Manuscritos estocados em Abril do Anno 2010 de Nosso Senhor
30 de Abril de 2010
Não creio que o que vou dizer esteja convictamente firmado para mim, embora seja coerente o bastante para ser dito. O desenvolvimento da teologia da redenção pela cruz, do sacrifício perfeito, tornou-se um álibi poderoso e eficaz contra a narrativa do evangelho e o seu modus vivendi a todos oferecido – o que o vício não deixa mais ver na expressão “Reino de Deus”. A teoria da morte salvífica de Cristo, isto é, a morte que uma só vítima perfeita deveria sofrer em favor de todos, de um lado propicia um esquecimento sutil das razões históricas que levaram aquele rapaz para a cruz – a saber, a sua forma insensata de viver e promover vida – e de outro, censura veladamente a necessidade ou o perigo da imitação daquela vida. Se a agonia de Cristo é redentora (e o dogmatismo faz isso ser entendido de forma absurdamente transcendental a qualquer significado existencial) e se ele foi destinado para isso, estamos todos livres do sacrifício; e se a morte dele foi provocada pela forma de vida que ele vivia e promovia, estendemos até aí a nossa isenção. Eis a construção de um silogismo falso (e extremamente conveniente): se B (a morte) não nos pertence mais, e B (a morte) é uma extensão inevitável de A (a vida), então A (a vida) também não nos pertence mais. A redenção é consequência de uma forma de estar nesse mundo.Se não preciso imitar ao Cristo sacrificado, não preciso imitar, tampouco, ao Jesus vivo. Girardianamente falando, o bode já foi sacrificado.
O rapaz monstruosamente torturado na cruz, que pouco antes encantava com seus gestos nobres e perturbava com suas palavras precisas, a quem atribuímos uma natureza divina, não permitiu durante todo o seu ensino errático ser alçado sozinho à condição de salvador, convidando, pelo contrário e a todo momento, a segui-lo, a imitá-lo, a fazer como ele fez. Como bem percebeu Irineu e Atanásio (para ficar nos mais antigos), queria nos fazer participar de sua condição; sendo ele o ponto de partida, o primeiro entre todos, o Desbravador, sabia que a redenção não é uma mágica, muito menos um absurdo sacrifício: ela se dá num contraste impossível de expressar, entre a conversão interior a cada pessoa e a irradiação irrefreável dessa postura no meio do mundo; a redenção é consequência de uma forma de estar nesse mundo. Por isso ele quer que a sua proposta continue com aqueles que a aceitaram. E a proposta historicamente localizada para o judaísmo legalista helenizado e romanizado do seu tempo é a irradiável e irremediável e graciosa generosidade de Deus, testemunhada no fato de que a vida, o sol e a chuva, são dados todo dia sem nenhuma exigência de pagamento – seja em boas intenções, seja em boas obras. Isso bate de frente com o ensino dogmático de um deus mesquinho e antropomórfico, que faz barganha, exige pagamentos. Entretanto, a Generosidade, que no fim das contas tomará conta de tudo e todos, precisa antes disso que os que a descobriram e a ela aderiram livremente vivam como se já estivessem lá naquele futuro. Ou seja, se acreditamos num Deus generoso, seremos divinamente generosos e portanto humanos em tudo, e isso vai ser irradiado. E é aqui que chega o “porém”…
Esse tipo de anti-teologia, no contexto em questão, só pode partir dos que nada têm a perder, e quando começar a irradiar vai fatalmente atingir quem quer que esteja numa posição de poder e obtenha ganhos com a teologia da culpa e da barganha com um deus implacável, mais juiz que Pai. Ou seja, isso vai atingir de cheio os poderosos do contexto em questão. Caso ocorra da forma convencional, esses caras vão fazer de tudo para manterem seu poder, inclusive matar os que se atreverem a ser generosos e bondosos. E é o Poder, qualquer poder que inflija culpa, separação e desigualdade, que os Desbravadores da Generosidade terão que negar e enfrentar, apenas portando a generosidade de um deus, o que pode levar à morte.
