Tenso
Ilustração

|
Manuscritos estocados em Fevereiro do Anno 2010 de Nosso Senhor
25 de Fevereiro de 2010
MissãoGoiabas RoubadasVivo me forçando a me contradizer, para evitar me conformar ao meu próprio gosto. Marcel Duchamp, citado por Harriet & Sidney Janis em “Marchel Duchamp: Anti-Artist”
Leia também: 24 de Fevereiro de 2010
O escândalo da hospitalidadeManuscritosPara os ouvintes deste primeiro discurso de Pedro “arrepender-se” parece ter representado mudar de idéia tanto a respeito de Jesus quanto a respeito de sua mensagem de inclusão. Gente que até aquele momento via Jesus como um criminoso, um herege e um perdedor passava a encará-lo como vencedor, messias e exemplo a ser seguido; De sorte que foram batizados os que receberam a sua palavra; e naquele dia agregaram-se quase três mil almas (Atos 2:41).gente que encarava sua mensagem de graça e aceitação como delírio vulgar de uma doutrina que não se dava ao respeito mostrava-se agora disposta a colocá-la escandalosamente em prática. Para essa espetacular transformação a narrativa não fornece outra explicação que a incubação do espírito. Fica claro que a metanoia da promessa Pedro não era sustentada pela mera lógica da sua argumentação; ela trazia por endosso o sopro coletivo da terrível lucidez do Espírito. O argumento verdadeiro e o verdadeiro desafio daquela mensagem era a incontornável comunidade dos cento e vinte postados diante da multidão. Pedro estava, afinal de contas, convidando seus ouvintes (judeus, todos eles) a integrarem uma comunidade tão inclusiva e tolerante que permitia – na verdade exigia – que homens e mulheres adorassem no mesmo espírito, no mesmo recinto e com a mesma voz. Naquela cultura e naquela sociedade poucos escândalos maiores eram tidos como concebíveis, mas essa miscigenação era mera sombra do que ainda estava por vir. Quem seria capaz de abraçar a exigentíssima inclusividade do reino até as últimas consequências? Quem seria capaz de suportá-la? Em retrospecto, as radicalidades da vida comum devem ter parecido desafio de pouca monta comparado ao de associar-se a uma comunidade disposta a ver-se associada a qualquer um. Estamos todos mais ou menos dispostos a suportar ou desfrutar da vida comum, desde que possamos escolher pelos nossos próprios critérios essa companhia – e aqui, num só golpe da narrativa, três mil impenitentes abriram mão dessa prerrogativa, entregando-se à insanidade de uma comunidade sem verdadeiro critério de admissão além da disposição coletiva de estender esse mesmo cavalheirismo a todos. E fizeram isso, conta-se, porque o espírito de Jesus deixara sulcos suficientemente profundos na sua passagem pela vida de uma centena de testemunhas. Não é tão cedo, portanto, que devemos decidir ter perdido Jesus de vista no livro de Atos, pois até aqui a coerência ideológica dos evangelhos prevaleceu. “Os que receberam a sua palavra”, isto é, os que acolheram a sua mensagem de inclusão, foram todos imediatamente incluídos – sem trâmite que não o batismo – na comunidade subversiva dos discípulos. Pode ser preciso salientar que com toda a probabilidade nenhuma outra comunidade na história havia demonstrado tão desarmante disposição à inclusividade – e certamente nenhuma comunidade (além dos desdobramentos do movimento cristão) demonstrou-a depois. Três mil agregados num só dia – esta é a assombrosa marca da ausência de critério de admissão na comunidade dos seguidores de Jesus. Todos os movimentos sociais são mais ou menos inclinados ao recrutamento; porém as comunidades que se dão ao respeito, especialmente as que alegam para si algum aval divino ou sobrenatural, impõem invariavelmente condições e critérios muito claros de seleção, normas normalmente severas que determinam quem pode e quem não pode participar – sob pena ou temor de resvalarem na mais completa descaracterização. E como poderia ser diferente? Que grupo, que ideal e que sonho sobreviveriam a uma inclusividade sem restrições? O filósofo francês Jacques Derrida, furioso mas terníssimo promotor da desconstrução, enquanto refletia sobre problemas e perigos semelhantes concluiu que a verdadeira justiça só se manifesta numa hospitalidade pura, absolutamente sem limites. Immanuel Kant já havia avançado, em