Manuscritos estocados em Março do Anno 2010 de Nosso Senhor
31 de Março de 2010

Os recursos necessários

Manuscritos

Vai ficando claro que esta é uma utopia que não descansará até alçar todos os degraus do sublime e do improvável (se é que existe diferença entre uma coisa e outra): ficamos sabendo logo em seguida que os integrantes da nova comunidade não apenas repartiam sem qualquer critério os seus bens uns com os outros, mas também vendiam suas propriedades e bens e os repartiam por todos, o que deve ser considerado muitas vezes mais insensato. Reter uma quantidade fixa de bens em regime comunal, por mais radical ou exigente que possa parecer, não é o mesmo que dissolver ou dilapidar todo um patrimônio conjunto, transformando-o em dinheiro e repartindo a liquidez resultante com todos – mesmo que seja “segundo a necessidade de cada um”.

O esvaziamento radical que, nesses termos tão descobertos, Jesus havia exigido (e sem sucesso!) de um único candidato a discípulo, é no novo cenário do espírito abraçado sem restrição e sem rancor por todos, com o consentimento ou sob a supervisão dos doze que serviam-lhes de exemplo. “Venda tudo que possui”, Jesus havia dito naquela ocasião, “e dê aos pobres, e venha ser meu discípulo”. E o que um não havia se rebaixado a fazer em privado, agora todos fazem em público.

O que está se materializando aqui é, naturalmente, o eco necessário e tardio dos ultimatos que Jesus apresentou às multidões – como, por exemplo, aquele tremendo registrado em Lucas 14.

Os evangelhos trabalham juntos para explicar que a relação de Jesus com as multidões era no mínimo ambígua. Por um lado, as pessoas despejavam-se de cidades e de distâncias para ouvi-lo e beneficiar-se dele; Quem não se despoja não tem os recursos necessários.por outro, Jesus as ensinava, alimentava e curava, mas muito declaradamente “não confiava nelas”.

A origem muito natural dessa desconfiança está em que, embora as multidões não se negassem a ouvir as insanas exigências que o Filho do Homem deitava diante de todos, um número muito menor – praticamente um punhado, uma dúzia, talvez setenta ou uns poucos mais – permitiram-se efetivamente transtornados e finalmente guiados por elas. Todos ouviam deleitados sobre as reviravoltas e escandalosas inversões do reino, mas poucos abraçavam a inclusividade do arrependimento. Muitos diziam “Senhor, Senhor”, mas poucos faziam o que ele estava dizendo. Muitos assistiam as suas aulas, mas poucos engajavam-se na sua reforma.

Por esses, que aumentavam continuamente o seu ibope mas observavam o reino de longe, o rabi de Nazaré não se deixava enganar. Não só isso; ele se esforçava constantemente para que eles mesmos não se deixassem enganar. Se Jesus volta tantas vezes ao assunto é porque era absolutamente necessário que seus seguidores nominais não passassem a se considerar, em sua posição de meros ouvintes, integrantes da verdadeira revolução.

Pois qual de vocês, querendo construir uma torre, não senta-se primeiro para calcular as despesas, a fim de ver se tem recursos para concluí-la? Para não acontecer que vendo-a inconclusa as pessoas comecem a zombar: “Esse homem começou a construir e agora não tem recursos para terminar”. Da mesma forma, todo aquele dentre vocês que não renuncia a tudo quanto possui não tem como ser meu discípulo.

Ou seja: multidão de fãs sem noção, baixem a bola e sentem aí para calcular os custos do discipulado. E é bom que estejam sentados quando o garçom trouxer a conta.

Diante de riscos tão acentuados e retornos tão transversais, Jesus toma o cuidado de não tirar em momento algum as cartas de cima da mesa. Vez após outra, parábola após parábola, ele vai pontuando que para experimentar o discipulado – isto é, para se enxergar o reino e colocar o pé no terreno virgem do fim do mundo – é preciso despojar-se de todas as coisas. Qualquer um que se desvia por qualquer razão desse formidável crivo não tem cacife para se engajar nessa obra. Melhor nem se envolver.

É essa a lei paradoxal da empreitada do reino: quem não se despoja de tudo que tem não tem os recursos necessários para empenhar-se nela.

