07 de Dezembro de 2009

Uma mesma flor

Investigado por   Paulo Brabo

 

Estocado em Manuscritos

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Justamente quando eu já me acreditava a salvo, pelo minar da mera familiaridade, da graça desarmante de Noite de Paz (melodia de esplendor tão puro que nem as versões de elevador conseguem por inteiro macular), atingiu-me no final do ano passado a poesia doce e sacrossanta de Astro del ciel, a versão italiana.

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Elisa Mutto, Astro del ciel

Eu cria que nenhuma alusão ou ponta solta restava para ser articulada na narrativa do Natal, mas veja, nesta versão l’astro del ciel (“o astro do céu”) não é apenas a estrela que a narrativa faz cintilar para guiar os magos, mas – reviravolta que, depois de tanto tempo cruzando esta mesma história, eu deveria ter antecipado – o próprio Jesus. O astro do céu, senhoras e senhores, é o Filho do Homem.

Bastou esta metáfora, devidamente introduzida pela melodia, para marejar-me os olhos. Mas o que atingiu-me como um sopro celeste e uma epifania, penetrou-me todas as defesas e leva-me ainda a banhar o rosto de lágrimas todas as vezes – absolutamente todas as vezes – que a ouço, é a poesia singelíssima da segunda estrofe, em que Jesus não é apenas o esplendor e a glória de uma linhagem real, mas uma virgínea, mística flor.

Um herói que é um astro, um cordeiro, um rei, um sol e uma flor – flor impronunciável, virginal, invisível, onipresente, silente, frágil e belíssima e tremenda; flor que qualquer um pode pisar e cujo perfume ameaça em todo lugar; a vertiginosa flor da Árvore da Vida, cujas folhas curam as nações e cuja imagem apenas nos sonhos nos é dado contemplar; a flor que tem o poder de converter todas as espadas e cuja preciosíssima essência é destilada, gota a gota, por cada ato isolado de generosidade e de coragem; a flor imensa, imaculada e terrível cujas pétalas simétricas são todas as lágrimas que já derramaram em todas as épocas todos os homens – inclusive as lágrimas daquele cujo Coração corresponde, incrivelmente, circularmente, à própria Flor.

E vejo-me de joelhos diante de um homem que nunca vi e de seu perfume, absolutamente convicto de que não será a última vez. Ele é belo e terrível, e cada oração que faço pelos outros ele exige que seja eu mesmo a responder; cada oração que faço por mim mesmo ele responde com um um sorriso, um silêncio e – no tremendo braço estendido, que poderia com absolutamente qualquer outro gesto me derrubar – uma mesma flor.

* * *

Astro del Ciel, pargol divin,
Mite agnello, Redentor,
Tu che i Vati da lungi sognar,
Tu che angeliche voci annunziar,
Luce dona alle genti,
Pace infondi nei cuor.

Astro del Ciel, pargol divin,
Mite agnello, Redentor,
Tu di stirpe regale decor,
Tu virgineo, mistico fior,
Luce dona alle genti,
Pace infondi nei cuor.

Astro del Ciel, pargol divin,
Mite agnello, Redentor,
Tu disceso a scontare l’error,
Tu sol nato a parlare d’amor,
Luce dona alle genti,
Pace infondi nei cuor.

* * *

Astro do céu, divino infante,
Manso cordeiro, Redentor
Tu, que de longe sonharam os profetas,
Tu, que coros de anjos vieram anunciar,
| Luz concede às nações
| Paz infunde nos corações

Astro do céu, divino infante,
Manso cordeiro, Redentor
Tu, esplendor de uma linhagem real,
Tu, virgínea, mística flor,
| Luz concede às nações
| Paz infunde nos corações

Astro do céu, divino infante,
Manso cordeiro, Redentor
Tu, que descestes para o pecado indenizar,
Tu, sol nascido para falar de amor,
| Luz concede às nações
| Paz infunde nos corações

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