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Todas as lendas, mitos e romances existem, num sentido muito amplo, para pontuar as complicações da condição mais comum e mais desconcertante de todas: o fato de que não somos – incrivelmente, terrivelmente, não somos – a outra pessoa.
O embaraço de não sermos o outro é, naturalmente, o gatilho que desperta o conflito em todas as narrativas; é este embaraço que despertará sem distinção o amor e a rivalidade, o companheirismo e o desprezo, o egoísmo e a generosidade.
O que há de particular nesta história é que nela o protagonista abraça deliberadamente essa perplexidade. Deus cria o homem porque quer assumir o risco de não ser o outro; porque quer viver num universo inconcebível em que a inteireza se fragmenta e é preciso viver continuamente, impiedosamente, debaixo do peso e da mercê de um próximo.
E Deus não tarda a deparar-se com a severidade dessas complicações. O paradoxo está em que, precisamente por causa desse seu projeto de despir-se em glória e submeter-se ao olhar do outro, a divindade se encontra (agora que a transgressão humana mostrou-se espelho invertido da sua) mais sozinha do que jamais esteve.
“O homem tornou-se um de nós, conhecendo o bem e o mal. O que deve agora ser evitado a todo custo é que ele estenda a mão também para a árvore da vida, e coma, e viva eternamente”.
Deus, que criara o ser humano porque queria conhecer a condição de não estar só para sempre, entende logo que o amor terá de levá-lo a abrir mão, neste estágio das coisas, desse privilégio. “O que deve agora ser evitado a todo custo é que o homem viva eternamente”. Ao contrário da leitura usual que fazemos deste trecho, não é a fim de esquivar-se da competição que Deus quer evitar que o homem viva para sempre. Não é para punir o ser humano que Deus trabalha para mantê-lo sem acesso à eternidade. Seu propósito, seu embaraçosamente terno propósito, é proteger o homem do terror existencial de que ele mesmo, Deus, não será poupado: o terror de conhecer o bem e o mal sem ser ainda capaz de amarrar um e soltar outro.
É o que enxergou com terrível clareza Elienai Cabral Júnior: a fim de nos poupar de perpertuarmos os ídolos que levantaremos na tentativa de nos curar dessa ambivalência essencial, Deus tem misericórdia de nós e nos mata.

Nasce um homem
- Era uma vez
- Adão era
- A teoria literária
- Para mim
- Se havia improvável graça
- O conflito que anima uma história
- A primeira blasfêmia
- Eu sentia ser minha obrigação
- Como demonstrado exemplarmente por Jesus
- De todos os detalhes
- A distinção mais antiga
- O homem em pé no centro
- Quando levantei-me do lugar
- Ele tinha o mundo natural aos seus pés
- Dois ou três personagens não bastam
- A proibição extrai seu poder
- Para caracterizar uma tragédia
- Pisei no andar térreo
- Você pode comer
- Um professor errante depara-se com um homem cego
- Nenhum outro elemento da trama
- Toda história sobre transgressão
- De todos os sonhos de que me recordo
- Não devemos deixar
- A chave, obviamente
- É curioso notar
- Para começar
- Neste ponto
- Com a entrada da serpente
- Dos enigmas da serpente
- Porém quando percebo
- A serpente é astuta
- A narrativa é límpida
- A serpente permanece um enigma
- Quando olho tempo suficiente
- O silêncio da história
- Outro resultado
- Individuação
- É o momento decisivo
- A ausência divina
- É uma pista falsa
- Não se trata
- Uma donzela encontra na floresta uma perigosa serpente
- A hora é agora
- Porque – e ignoro quantas vezes terei de voltar
- Alcançar a individuação
- Eva recua
- Deus sabe
- O motor do conflito
- A grande revelação
- Transgredir
- A obra da serpente
- Onde está a maldade
- O que me faz lembrar
- A transfiguração do conflito
- Que são a imitação e o jogo de espelhos
- O que esta história existe para mostrar
- É por isso
- É o último momento
- Quando volto à recordação
- O efeito imediato
- Como numa comédia de erros
- Minha primeira transgressão
- É só do lado de cá
- A esse princípio
- Não nos deverá
- A coisa boa
- Se o conflito é a graça
- A transgressão original
- Transgredir é escolher
- No espaço recém-aberto da minha transgressão
- Em si mesmo nada há de terrível
- O conceito teológico
- Bastaria a morte
- A ambivalência do poder
- A maldição do pó
- Há algo de terrível na autodeterminação
- Minha disciplina pessoal mais antiga
- Essa crueza
- Não é completa
- Essas histórias
- Na noite de ontem para hoje
- O outro símbolo universal
- A serpente é mentirosa
- O primeiro desdobramento
- Foi mais ou menos nessa época
- Todas as lendas
- Minha convicção