O reino é um bem fabuloso que, para se ter, requer-se apenas nada se ter além do reino. Quem não se despoja por completo não tem os recursos necessários para adquirir o reino, justamente porque nada é necessário para adquirir o reino. Viver no reino é demonstrar isso, viver o reino é descobrir isso1.

É por isso que o rico não pode passar pelo buraco da agulha que é a entrada do reino: ele literalmente não tem como passar. Ou, melhor dizendo, ele tem os recursos para não passar. Para entrar, será necessário despojar-se.

Despojar-se é alçar-se literalmente à posição de não-condicionado – aquela vida de completa autodeterminação e completa identificação com o próximo que Jesus desempenhou e ofereceu.

Despojar-se equivale a derrubar Satanás do seu trono, porque representa deitar por terra o medo e o desejo, as algemas que permitimos que ele use para nos impedir de avançar e crescer. Despojar-se é abandonar, de modo muito literal, o medo de perder [as coisas] e o desejo de aferrar-se [as coisas]. É pisar o terrível terreno da liberdade incondicional. É conhecer o sopro do espírito que está finalmente livre para soprar onde quiser.

É por isso que os integrantes da comunidade do espírito acham importante seguir a lição do despojamento até sua aplicação mais crua e literal – vender tudo e tudo diluir entre os necessitados, – porque querem seguir Jesus e para o mesmo lugar. Se é que serão não-condicionados como ele foi, será necessário deixar para trás todas as cargas que os condicionam –Possuir é manter-se condicionado. e possuir, muito evidentemente, é deixar-se condicionar, porque o verdadeiro rico é aquele que não precisa de nada. Disso muitos ouvem falar, mas só o conhece o habitante do reino.

Aqueles de nós que habitam o reino e verdadeiramente o promovem são os que por um lado embrenharam-se no caminho do despojamento radical e, por outro, desenvolveram mecanismos literais para manterem-se o maior tempo possível nessa condição. Falo de gente como Gandhi, como Tolstói, como Madre Teresa, como São Francisco e como alguns amigos que tenho e dos quais você não vai ouvir falar, porque eles preferem assim.

Retenha em mente, portanto, essa única coisa: possuir é manter-se condicionado, e esta é uma regra sem exceção. Por isso, quando você pensar em grandes exemplos de vida ou quando quiser mencionar pessoas edificantes e cheias de luz, pode excluir sem medo da sua lista gente que trabalha para sustentar o conforto de automóveis e casas e computadores e telefones celulares e seguidores e internet banda larga. Quem permanece escravo dessas liberdades pode até falar dele com os lábios, mas não conhece com os olhos o não-condicionado.

Você deve, portanto, excluir da sua lista de notáveis o Paulo Brabo, o Diogo Mainardi, o Ricardo Gondim, o Lula, o Ed René Kivitz, o Barack Obama, o Rubem Alves, o Silas Malafaia e todos os nossos comparsas e antagonistas, porque permanecemos condicionados pela multidão de pequenas facilidades de que ainda não nos despojamos. Somos todos, luzes políticas e faladores públicos, meras distrações profissionais, operando a meio caminho entre o crime e o entretenimento. Nosso método é dar a impressão de que temos um plano e de que sabemos do que estamos falando, e enquanto nos dá ouvidos você mesmo vai adiando a loucura que seria saltar de cabeça no abismo do arrependimento e embrenhar-se na reforma interior e exterior que é também o fim do mundo. Da mesma forma, enquanto nós faladores tivermos em você uma audiência cativa nós mesmos permaneceremos adiando o temerário crescimento pessoal que com nossa voz fazemos você adiar – e nesse esforço conjunto, nessa sedução circular, vamos garantindo que nada de fato aconteça.

Nossa única chance, naturalmente, seria pôr de lado minuciosamente tudo – e isso não porque os pobres carecem dos bens e da atenção que poderíamos repartir entre eles, mas porque carecemos nós de encontrar a paz e a guerra, a vida e a morte passando pelo buraco da agulha que é a entrada do reino.