seu tratado sobre a Paz Perpétua (1795), a noção de “hospitalidade universal”, mas tratava-se de uma hospitalidade delimitada por claras restrições. Para o sensatíssimo Kant, uma nação só deveria oferecer hospitalidade sob duas condições: o estrangeiro deveria comportar-se pacificamente no país que estivesse visitando, e tinha o direito de visitar, mas não de permanecer. Para Derrida, a única verdadeira hospitalidade, ao contrário daquela exemplificada pela cautela de Kant, é absolutamente incondicional – é imponderada e irrestrita e inescapavelmente arriscada. Para Derrida, impor restrições para a hospitalidade é o mesmo que sonegá-la. Devemos estar dispostos a acolher um estranho mesmo que “ele seja o diabo”, mesmo que ele se mostre pronto “a destruir nossa casa”. O problema com a hospitalidade condicional, explica Derrida, é que ela não consegue estabelecer a paz, porque está fundamentada, em última instância, numa violência. Qualquer comportamento “inaceitável” do estranho será interpretado por nós como violência da parte dele e será corrigido com violência da nossa parte, mas isso apenas porque fomos nós que cometemos a violência de não aceitá-lo incondicionalmente em primeiro lugar. Quando impomos condições para a hospitalidade não estamos verdadeiramente abertos à outra pessoa e não nos confrontamos de fato com ela; o que fazemos nessa postura é anular a alteridade do outro, desfigurando-o e remoldando-o à nossa própria imagem. O problema com a hospitalidade pura, por outro lado, é que abrir mão de critérios de seleção e de mecanismos de controle não é coisa que seres humanos prefiram de fazer voluntariamente. Intuitivamente sabemos que abrir mão de controle é abrir mão do futuro – e isso comunidade nenhuma deseja fazer, porque seu sonho é a consagração e seu sustento a idéia de permanência. Uma comunidade radicalmente inclusiva é uma ameaça porque não há nela a ordem interna que garante seus próprios resultados e suas próprias premiações; sua ausência de limites nos impede, muito literalmente, de podermos prever onde ela vai parar. Para Derrida, a verdadeira hospitalidade deve representar uma abertura irrestrita a esse futuro desconhecido, um futuro sobre o qual nada pode ser determinado – a não ser que não será de forma alguma condicionado “pelos conceitos historicamente restritos de humanidade, de ética e de democracia debaixo dos quais trabalhamos atualmente”1. A hospitalidade radicalmente inclusiva produzirá, para usar a linguagem dos evangelhos, um reino sobre o qual só podemos falar através de comparações. Para adentrar o reino será preciso abrir mão daquilo que nos é mais caro – e deve estar evidente que o que valorizamos acima das possessões são os nossos critérios. Quem ousará arrepender-se/mudar de mentalidade, passando a ignorar as normas políticas, sociais, culturais, econômicas, sexuais e religiosas de relacionamento a fim de pisar o domínio desconhecido e arriscado de uma inclusividade radical? Quem irá se dispor a despojar-se de tudo que possui para adquirir a pérola que ninguém parece querer? Quem ousará adentrar voluntariamente o campo minado do Reino? Muito claramente, só será capaz de fazê-lo quem tiver sido devidamente seduzido pelo Não-condicionado, aquele que estiver inteiramente imbuído do seu espírito. Em seus dias na terra Jesus já havia trabalhado em todas as frentes para fazer avançar a noção de que as respostas de Deus, ao contrário das nossas, não são condicionadas. Sua santidade é singularidade de critérios, não distância espiritual. Deus, ao contrário de nós, derrama generosidade sobre justos e injustos. Deus come com pecadores e toca os impuros. Deus está trabalhando quando cremos que só é seguro descansar. Deus é amor, e as obrigações do amor só o que não é amor pode restringir. A narrativa de Atos vai revelando, passo a passo, as tremendas consequências e desafios associados a essas vertigens. Se Deus não é condicionado, nossa hospitalidade – nossa disposição à tolerância e à aceitação – também não deve ser. Se Deus não é condicionado, o futuro também não deve ser. Se Deus é amor, amar é prover expressões tangíveis e mensuráveis do incondicional2. E esses desafios veremos quem estará disposto a abraçar, e até onde.
