Manuscritos estocados em Julho do Anno 2010 de Nosso Senhor
31 de Julho de 2010

No bosque

Fotografia

30 de Julho de 2010

Diante dos seus olhos

Goiabas Roubadas

E, se você tiver feito isso, desejo saber da seguinte forma se você ama ao Senhor e a mim, servo dele e seu: que não exista no mundo irmão que tenha pecado – por mais que tenha pecado – que, depois de ter olhado nos seus olhos, possa partir sem a sua misericórdia, se estiver buscando misericórdia. Que, se não estiver buscando misericórdia, seja você a perguntar se ele quer misericórdia; se ele pecar mil vezes diante dos seus olhos, que você o ame mais do que a mim de modo a atrai-lo para o Senhor; e que você estenda sempre misericórdia a irmãos como esse.

Francisco de Assis, , Carta ao irmão N. (1222)

29 de Julho de 2010

A

Ilustração

aranha

28 de Julho de 2010

Lampião no inferno | O erro de Úlfilas

Manuscritos

Depois de depor o Demo e impor uma nova ordem no inferno, Lampião manda chamar o mais letrado dentre os condenados e lhe trazem Dante, que a pedido do cangaceiro recapitula em versos toda a história da humanidade. Concluída a exposição, Lampião manda que tragam à sua presença os personagens que mais lhe irritaram ou mais chamaram a atenção; quando é impossível, como no caso de Úlfilas, sua indignação cresce e ele começa a esboçar o seu novo plano.

 

– Tenho intenção de ouvir mais sobre esse homem – exige Lampião, coçando o queixo e apontando com a lambedeira para o nome de Úlfilas nas notas manuscritas do florentino.

– Não há muito mais para contar – lamenta fingidamente o poeta, que está secretamente irritado porque ainda não entendeu os critérios de Lampião. Em seguida, dando um suspiro para arejar o cinismo, observa: – Não são todos os homens que encontram em vida ou depois dela o seu narrador. Outros, como Úlfilas, não desconhecem a notoriedade, mas tem sua história propositalmente obliterada. Suas biografias foram apagadas no fogo. Quase tudo que sabemos do apóstolo dos godos vem de um ou dois parágrafos de Filostórgio.

– Pois que se mande pescar esse Filostórgio da mundiça, e quando chegar lhe apertamos com um novo interrogatório!

O rei do cangaço faz um gesto exasperado aos seus mais carrancudos capangas, mas Dante os detém com uma mão magra.

– Filostórgio não está ao alcance nem mesmo do seu braço formidável, rei do inferno. Como Úlfilas, foi acolhido no Paraíso de onde nada pode tirá-los.

Lampião mergulha duas mãos furiosas no céu negro das regiões inferiores, um olho boiando ameaçador em direção ao poeta.

– Mas então não haverá neste inferno de Deus quem possa me trazer informação com maior carne sobre esse cristão?

Impassível, Dante começa a recolher suas notas, mas Lampião o impede com a ponta de uma alpercata. O poeta cede:

– Temos, em círculos remotos das regiões ínferas, algumas tribos remanescentes dos sangrentos godos, dentre eles os que confiscaram da Capadócia os ancestrais de Úlfilas; isso terá sido em meados do ano trezentos da graça. Mas trata-se de gente que não conheceu a luz desse apóstolo; todos os godos que viram a face de Úlfilas e poderiam prestar-lhe algum testemunho, rei do inferno, converteram-se ao cristianismo, foram batizados e recolhidos pela misericórdia de sua barbárie; contemplam hoje, face a face, as pétalas que ninguém pode contar da Rosa Imaculada das dores e da beleza.

– Arre! – resmunga Lampião, que não entende ele mesmo os critérios da graça divina. – E que pecado era o desse padre, que foi grande para queimarem tudo que se escreveu dele, e pequeno para não lhe fechar a porta arreganhada do céu?

– Seu pecado era o de Ário, que sustentava que Cristo não é co-eterno com Deus, mas seu unigênito e sua primeira criatura, segundo o salmo: “tu és meu Filho, hoje te gerei”. Sua heresia foi refutada na fé católica proferida em Nicéia, que explica que Pai o Filho compartilham da mesma substância desde antes das eras.

– Mas como se explica um descrente que negou a fé católica ser admitido na glória?

– Mas não de imediato – Dante ergue um dedo esguio. – Aprouve à sabedoria julgar que depois de mil e novecentas e sessenta e sete estações no purgatório todos os arianos sejam recebidos na luz eterna. Conta em favor desses heresiarcas que sua doutrina foi criada com a boa intenção de proteger o primeiro mandamento, no que afirma “não terás outros deuses diante de mim”.

O rei do inferno morde satisfeito o canto do próprio sorriso.

– Pois então Deus Nosso Senhor se enganou – ele declara.

– Não há erro maior do que sugerir um engano da divindade! – exige o poeta, sinceramente ofendido. – Sabia-o mesmo Satanás, que o precedeu no trono invertido. E que engano seria esse, que teria passado despercebido daquele diante de quem nada está oculto?

– E não foi há pouco – resenha o rei do inferno – que o poeta me contou que Úlfilas foi o primeiro vivente a traduzir a Bíblia para uma outra língua?

– Não foi o que eu disse – argui o florentino. – Naqueles dias, antes que Úlfilas vertesse a Escritura para a língua dos godos, já corriam pelo menos a primitiva tradução latina e versão em siríaco.

– Mas foi Úlfilas, segundo o que foi dito, o primeiro cristão a quem ocorreu traduzir a Bíblia para uma língua que nunca havia sido colocada por escrito.

– Está correto. Parece que os godos faziam algum uso de runas, mas Filostórgio declara que Úlfilas criou um alfabeto próprio a fim de empreender a sua tradução – aqui Dante consulta suas notas. – “Úlfilas inventou-lhes as letras do seu alfabeto, e traduziu todas as Escrituras no idioma deles, isto é, com exceção dos livros de Reis. Isso porque esses livros contém a história das guerras, e os godos, sendo amantes da guerra, precisavam de algo que os refreasse da paixão pela guerra, em vez de incentivá-la”.

– Filostórgio escreveu isso? – quer saber Lampião, divertidíssimo, e quando o poeta confirma o salão ecoa com sua mais temível gargalhada.

Dante permanece imóvel, e Lampião diverte-se ainda mais que ele não compartilhe da sua hilaridade.

– Não está vendo? – ele toca o ombro do florentino com um punho fechado. – Eis o seu deslize da divindade. Úlfilas acha que está fazendo uma coisa boa ao deixar sua tradução sem os livros de Reis; os padres de Nicéia acham que estão fazendo uma coisa boa ao condenar Úlfilas por pregar que o Cristo é criatura. O que todos deixam de enxergar é que o erro de Úlfilas é dar a entender, à sua e a todas as gerações, que é preciso inventar uma linguagem para transmitir o evangelho aos pagãos. Seu engano é dar a entender que a linguagem da vida e das atitudes não basta, e nisso seu testemunho contraria o de Vieira, o de São Francisco e o do próprio Nazareno. O deslize da divindade é coar o mosquito da heresia e engolir esse camelo.

27 de Julho de 2010

Gala

Ilustração