NOTAS
  1. Roberto Benigni, em O Tigre a Neve, é um professor de literatura que ensina um princípio semelhante aos seus alunos: “Se você não tem recursos, não se preocupe. Para fazer poesia só é preciso uma coisa: tudo”. []
30 de Março de 2010

Hell’s Mouth

Fotografia



Em exibição no Teatro Grotesco

29 de Março de 2010

Eles são feitos de carne

Goiabas Roubadas

– Eles são feitos de carne.

– Carne?

– Carne. Eles são feitos de carne.

– Carne?

– Já não há mais qualquer dúvida. Capturamos diversos deles de diferentes partes do planeta, trouxemos a bordo das nossas naves de reconhecimento e submetemos a todo tipo de exame. Eles são completamente carne.

– Isso é impossível. E que dizer dos sinais de rádio? As mensagens para as estrelas?

– Eles usam as ondas de rádio para conversar entre si, mas os sinais mesmo não vêm deles. Os sinais vêm de máquinas.

– Então quem fez as máquinas? São esses que queremos contatar.

– Eles fizeram as máquinas. É o que estou tentando te dizer. A carne fez as máquinas.

– Isso é ridículo. Como é que carne poderia fazer uma máquina? Você está me pedindo para acreditar em carne autoconsciente.

– Não estou pedindo, estou dizendo. Essas criaturas são a única raça autoconsciente daquele setor e são feitos de carne.

– Talvez eles sejam como os orfolei. Você sabe, inteligência baseada em carbono que passa por um estágio de carne.

– Não. Eles nascem carne e morrem carne. Estudamos as criaturas por vários de seus ciclos de longevidade, que são bem curtos. Você faz ideia de qual é a vida útil de carne?

– Poupe-me. Tudo bem, quem sabem eles sejam só em parte carne. Você sabe, como os weddilei. Uma cabeça de carne com um cérebro de electroplasma dentro.

– Não. Pensamos nisso, já que eles têm cabeças de carne como os weddilei. Mas eu disse, examinamos os caras. São carne do começo ao fim.

– Sem cérebro?

– Ah, têm cérebro, sim senhor. A questão é que o cérebro é feito de carne! É o que estou tentando te dizer.

– Mas… o que é que faz a parte de pensar?

– Você não está mesmo querendo entender, não é? Está se recusando a assimilar o que estou dizendo. O cérebro é que faz a parte de pensar. A carne.

– Carne pensante! Você está me pedindo para acreditar em carne pensante!

– Exato, carne pensante! Carne consciente! Carne amorosa. Carne sonhadora. A carne é a questão toda! Você está começando a sacar ou devo começar de novo?

– Meudeus. Você está falando sério então. Eles são feitos de carne.

– Valeu. Finalmente. Sim. Eles são de fato feitos de carne. E vêm tentando entrar em contato conosco ao longo de quase cem dos anos deles.

– Meudeus. Então o que essa carne tem em mente?

– Primeiro quer entrar em contato conosco. Imagino que depois queira explorar o universo, contatar outras entidades inteligentes, trocar ideias e informação. O usual.

– Estão esperando que a gente entre em contato com carne.

– É essa a ideia. É a mensagem que eles vêm transmitindo pelo rádio: “Alô. Tem alguém aí. Alguém em casa.” Esse tipo de coisa.

– Eles falam, então. Usam palavras, ideias, conceitos?

– Ah, sem dúvida. Só que eles usam carne para fazer isso.

– Você acaba de me dizer que eles usam o rádio.

– Usam, mas o que você acha que está no rádio? Sons de carne. Sabe quando você sacode ou estala um pedaço de carne e ele faz um barulho? Eles conversam estalando a sua carne uns para os outos. Até conseguem cantar, esguichando ar pela carne deles.

– Meudeus. Carne cantante. Isso já é demais. O que você aconselha?

– Oficialmente ou extraoficialmente?

– Os dois.

– Oficialmente somos obrigados a entrar em contato, dar boas-vindas e protocolar toda e qualquer raça consciente ou multiseres deste quadrante do universo, sem preconceito, medo ou preferência. Extraoficialmente, aconselho que apaguem-se os registros e que esqueçamos a coisa toda.

– Eu estava esperando que você dissesse isso.

– Parece cruel, mas há um limite. Queremos de fato fazer contato com carne?

– Concordo cem por cento. O que haveria para dizer? “Alô, carne. Tudo bem?” Mas será que isso vai dar certo? De quantos planetas estamos falando?