Portanto, a cruz não é necessária em si, sendo essa conclusão fruto da teologia pagã do mérito. A cruz é conseqüência de um confronto direto entre a Generosidade e o Poder, o Humano e o Satânico, dois elementos antagônicos da trama novelesca em que a vida se desenrola. O dramático é que para a Generosidade se livrar da cruz tem que usar um expediente de Poder e, assim, ser transformada no seu oposto. Pra permanecer generosa a Generosidade tem que se despir de qualquer poder. Sendo assim, e aplicando a anti-teologia a um caso específico, o de onde ela nasceu, Jesus não morreu piedosamente por mim, morreu desgraçadamente porque esses conceitos – Poder e Generosidade – não são entidades transcendentais, são atos e inclinações de gente humana; morreu tragicamente pelas mãos dos teólogos dogmáticos de seu tempo, judeus e romanos; morreu terrivelmente porque escolheu a Generosidade enquanto todos escolhiam o Poder, e morreu assustadoramente porque combateu o Poder com a Generosidade, morreu, enfim, pela covardia dos que escolheram o Poder.
Uma escandalosa corrupção do evangelho foi utilizar como sacrifício redentor a morte desnecessariamente dolorosa de quem abolira a necessidade de sacrifícios redentores. Assim como a mensagem do evangelho de Jesus é totalmente circunstancial e histórica, espalhando-se dentre a história de várias maneiras, também são circunstanciais e históricas sua tortura e sua morte. A cruz para Jesus, como tinha sido a cicuta para Sócrates, como foi a má-fama para Francisco de Assis, o desprezo para Nietzsche, a bala para Gandhi (para ficar nos mais famosos), nada disso era necessário, embora já estivesse cotado nas apostas deles mesmos como consequências. Deus aparece no anti-poder não por necessidade intrínseca a ele, mas por necessidade circunstancial, porque não pode deixar de ser Deus, ou seja, Generosidade. E para permanecerem na Generosidade, todos estes apresentadores de Deus julgaram necessário não abrir mão de abrir mão de qualquer poder, cada qual a seu modo, cada qual com sua linguagem, cada qual com sua cruz.
Não sei se eu percebi errado, mas me parece que o rapaz que foi crucificado propunha que se eu gostasse da sua proposta e escolhesse a Generosidade em vez do outro lado, teria que incluir essa fatalidade nas minhas pretensões. É bem possível que essa seja a causa de eu ser tão indeciso e errático e de eu carregar essa tendência pagã de freqüentar igrejas onde a imagem da cruz e as dores do crucificado são arrancadas do seu terrível significado histórico e alçadas à dignidade farisaica de universais.
Rondinelly Gomes Medeiros,
destilando santa inquietação
no Soda Cáustica

28 de Abril de 2010
O despojamento radical dos romeiros de Pentecostes deve ser encarado, finalmente, como a desconcertante manifestação política que é. O fim da política – isto é, o fim da fé na política – tem consequências políticas muito graves, e é precisamente esta profissão coletiva de independência que estamos presenciando aqui.
É lugar absolutamente comum mencionar-se este episódio como evidência de um precedente bíblico (e portanto cristão) para o socialismo, e é pelo menos tão comum refutá-lo. O argumento mais frequentemente levantado contra a factualidade dessa aliança explica que, ao contrário do que acontece no socialismo, na comunidade de Jerusalém os discípulos se desfaziam voluntariamente dos seus bens. Como se vê, trata-se do mais fraco e desleal dos argumentos, porque resolve ignorar que o despojamento de Pentecostes estabelece um projeto ainda mais idealista e exigente (e portanto, mais admirável) do que o projeto comunista. Parece, na verdade, sustentar blasfemamente que uma manifestação voluntária e irrestrita de coletivismo seria de alguma forma menos notável ou digna de imitação do que um coletivismo oferecido paliativamente através da instituição política. E resolve ignorar, de forma ainda mais cafajeste, a distância irreconciliável entre a postura coletivista dos discípulos de Pentecostes e o individualismo inextinguível requerido pela alternativa oficial ao socialismo, o capitalismo.
