularizada pela notavelmente violenta série Deixados para trás.

O aspecto mais infeliz dessa leitura errônea, como revela o comentário muito explícito de Driscoll, é que o retrato de Jesus como “boxeador profissional” facilmente perverte o Jesus dos evangelhos, que escolhe morrer de amor por seus inimigos em vez de usar seu poder contra eles, e que manda que seus discípulos façam o mesmo (ver, por exemplo, Mateus 5:43-45; Lucas 6:27-36). Na verdade, lendo-se com cuidado essas passagens percebe-se que Jesus faz de amar os inimigos e de rejeitar toda a violência o pré-requisito para sermos considerados filhos de Deus. Amar os inimigos como ordenado por Jesus (e pelo restante do Novo Testamento; por exemplo Romanos 12:14, 17-21; 1 Pedro 2:21-23) requer que crucifiquemos o impulso de recorrer à violência, enquanto o modelo de Jesus como “boxeador profissional” com “o empenho de fazer alguém sangrar” permite que nos entreguemos candidamente a ele. Se podemos descartar o Jesus amante da paz como “um Cristo hippie, de fralda e de aura,” estamos também livres para infligir vingança sobre nossos inimigos a nosso bel prazer – sentindo-nos inteiramente justificados nisso.

Ora, não há como negar que o livro de Apocalipse está cheio de imagens de violência. Porém a interpretação literal dessas imagens não apenas contradiz o Jesus dos evangelhos e o ensino de não-violência do restante do Novo Testamento, mas ignora também o gênero e o contexto histórico do livro. Não apenas isso, a abordagem literal de Apocalipse deixa de atentar para os detalhes do uso que João faz uso de simbolismo apocalíptico e do Antigo Testamento.

Por exemplo: como já observado por uma multidão de estudiosos, Jesus não traz a sua espada em punho, como alega Driscoll; ela, ao contrário, sai da sua boca (1:16; 2:16; 19:15,21), querendo dizer que Jesus derrota seus inimigos pelo mero ato de falar a verdade. Do mesmo modo, os santos não alcançam a vitória através de armas físicas, mas pelo “sangue do Cordeiro e pela palavra do seu testemunho” (12:11). Na mesma linha, é significativo que na cena climática de batalha em Apocalipse 19, o guerreiro Jesus vista uma túnica banhada de sangue mesmo antes que a batalha comece (versos 13 e seguintes). O sangue, muito claramente, não é de seus inimigos, que ele está ainda por combater. O que o simbolismo sugere, em vez disso, é que Jesus vai à batalha e em última instância reina supremo pelo derramamento de seu próprio sangue.

Isso está relacionado diretamente com aquela que talvez seja a imagem mais importante do livro. É crucial entender que o guerreiro banhado de sangue que batalha com as palavras da verdade é o Cordeiro abatido de Deus (por exemplo, 5:6-13). O Cordeiro assenta-se no trono e é o único “digno” de abrir o livro que revela o modo de Deus governar o mundo e derrotar a perversidade. Na verdade, muitos estudiosos argumentam que todo o propósito do livro do Apocalipse é defender diante das críticas o modo divino, sacrificial e semelhante a um cordeiro, de vencer o mal. Ou seja, o método de Deus, de vencer o mal pela disposição de morrer em vez de conquistar pela violência, deixa a impressão de que ao longo da história ele esteja sendo derrotado – porém todos verão que ele triunfa no final.

De qualquer modo, se interpretamos o Apocalipse em conformidade com seu gênero e dentro de seu contexto histórico original, e se atentamos para os modos engenhosos com que João utiliza o simbolismo tradicional, fica claro que João está se apropriando das imagens violentas do Antigo Testamento e dos apocalipses e revertendo-as por completo. Sim, há uma guerra de agressão e há derramamento de sangue; esta, porém, é uma guerra em que o Cordeiro e seus seguidores triunfam porque lutam contra o diabo e contra a Babilônia (representando todos os sistemas de governo) entregando fielmente suas vidas por amor à verdade – “o sangue do cordeiro e a palavra do testemunho deles”.

