Manuscritos estocados em Agosto do Anno 2010 de Nosso Senhor
30 de Agosto de 2010

A graça dos vasos comunicantes

Manuscritos

Não tenho prata nem ouro, mas o que tenho lhe dou.

 

Viver é administrar critérios, e critérios correspondem, grosso modo, às distâncias que estendemos entre nós mesmos e os demais. Num sentido muito profundo, sentimos que somos definidos pelos nossos critérios; efetivamente cremos que somos a soma das distâncias que estabelecemos entre nós e cada outro que povoa o nosso universo.

E não se trata apenas aquilo que sentimos que somos. Os critérios não apenas nos definem e nos protegem; na prática, tudo que acumulamos, realizamos e “construímos” ao longo da vida é fruto direto de nossa habilidade de gerenciar, articular e manipular as distâncias que nos distinguem dos demais.

Desde a infância somos ensinados não apenas a celebrar essas distâncias, mas a usá-las continuamente em nosso favor. Os mais jovens são ensinados a usar sua juventude contra os mais velhos, e os velhos sua experiência contra os mais novos; os talentosos usam seus talentos de modo a invalidar os medíocres, e os medíocres imitam com sucesso o talento quando percebem o quanto é fácil vender a mediocridade.

Os livros que prometem “Como ficar rico em pouco tempo” limitam-se a ensinar descaradamente o que todos fazemos em oculto: comece com uma pequena distância, um pequeno diferencial que o distinga da massa, e use/manipule os critérios dos outros de modo a transformá-la numa grande distância. Enriquecer e fazer fama não são outra coisa que consolidar a distância entre nós mesmos e os outros, e o mundo não faz outra coisa senão dizer que isso é uma coisa boa e desejável.

O mundo dos homens está finamente equilibrado sobre essas colunas de sensatez, mas de vez em quando caminham entre nossas pernas gigantes incômodos que invalidam por completo nossos critérios, e fazem isso basicamente ignorando-os. São gente minúscula e, segundo os critérios deste mundo, desprezível – mas em sua gentil insubmissão são inteiramente capaz de derrubar-nos dos terraços que construímos para nossas pretensões.

Sócrates foi um desses e Gandhi foi um desses, mas de modo geral gigantes desse porte não deixam herança, e essa sua infertilidade representa a tranquilidade do mundo e nossa paz. Nesse sentido, a singularidade do Filho do Homem e sua espada residem em ter colocado em movimento um reino vivo e sem fronteiras, habitado por gente comum, definido precisamente pela disciplina da inclusão. O avanço sem impedimentos desse movimento representaria a ruína do mundo como o conhecemos, porque a disciplina da inclusão está fundamentada no completo abandono daquilo que o mundo toma por absolutamente fundamental: nossos critérios, e com eles as distâncias reais e imaginárias que representam.

Pedro e João, incrivelmente, são agora portadores dessa contaminação e representantes dessa ameaça. Sua missão não é, como a de todos os homens, a de acentuar as distâncias e diferenças entre si mesmos e os outros, mas precisamente o oposto.

Os colonos do reino são eliminadores de distâncias, e isso retêm em comum com o seu Desbravador. É por isso que sua primeira medida prática, como vimos, foi diluir num esforço distributivo radical as falsas distinções projetadas pela riqueza. Agora, muito claramente o dinheiro não tem como se interpor no caminho da sua missão. “Não tenho prata nem ouro”, eles professam – e é absolutamente afortunado que seja assim, porque o dinheiro é a coisa mais barata que se pode dar a qualquer um.

Se fosse diferente – se Pedro e João de fato tivessem prata e ouro para consolar a sua consciência e a necessidade do homem na porta do templo, nenhuma distância estaria sendo eliminada. Ao contrário, o espaço imaginário que os distinguia/separava daquele homem só teria sido acentuado, como acontece conosco quando pensamos que há verdadeira generosidade em estender uma moeda a quem quer que seja.