O despojamento de Pentecostes não deve ser considerado, de fato, precedente para o socialismo, mas não pela razão apontada pelos que não são de esquerda, de que há verdadeira incompatibilidade entre as duas posturas. A verdade é que a renúncia coletiva dos discípulos em Atos 2 é plataforma para um projeto político (ou talvez seja mais correto dizer apolítico) muito maior e mais ambicioso, sem precedentes e sem verdadeiros herdeiros ideológicos.
Diante desse projeto o socialismo permanece alternativa muito racional, muito cautelosa – muito política – e, portanto, insuficiente. Ao contrário do que sugerem incessantemente os seus antagonistas, nenhuma teoria importante do socialismo (e talvez um número ainda menor de aplicações práticas dessas teorias) pressupõe um coletivismo puro, em que tudo pertence a todos e a propriedade privada simplesmente não existe. Em termos estritos, a única propriedade não-privada postulada por um regime socialista é a dos meios de produção. O sonho socialista é de um mundo em que indústrias, máquinas e matéria-prima não sejam sequestradas por um ciclo seletivo de enriquecimento que é eternamente sustentado pelo trabalho de quem está abaixo de nós no organograma. Nesse mundo em que os meios de produção foram tornados coletivos, aquilo que antes eram lucros desfrutados por uns poucos torna-se magicamente poder de compra de que todos os envolvidos se beneficiam. As pessoas passam a trabalhar menos e ganhar mais, porque sustentam apenas a si mesmas e não o ocioso do andar de cima, e o que ganham pode ser usado para comprar mais e melhores produtos.
Trata-se, como se vê, de um plano simples e bem-intencionado, mas que os defensores do capitalismo tomam por especialmente injusto, visto que não premia com o mesmo deleite a iniciativa, o empreendedorismo e a criatividade. O capitalismo defende sem trégua a liberdade, e entende que liberdade é o indivíduo poder beneficiar-se impunemente da arbitrariedade da diferenciação. Toma por inerentemente verdadeiro que quem é mais inteligente, mais forte, mais batalhador e mais criativo deve ser premiado por essa sua condição, e o prêmio estabelecido pelo sistema é o direito de trabalhar menos e comprar mais. Os incompetentes, os ociosos, os idealistas e os sem instrução, esses a pedra de moer do capitalismo tratará automaticamente de eliminar e punir, atribuindo-lhes pouco ou nenhum poder de compra – isto é, valor nenhum. Segundo esse inabalável artigo de fé, liberdade é liberdade para angariar os benefícios de se encontrar em posição mais vantajosa; consequentemente, quem não tem vantagens para oferecer não terá liberdade de que desfrutar.
O curioso, como denunciado recentemente por insubmissos como Zizek, é que capitalismo e socialismo são doutrinas político-econômicas bem menos distintas entre si do que seus defensores gostam de pensar. O socialismo é em essência um capitalismo elevado ao patamar de utopia, um mundo de produtividade pura e excelsa não perturbada pelo embaraço do capital. A própria definição de socialismo, fundamentada no valor último dos “meios de produção”, acaba denunciando a obsessão (eminentemente capitalista) do socialismo com o consumo. Tanto para um quanto para outro a questão fundamental é produzir e consumir sem impedimento; só diferem quanto ao caminho para se atingir esse nirvana.
Quando se analisam dessa forma as distinções e semelhanças entre os dois sistemas, deve ficar claro que um sistema político (e portanto econômico) é invariavelmente um sistema de intermediação de justiça. Toda fé política sustenta, muito sensatamente, que o único modo de se garantir e exercer a justiça é pela mediação de uma instituição; discordam entre si apenas a respeito de qual é a receita institucional correta. Para o socialista, o sistema é justo porque ninguém pode ficar rico; para o capitalista, o sistema é justo porque qualquer um pode enriquecer. Ambos os projetos, portanto, estão fundamentados no medo coletivo da injustiça (medo da injustiça social, para o socialismo, e medo da injustiça pessoal, para o capitalismo) e no desejo condicionado pelo que o sistema toma como admirável (em ambos os casos, a produção e o consumo).
Não é apenas anacrônico, portanto, afirmar que as generosidades de Atos 2 e 3 prefiguram o socialismo, ou apontar que não necessariamente anulam o capitalismo. O despojamento coletivo dos discípulos de Pentecostes não confirma um sistema político ou econômico, mas faz precisamente o contrário: anula o mérito de toda solução política e alça o desafio da convivência a um nível embaraçosamente mais exigente, elevado ao ponto de uma rigorosa insensatez. Numa palavra, inaugura o Reino de Deus, em que a justiça não é intermediada por uma instituição, mas por pessoas.