Gregory A. Boyd, em seu blog

29 de Setembro de 2010

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Ilustração

28 de Setembro de 2010

Onde se nasce

Manuscritos

Em Dindié, a 50 quilômetros de Patos, uma cabriteira deu à luz um menino tão valente, tão destinado a coisas grandes e violentas, que saiu do ventre da mãe com os braços inteiros cobertos de cicatrizes grossas e compenetradas. O pai içou-o da bacia como quem ergue um monstro ou um troféu e embrulhou-o num couro de bode; montou no jegue, despachando sertão adentro, e só parou depois de atravessar o arco seguro de duas luas, quando quase já não se ouvia o grito da mãe. Depositou o menino pelado no pedrisco, num cercadinho de macambira, e foi embora levando consigo o seu couro; só não partiu antes de dizer em voz baixa umas palavras, uma das quais o menino agarrou para si e julgou mais tarde ser o seu nome: Doidivino.

27 de Setembro de 2010

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Ilustração

26 de Setembro de 2010

O direito ao desemprego criador

Goiabas Roubadas, Sociedade

A partir daí tento mostrar à maioria que a diferença é que nossas casas são centros de consumo, enquanto as de nossas avós e bisavós eram centros de produção. Comida, roupas, energia, insumos, decoração, presentes e objetos de uso eram produzidos nas casas. Quase tudo que a família precisava estava ao alcance das mãos – de habilidosas mãos – que não só produziam, mas também consertavam, mantinham e adaptavam a novos usos quando algo se tornava definitivamente irrecuperável.

[...]

Veja bem: tudo que entra em casa gera embalagem e sai na forma de poluição. Nada fica, nada é aproveitado, tudo é jogado fora, como se “fora” existisse. Para tantos que falam de jogar algo fora, deve existir uma mágica no universo, uma vez que “fora” significaria uma espécie de buraco negro onde tudo sumiria, Emprego polui.quando de fato o que ocorre é que nosso “fora” significa que algo que não queremos deva ser lançado na cabeça de outra pessoa, de outro sistema ou de outra vizinhança. Transformamos o ciclo da vida em cadeia de geração de lixo. E nos prendemos nessas correntes intermináveis que acabam por nos envenenar corpos e mentes.

Para termos acesso a essa cadeia, buscamos dinheiro, e para obtê-lo nos submetemos a mais emprego. Nos coisificamos – reificamos segundo Marx – viramos peça de engrenagem e para manejar a situação buscamos ter mais e melhores empregos e com isso criamos muita poluição. Além de transformar a cadeia em algemas para a vida toda.

Para empregarmo-nos temos dois carros por família, ou usamos muito transporte de massa. Comemos comida pronta para ganhar tempo, inflamos as praças de alimentação de cada Shopping Center, onde produz-se em média dois contêineres por dia de restos de alimento que irão apodrecer em um aterro sanitário. A cada refeição geramos saquinhos plásticos, colheres plásticas, copos plásticos, facas plásticas e muito papel, energia e barulho que acompanham cada empregado, ou executivo, enquanto usufrui de sua ração diária. Nossos filhos vão a escolas e geram mais engarrafamento e stress, mais transportes, mais lanchinhos, embalagens e mais embalagens. Como a comida deve ser fácil e rápida, snacks entram no lugar de frutas ou pães, e com isso mais embalagens. Máquinas e mais máquinas, roupas compradas em lojas, e tudo que nos auxilia a consumir mais, ter melhor aparência e adequarmos nossa vida ao emprego, polui e acelera o sistema. E como pagamento por nosso esforço, ganhamos dinheiro, para comprar mais, gastar mais e poluir mais.

Emprego polui. E só nos empregamos por que não sabemos fazer outra coisa a não ser gerar dinheiro, para comprar mais e fazer menos. E no meio disso, para obtermos a impressão de descanso, nos entretemos diante de alguma bobagem, para que o consumo nos tenha entre tempos. Nos divertimos, para que nossa mente divirja daquilo que é importante. Saímos em grupos, para não sermos importunados pela família. Ligamos a TV para desligarmos a mente daquilo que nos oprime.

Uma boa medida para combater a extrema poluição que assola nosso planeta seria a busca do direito ao desemprego criador.

O impenitente Claudio Oliver,
que não se cansa de me atormentar
e pode ser encontrado na rua com Deus

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O capitalismo como fascismo
O ciclo pendente das coisas