Os habitantes do reino, no entanto, estão inteiramente preparados a ter nada a perder, de modo a terem constantemente tudo a oferecer. Quando estendem a mão ao homem necessitado, Pedro e João estão sem exagero dando tudo que tem e que são. De fato, “o que tenho lhe dou”: completa aceitação, completa fraternidade, completo equilíbrio de recursos e de forças. A comunhão de que desfrutam entre si, dois homens estendem sem reservas a um terceiro. Tomam-lhe pela mão e com isso lhe dizem: “você não é um homem que vive de esmolas; a distância que os outros estabeleceram para proteger-se da sua condição é uma farsa. Você é um ser humano; você é um de nós”.

E ficará provado que, uma vez que deixamos de fazer a distinção, ela deixa simplesmente de existir. A graça da inclusão se comunica sem critério de um vaso a outro, e onde todos estão cheios não há distância a ser coberta.

28 de Agosto de 2010

Communio Sanctorum

MP3

Este documento contém clipes de áudio que só podem ser ouvidos na página da Bacia na internet.

26 de Agosto de 2010

Via del mezzo

Fotografia

25 de Agosto de 2010

Gatos da Garfagnana

Sketchbook

23 de Agosto de 2010

A divina soltura

Manuscritos

E Pedro, com João, fitando os olhos nele, disse:
– Olha para nós.
E ele os olhava atentamente, esperando receber deles alguma coisa.

 

Deus apareceu em forma humana a Hagar, e deixou-lhe entre os dedos uma esperança; comeu pães sem fermento, bezerro e queijo fresco à sombra da árvore de Abraão, que não sabia com quem estava sendo generoso; engalfinhou-se com Jacó e não partiu sem machucá-lo e abençoá-lo para sempre, sem deixar claro se havia uma diferença; sentou-se debaixo do carvalho e conversou com Gideão, passando por gente comum até que seu cajado tocasse e consumisse os sacrifícios; incógnito, recusou o pão da mesa de Manoá e de sua esposa, mas subiu espetacularmente ao céu com o fogo de suas ofertas.

A porção mais remota da Bíblia fala de um Deus que, mesmo depois de assumir as complicações da sua transgressão, passeava pelo mundo em forma de gente – precisamente como o monarca das fábulas que andava de vez em quando, disfarçado mas ainda assim notável, entre os plebeus.

Esse hábito divino de caminhar entre os homens sem ser reconhecido ocasiona na narrativa aquilo que James L. Kugel chama de “momento de confusão” – o instante em que gente comum percebe que está diante de uma figura de algum modo formidável, mas antes de entender que está diante de uma divina aparição. É o instante em que Josué, desnorteado pelo homem de espada desembainhada que ameaça no horizonte, vai até ele e pergunta: “Quem vem lá? É um dos nossos, ou um dos nossos inimigos?” – sem saber que no momento seguinte estará prostrado em adoração diante dele.

Porque, quando finalmente reconhecem a identidade desse “anjo do Senhor”, os protagonistas dessas histórias tratam-no como se ele fosse o próprio Deus, e não algum mensageiro seu – e é frequentemente como Deus, e não em nome dele, que a aparição fala de si mesma.

Em alguns casos, como no de Abraão e Jacó, essas divinas aparições nem ao menos são chamadas de anjos: são, mesmo para a narrativa, “um homem” – misterioso, promissor e incômodo como qualquer outro que se coloca no nosso caminho. A reviravolta está em que o que parecem ser meros homens se mostrarão Deus.

Como observa Kugel, a ênfase dos narradores bíblicos nesse momento de confusão não tem como ser casual. Ela serve não apenas para pontuar que Deus de vez em quando interfere na realidade do dia-a-dia, mas para demonstrar que a própria realidade pode ser algo bem diferente do que aparenta: “não há dois domínios, um temporal e um espiritual [...] O espiritual não é algo distinto, uma outra ordem de existência”.

O momento de confusão do protagonista está ali para nos ensinar que se não somos capazes de enxergar Deus no cotidiano isso pode muito bem ser falha da nossa percepção, e não daquilo que cremos ser uma divina ausência.