Jesus já havia demonstrado, em sua aventura na terra, um saudável desrespeito pelas soluções institucionais – mas agora seu projeto alcança, pela primeira vez, uma face verdadeiramente coletiva. Seus novos discípulos são suas testemunhas porque afirmam na vida real o que o rabi de Nazaré sempre sustentou e sempre fez.
Quando se despojam do que os afastava uns dos outros, os membros-fundadores da comunidade do Reino estão anunciando aos quatro ventos que não se deixarão conduzir pelo medo da injustiça (que os levava a acumular) e pelo desejo condicionado (que os levava a adquirir). Anunciam, a quem estiver ali para ver, a notícia de que no reino revelado por Jesus a justiça deve ser, e na verdade só pode ser, administrada de uma pessoa a outra, e não por intermédio de uma instituição. Proclamam na vida real o que Jesus sempre assegurou, que no reino da generosidade divina não é preciso temer coisa alguma. Se Deus sustenta o menor dos pardais, o homem não deixará de sustentar o homem.
O Reino de Deus representa o fim de todos os governos porque descerra um domínio em que não é preciso temer a injustiça – não porque o sistema conta com mecanismos artificiais e soluções corretivas para garanti-la, mas porque ninguém está sozinho. Neste reino, marginais leigos levantam e curam os caídos que rejeitaram os bondosos de plantão, e um menino sem nome blasfema ao sugerir que seu lanche poderá fazer diferença para alimentar uma multidão; seus habitantes vendem o que possuem a fim de suprir o que falta ao mais desconhecido dos necessitados – e cada um desses faz soprar, a seu modo e em sua imprudência, o vento inédito de um mundo possível em que ninguém será deixado para trás.
O reino dele não é deste mundo, mas arrepender-se é transformar este mundo no dele. É minerar riqueza espiritual no reino de Deus que está dentro de nós e tirá-la para fora na forma de evidência da ação de Deus no mundo real. No processo tornam-se obsoletas tanto a política quanto a religião – mas nem uma nem a outra, ficará logo claro, entregará os pontos sem resistir.

26 de Abril de 2010
ABRAÃO: Abraão em Canaã
Com dez tentações Abraão foi tentado, e ele resistiu a todas, ficando demonstrado quão grande era o seu amor. A primeira prova a que foi submetido foi a partida de sua terra natal. As dificuldades que enfrentou foram numerosas e severas, e Abraão além disso tinha reservas contra deixar sua casa. Ele disse a Deus:
– Será que não dirão de mim: “ele está se empenhando para trazer todas as nações para debaixo das asas da shekiná/glória divina, mas agora abandona seu velho pai em Harã e vai embora”?
Porém Deus respondeu:
– Descarte do pensamento qualquer preocupação com seus pais ou com seus familiares. Eles podem até dirigir a você palavras gentis, mas estão todos de acordo no propósito de arruiná-lo.
Abraão então deixou seu pai em Harã e peregrinou até Canaã, acompanhado pela benção de Deus, que disse a ele: “Farei a partir de você uma grande nação; eu o abençoarei e farei com que seu nome se torne grande”. Essas três bençãos foram designadas para neutralizar as consequências negativas que, ele temia, ocasionariam a emigração – pois viajar de um lugar para o outro interfere com o crescimento da família, diminui o patrimônio e prejudica a reputação de que a pessoa desfrutava.
A maior de todas as bençãos, no entanto, foi quando Deus disse: “E você mesmo, seja uma benção”, sendo que seu significado ~e que todos que entraram em contato com Abraão foram abençoados. Até mesmo os navegadores no mar tornaram-se devedores dele pelo sucesso de suas viagens. Deus, além disso, manteve a promessa que fez a ele de que no futuro seu nome seria mencionada nas Bençãos – que Deus seria louvado como o Escudo de Abraão, distinção conferida a nenhum outro mortal além de Davi. Porém as palavras “E você mesmo, seja uma benção” só serão cumpridas no mundo futuro, quando a semente de Abraão será conhecida entre as nações e sua geração entre os povos como “a descendência que o Senhor abençoou”.