– Só um. Eles podem viajar a outros planetas em contêineres especiais de carne, mas não podem viver neles. E, sendo carne, só podem viajar no espaço C, o que os limita à velocidade da luz e torna a possibilidade de chegarem a fazer contato bem pequena. Quase nula, na verdade.

– Então só temos que fingir que no universo não tem ninguém em casa.

– Exato.

– Cruel. Mas você mesmo disse, quem quer conhecer carne? E aqueles que estiveram a bordo de nossas naves, aqueles que vocês examinaram? Tem certeza de que eles não vão lembrar?

– Serão considerados malucos se lembrarem. Entramos no cérebro deles e alisamos bem a carne, de modo que somos apenas um sonho para eles.

– Um sonho para a carne! É estranhamente apropriado isso, que devamos permanecer sonho de carne.

– E marcamos o setor inteiro como desocupado.

– Muito bem. Está concordado, oficialmente e extraoficialmente. Caso encerrado. Algum outro? Alguém interessante naquele lado da galáxia?

– Sim, uma tímida mas doce colmeia inteligente de aglomerados de hidrogênio numa estrela classe nove na região G445. Chegou a manter contato há duas rotações galáticas, quer reatar a amizade.

– Esse pessoal sempre acaba voltando.

– E porque não? Imagine quão insuportável, quão inconcebivelmente frio seria o universo para quem estivesse sozinho nele.

They’re made out of meat, um conto de Terry Bisson

28 de Março de 2010

Mais nada

Fé e Crença

RS. Me diga, qual você acha é o futuro do cristianismo?

BG. Bem, quanto ao cristianismo e quanto a ser um verdadeiro crente… sabe, acho que o que existe é o corpo de Cristo. Isso vem de todos os grupos cristãos ao redor do mundo, e de fora dos grupos cristãos. Acho que qualquer um que ama a Cristo, ou conhece a Cristo, é membro do corpo de Cristo quer isso seja consciente ou não. E não acho que veremos um grande avivamento que irá levar o mundo inteiro aos pés de Cristo. Penso que Tiago, o apóstolo Tiago no primeiro concílio em Jerusalém, tenha dado a resposta quando disse que o propósito de Deus para esta era é chamar um povo para levar o seu nome. É isso que Deus está fazendo hoje: chamando do mundo pessoas para levarem o seu nome, quer essas pessoas venham do mundo muçulmano, do mundo budista, do mundo cristão ou do mundo agnóstico; são membros do corpo de Cristo porque foram chamados por Deus. Pode ser gente que nem mesmo conhece o nome de Jesus, mas sabe em seu coração que carece de algo que não tem, e segue a única luz que tem. Penso que esses sejam salvos, e estarão conosco no céu.

RS. O quê? Estou ouvindo você dizer que é possível que Jesus Cristo entre no coração e na alma e na vida de um ser humano, mesmo quem nasceu nas trevas e nunca foi exposto à Bíblia? Essa é a interpretação correta do que você está dizendo?

BG. É sim, porque é nisso que acredito. Conheci gente em diversas partes do mundo que vive em situações tribais, sem nunca ter visto a Bíblia ou ouvido a respeito da Bíblia, sem nunca ter ouvido de Jesus, mas que cria em seu coração que há um Deus e procurou viver uma vida distinta da comunidade que o cercava e em que vivia.

RS. Estou profundamente emocionado de ouvir você dizendo isso. Há uma largueza na graça de Deus.

BG. Sem dúvida. Definitivamente há.

Billy Graham
em entrevista com Robert Schuller, 31 de maio de 1997

 

Viajar ao redor do mundo e conhecer o clero de todas as denominações ajudou a moldar-me num ser ecumênico. Estamos separados pela teologia e, em alguns casos, pela cultura e pela raça, mas essas coisas não significam mais nada para mim.

Billy Graham
U.S. News & World Report, 19 de dezembro de 1988

27 de Março de 2010

Quem vidistis pastores

Pormenor

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Coro I Piccoli Musici de Casazza e coro Gli Harmonici de Bérgamo. 5 de dezembro de 2009 na Igreja do Espírito Santo em Bérgamo.