Com o passar das páginas e dos séculos, no entanto, essa divindade que costumava aparecer em forma corpórea vai assumindo um recato cada vez mais acentuado. Deus deixa de se disfarçar de ser humano e de ser visto entre os homens, e vai adotando uma reputação e um caráter cada vez mais espiritual: invisível, inacessível e inteiramente distinto da experiência cotidiana.

Pela metade do Antigo Testamento, Deus já deixou há muito de sentar-se debaixo de árvores, de envolver-se em brigas com fugitivos e de aceitar convites para jantar. É uma divindade cada vez mais incorpórea, e quando finalmente levantam-se os profetas, Deus resumiu-se efetivamente a uma voz – uma voz que nem mesmo fala através de si mesma, mas pela garganta de intermediários. Ao final do Antigo Testamento, “E a Palavra do Senhor veio a [tal profeta]” é aparentemente tudo o que resta da corporeidade de Deus.

Então, sem qualquer aviso e sem um verdadeiro precedente, Jesus pisa o chão descalço da Judeia, e a corporeidade de Deus parece ter sido esplendidamente restituída. Não apenas isso: ao contrário das aparições divinas no Antigo Testamento, Jesus não é apenas o divino assumindo uma sombra ilusória e temporária de humanidade. Antes, ele é declaradamente o Filho do Homem, inteiramente entranhado nas complicações da carne e comprometido com a busca de soluções para elas. Em Jesus, Deus não se recusará a sentar-se à mesa e não fugirá para ao céu diante da mínima ameaça de ser reconhecido. Jesus é um Deus que cospe, que caminha, que chora, que se cansa, que sangra, que tem fome, que tem sede – mas não só isso: é também um Deus que abraça, que cura, que perdoa, que acompanha, que elogia, que surpreende, que consola, que conversa, que toca feridas que todos recusam-se a olhar, que toma entre as suas mãos imperfeitas, que aceita carinho e não o nega.

Esse Deus insuportavelmente humano se mostra intolerável para uma humanidade corrompida, que não quer que ninguém lhe traga à memória a sua vocação à gentileza. Tratam logo de silenciá-lo, lançando-o no poço da morte, porque sabem que o clamor dos mortos não é capaz de iluminar a cegueira dos vivos.

Morto Jesus, de modo tão prematuro e imperdoável, o plano divino de amolecer a humanidade pela gentileza da sua presença parece ter sido frustrado definitivamente. Na morte de Jesus, o diabo mostra a Deus quem é que manda aqui embaixo, e esfrega-lhe na face a absoluta lealdade dos homens à perversidade e à mesquinhez.

Mas, então, impensavelmente, a semente que morreu lança do seio da terra as primeiras folhas de uma exuberância jamais vista. A gentileza de um único homem, fica demonstrado além de qualquer dúvida, havia bastado para amolecer no caldo do espírito o coração de mais de cem. No Pentecostes fica claro não apenas que a voz divina ninguém pode calar, mas também que o corpo divino ninguém pode deter.

A comunidade do reino é a multiplicação de Cristo e sua restituição ao mundo. Nesses vasos de carne que transbordam do espírito, Deus volta a andar pela terra em forma de gente.

Na comunidade do reino, Deus deixa de estar confinado ao céu, mas desfruta da graça e das responsabilidades de uma definitiva soltura. Deus deixa de estar confinado a um único corpo que pode ser eliminado, mas passa a transtornar o mundo mediante uma infinidade de mãos e de pés. Deus deixa de estar confinado ao templo, mas passa a caminhar em todos os lugares onde repousam os excluídos e os marginais, do lado de fora de todas as Portas Formosas.

As portas do templo não prevalecerão contra essa igreja, porque o mundo exterior e o interior de cada homem, cada aspecto da experiência física e espiritual, está destinada a ser transtornada em reino de Deus.

Paulo, uma vez banhado nessa realidade, não hesitará em chamar a igreja de Corpo de Cristo – descrição que seria blasfema se não fosse absolutamente precisa. A igreja é igreja quando é Jesus: um corpo lidando com corpos.

Agora Pedro e João olham com olhos de carne para um homem de carne, e logo lhe tomarão pela mão, a mão direita.

Deus está agora à solta, e salve-se quem puder.