Na primeira vez em que foi dito a Abraão que deixasse sua terra não lhe foi dito para qual país deveria imigrar – e por obedecer esse comando de Deus sua recompensa se mostraria proporcionalmente maior. Abraão demonstrou sua confiança em Deus, pois disse:
– Estou pronto a ir para onde for que o senhor me mandar.
O Senhor então disse a ele que fosse para uma terra que ele mesmo iria revelar; mais tarde, quando Abraão foi a Canaã, Deus apareceu a ele, e ele soube que aquela era a terra prometida.
Quando entrou em Canaã Abraão não soube imediatamente que aquela era terra que lhe havia sido designada por herança, mas ainda assim encheu-se de alegria por ter entrado nela. Na Mesopotâmia e em Aramnaharaim, cujos habitantes havia visto comendo, bebendo e agindo com impudência, ele sempre havia desejado: “ah, que minha porção não seja nesta terra”; porém quando chegou a Canaã e observou que ali as pessoas se dedicavam diligentemente ao cultivo da terra, Abraão disse: “ah, que minha porção seja nesta terra!”
E Deus disse a ele:
– À tua descendência darei esta terra.
Feliz diante desta boa nova, Abraão erigiu um altar ao Senhor a fim de agradecer-lhe por essa promessa, depois seguiu viagem para o sul, na direção do lugar onde mais tarde se ergueria o Templo. Em Hebrom ele erigiu outro altar, tomando dessa forma posse da terra por completo. Semelhantemente, erigiu um altar em Ai, porque previu o infortúnio que ali recairia sobre a sua descendência, por ocasião da conquista da terra sob a liderança de Josué. Esse altar, ele esperava, seria capaz de impedir os terríveis resultados que se seguiriam.
Cada altar erguido por ele tornava-se o centro de suas atividades missionárias. Tão logo chega ao lugar em que desejava se demorar, Abraão montava primeiro uma tenda para Sara, depois outra para si mesmo, e passava em seguida a fazer convertidos e trazê-los para debaixo das asas da shekiná. Dessa forma ele cumpria o seu propósito de levar todos os homens a confessarem o nome de Deus.
Por enquanto Abraão não passava de um estrangeiro em sua terra prometida. Depois da divisão da terra entre os filhos de Noé, quando todos haviam ocupado as porções que lhes haviam sido designadas, aconteceu que Canaã, filho de Cão, viu como era boa a terra que se estendia do Líbano ao Rio do Egito, e recusou-se a partir para o seu próprio lote. Ele fixou-se na terra acima do Líbano, a leste da orla do Jordão e a oeste da orla do mar. Cão, seu pai, e seus irmãos Cuche e Mizraim disseram a ele:
– Você está morando numa terra que não é sua, porque não nos foi designada quando as sortes foram lançadas. Não faça isso! Se insistir nesse erro você e seus filhos cairão, malditos, sobre a terra, em rebelião. Foi rebelião você fixar-se nesta região, e através de rebelião seus filhos tombarão, e sua descendência será destruída para toda a eternidade. Não fique vivendo na terra de Sem, pois a Sem e aos filhos dele essa porção de terra foi designada. Maldito é você, e maldito será diante de todos os filhos de Noé por conta dessa maldição, pois fizemos um juramento diante do santo juiz e diante de nosso pai Noé.
Porém Canaã não deu ouvidos às palavras de seu pai e de seus irmãos; habitou com seus filhos na terra do Líbano de Hamate até a própria entrada do Egito. Embora os cananeus tivessem se apropriado ilegalmente daquela terra, Abraão respeitou-lhes os direitos, colocando focinheiras em seus camelos para impedir que se apascentassem na propriedade de outros.
* * *
Lendas dos Judeus é uma compilação de lendas judaicas recolhidas das fontes originais do midrash (particularmente o Talmude) pelo talmudista lituano Louis Ginzberg (1873-1953). Lendas foi publicado em 6 volumes (sendo dois volumes de notas) entre 1909 e 1928.
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