Depois de depor o Demo e impor uma nova ordem no inferno, Lampião manda chamar o mais letrado dentre os condenados e lhe trazem Dante, que a pedido do cangaceiro recapitula em versos toda a história da humanidade. Concluída a exposição, Lampião manda que tragam à sua presença os personagens que mais lhe irritaram ou mais chamaram a atenção; quando é impossível, como no caso de Úlfilas, sua indignação cresce e ele começa a esboçar o seu novo plano.
– Tenho intenção de ouvir mais sobre esse homem – exige Lampião, coçando o queixo e apontando com a lambedeira para o nome de Úlfilas nas notas manuscritas do florentino.
– Não há muito mais para contar – lamenta fingidamente o poeta, que está secretamente irritado porque ainda não entendeu os critérios de Lampião. Em seguida, dando um suspiro para arejar o cinismo, observa: – Não são todos os homens que encontram em vida ou depois dela o seu narrador. Outros, como Úlfilas, não desconhecem a notoriedade, mas tem sua história propositalmente obliterada. Suas biografias foram apagadas no fogo. Quase tudo que sabemos do apóstolo dos godos vem de um ou dois parágrafos de Filostórgio.
– Pois que se mande pescar esse Filostórgio da mundiça, e quando chegar lhe apertamos com um novo interrogatório!
O rei do cangaço faz um gesto exasperado aos seus mais carrancudos capangas, mas Dante os detém com uma mão magra.
– Filostórgio não está ao alcance nem mesmo do seu braço formidável, rei do inferno. Como Úlfilas, foi acolhido no Paraíso de onde nada pode tirá-los.
Lampião mergulha duas mãos furiosas no céu negro das regiões inferiores, um olho boiando ameaçador em direção ao poeta.
– Mas então não haverá neste inferno de Deus quem possa me trazer informação com maior carne sobre esse cristão?
Impassível, Dante começa a recolher suas notas, mas Lampião o impede com a ponta de uma alpercata. O poeta cede:
– Temos, em círculos remotos das regiões ínferas, algumas tribos remanescentes dos sangrentos godos, dentre eles os que confiscaram da Capadócia os ancestrais de Úlfilas; isso terá sido em meados do ano trezentos da graça. Mas trata-se de gente que não conheceu a luz desse apóstolo; todos os godos que viram a face de Úlfilas e poderiam prestar-lhe algum testemunho, rei do inferno, converteram-se ao cristianismo, foram batizados e recolhidos pela misericórdia de sua barbárie; contemplam hoje, face a face, as pétalas que ninguém pode contar da Rosa Imaculada das dores e da beleza.
– Arre! – resmunga Lampião, que não entende ele mesmo os critérios da graça divina. – E que pecado era o desse padre, que foi grande para queimarem tudo que se escreveu dele, e pequeno para não lhe fechar a porta arreganhada do céu?
– Seu pecado era o de Ário, que sustentava que Cristo não é co-eterno com Deus, mas seu unigênito e sua primeira criatura, segundo o salmo: “tu és meu Filho, hoje te gerei”. Sua heresia foi refutada na fé católica proferida em Nicéia, que explica que Pai o Filho compartilham da mesma substância desde antes das eras.
– Mas como se explica um descrente que negou a fé católica ser admitido na glória?
– Mas não de imediato – Dante ergue um dedo esguio. – Aprouve à sabedoria julgar que depois de mil e novecentas e sessenta e sete estações no purgatório todos os arianos sejam recebidos na luz eterna. Conta em favor desses heresiarcas que sua doutrina foi criada com a boa intenção de proteger o primeiro mandamento, no que afirma “não terás outros deuses diante de mim”.
O rei do inferno morde satisfeito o canto do próprio sorriso.
– Pois então Deus Nosso Senhor se enganou – ele declara.
– Não há erro maior do que sugerir um engano da divindade! – exige o poeta, sinceramente ofendido. – Sabia-o mesmo Satanás, que o precedeu no trono invertido. E que engano seria esse, que teria passado despercebido daquele diante de quem nada está oculto?
– E não foi há pouco – resenha o rei do inferno – que o poeta me contou que Úlfilas foi o primeiro vivente a traduzir a Bíblia para uma outra língua?
– Não foi o que eu disse – argui o florentino. – Naqueles dias, antes que Úlfilas vertesse a Escritura para a língua dos godos, já corriam pelo menos a primitiva tradução latina e versão em siríaco.
– Mas foi Úlfilas, segundo o que foi dito, o primeiro cristão a quem ocorreu traduzir a Bíblia para uma língua que nunca havia sido colocada por escrito.
– Está correto. Parece que os godos faziam algum uso de runas, mas Filostórgio declara que Úlfilas criou um alfabeto próprio a fim de empreender a sua tradução – aqui Dante consulta suas notas. – “Úlfilas inventou-lhes as letras do seu alfabeto, e traduziu todas as Escrituras no idioma deles, isto é, com exceção dos livros de Reis. Isso porque esses livros contém a história das guerras, e os godos, sendo amantes da guerra, precisavam de algo que os refreasse da paixão pela guerra, em vez de incentivá-la”.
– Filostórgio escreveu isso? – quer saber Lampião, divertidíssimo, e quando o poeta confirma o salão ecoa com sua mais temível gargalhada.
Dante permanece imóvel, e Lampião diverte-se ainda mais que ele não compartilhe da sua hilaridade.
– Não está vendo? – ele toca o ombro do florentino com um punho fechado. – Eis o seu deslize da divindade. Úlfilas acha que está fazendo uma coisa boa ao deixar sua tradução sem os livros de Reis; os padres de Nicéia acham que estão fazendo uma coisa boa ao condenar Úlfilas por pregar que o Cristo é criatura. O que todos deixam de enxergar é que o erro de Úlfilas é dar a entender, à sua e a todas as gerações, que é preciso inventar uma linguagem para transmitir o evangelho aos pagãos. Seu engano é dar a entender que a linguagem da vida e das atitudes não basta, e nisso seu testemunho contraria o de Vieira, o de São Francisco e o do próprio Nazareno. O deslize da divindade é coar o mosquito da heresia e engolir esse camelo.