Rastros dos apóstolos
20 de Fevereiro de 2010
Século XX não passou de uma elaborada farsa, explicam líderes mundiais reunidos em BernaGoiabas RoubadasNo que representa certamente a mais desconcertante fraude coletiva da história da humanidade, líderes mundiais reuniram-se esta manhã em Berna, na Suíça, para confessarem publicamente que o século XX (bem como aquilo que tem passado como a primeira década do século XXI) não passou de “uma elaborada farsa”. Embora os detalhes ainda estejam sendo revelados, o propósito da fraude parece ter sido distrair o público de diversas questões mundiais “reais” através de uma “realidade alternativa” que representasse diversão suficiente, enquanto os líderes se esforçavam para resolver essas questões. A data de hoje foi estabelecida e confirmada como sendo 20 de fevereiro de 1900. “Foi tudo absolutamente necessário”, disse um oficial ligado diretamente à fraude, que prefere permanecer anônimo. “Só acho que acabou saindo do controle”. Aparentemente em 1897 uma série de tensões geopolíticas, crises financeiras e chocantes escândalos relacionados a apostas desportivas abalaram de tal forma as bases do poder que foi considerado essencial distrair a atenção da massa pública através de um logro de proporções épicas. No início de 1898 Nikola Tesla e George Washington foram despachados para os pólos norte e sul para supervisionarem a construção de gigantescos eletromagnetos capazes de interferir no pensamento humano. Enquanto isso empresários de imprensa, editores e escritores ao redor do mundo foram recrutados, juntamente com um batalhão de hipnotizadores de palco, a fim de persuadirem o público a tomar como real um cenário cuidadosamente planejado (porém inteiramente fictício) de eventos paralelos. Essa “realidade”, nascida da pena conjunta de H. G. Wells e Júlio Verne, encheu a consciência coletiva com histórias de invenções fascinantes: um “aeroplano” movido a motor, uma carruagem “sem cavalos” (também conhecida por “automóvel”) e algo chamado “ShamWow“. A fim de prover um equilíbrio para essas maravilhas, os dois escritores engendraram tragédias diversas como a “Grande Depressão” e várias “Guerras Mundiais” que envolviam maquinário e armas inimagináveis, de modo a manter o público hesitando entre o deleite e o horror. “Era tudo para acontecer em tempo real”, explicou nossa fonte, “mas os caras se empolgaram tanto e a narrativa foi ficando tão densa que tivemos fazer com que parecesse que o tempo estava correndo mais devagar”. A façanha requereu o conluio coletivo dos fabricantes de relógios e calendários, que foram capazes de fazer com que os últimos 751 dias parecessem ter durado 112 anos. As repercussões da erradicação instantânea de tão significativa porção de “tempo” tem implicações tanto globais quanto individuais, a maior parte das quais permanecem ainda por descobrir. Várias minorias étnicas e religiosas, por exemplo, estão inseguras sobre se suas respectivas perseguições terminaram ou estão ainda por começar. Fortunas individuais também se alçaram e caíram. Típica é a história de um certo James “Jim” Cameron, de Malibu, Califórnia, que tendo até hoje vivido na crença de ser um “magnata do cinema”, lançou-se no mais inflamado acesso de raiva quando confrontado com a seguinte mensagem de seu verdadeiro empregador (Avery Briggs, do Haras de Santa Mônica): “Favor comparecer aos estábulos imediatamente, portando vassoura, sob pena de se ver substituído por sujeito mais jovem e agradável”. Nem todos, no entanto, estão se mostrando indignados ou confusos. Whitney Washburn, 67 anos, de Whittier, Califórnia, colocou as coisas da seguinte forma: “É como ver tirado um peso enorme das costas. Coisas inexplicáveis como TWITTER e a popularidade de Lucille Ball finalmente fazem sentido. E gravadores de fita cassete, sempre achei que fossem enganação”. O presidente Barack Obama, parecendo perplexo mas nitidamente aliviado, recebeu do presidente McKinley a informação de que os dois deverão se reunir ainda esta noite para discutir o futuro da nação. O ilustrador Will Finn em seu blog
Você está examinando
os arquivos dA Bacia das Almas estocados em Fevereiro 2010.
Rubricas
|