Se o conflito é a graça paradoxal que dá forma à história, se a transgressão é o sopro que lhe infunde ânimo, então há embutida em toda história uma ambivalência essencial. Horrores grandes e inequívocos como a guerra são transtornados por pequenas lealdades e heroísmos que, se não os redimem, ao menos absolutamente desconcertam, porque são coisas boas que nascem de coisas ruins.
Mesmo histórias que perseguem com sucesso um final feliz não estão livres dessa contradição interna, porque também dependem, antes de se aquietarem no ponto final, de equívocos, de ameaças, de separações. Antes de ser premiado e justificado no fim, Jó ponderará incessantemente se os fins justificam os meios.
Essa ambivalência essencial da narrativa é pontuada formalmente pelo vocabulário de Gênesis, que esforça-se para explicar que o conhecimento do bem e do mal são simultâneos.
Não é – preste atenção – como se na bem-aventurança anterior à transgressão Adão e Eva tivessem conhecido apenas o bem; não é como se depois da queda lhes fosse acrescentado o conhecimento do mal. A árvore é desde a primeira menção estabelecida como “do conhecimento do bem-e-do-mal”. Ou seja, no momento primordial da transgressão o ser humano conhece ao mesmo o tempo, num único vislumbre terrível e singular, tanto um quanto o outro.
A lição, a atordoante lição, é que o bem não pode ser conhecido sem o conhecimento simultâneo e correspondente do mal. O próprio Deus não pode se dar ao luxo de viver num mundo inconcebível que abraça a percepção de um e vive na ignorância do outro (“o homem tornou-se como um de nós, conhecendo o bem e o mal”).
Na transgressão o homem depara-se simultaneamente com as maravilhas e terrores da autodeterminação, e entende pela primeira vez (pois o relógio já começou a correr) as implicações de tomar parte numa história que ainda não terminou. Entende que algo pode ser tentado para consertar o estrago que já foi feito, mas absolutamente tudo ainda pode dar errado.

Nasce um homem
- Era uma vez
- Adão era
- A teoria literária
- Para mim
- Se havia improvável graça
- O conflito que anima uma história
- A primeira blasfêmia
- Eu sentia ser minha obrigação
- Como demonstrado exemplarmente por Jesus
- De todos os detalhes
- A distinção mais antiga
- O homem em pé no centro
- Quando levantei-me do lugar
- Ele tinha o mundo natural aos seus pés
- Dois ou três personagens não bastam
- A proibição extrai seu poder
- Para caracterizar uma tragédia
- Pisei no andar térreo
- Você pode comer
- Um professor errante depara-se com um homem cego
- Nenhum outro elemento da trama
- Toda história sobre transgressão
- De todos os sonhos de que me recordo
- Não devemos deixar
- A chave, obviamente
- É curioso notar
- Para começar
- Neste ponto
- Com a entrada da serpente
- Dos enigmas da serpente
- Porém quando percebo
- A serpente é astuta
- A narrativa é límpida
- A serpente permanece um enigma
- Quando olho tempo suficiente
- O silêncio da história
- Outro resultado
- Individuação
- É o momento decisivo
- A ausência divina
- É uma pista falsa
- Não se trata
- Uma donzela encontra na floresta uma perigosa serpente
- A hora é agora
- Porque – e ignoro quantas vezes terei de voltar
- Alcançar a individuação
- Eva recua
- Deus sabe
- O motor do conflito
- A grande revelação
- Transgredir
- A obra da serpente
- Onde está a maldade
- O que me faz lembrar
- A transfiguração do conflito
- Que são a imitação e o jogo de espelhos
- O que esta história existe para mostrar
- É por isso
- É o último momento
- Quando volto à recordação
- O efeito imediato
- Como numa comédia de erros
- Minha primeira transgressão
- É só do lado de cá
- A esse princípio
- Não nos deverá
- A coisa boa
- Se o conflito é a graça
- A transgressão original
- Transgredir é escolher
- No espaço recém-aberto da minha transgressão
- Em si mesmo nada há de terrível
- O conceito teológico
- Bastaria a morte
- A ambivalência do poder
- A maldição do pó
- Há algo de terrível na autodeterminação
- Minha disciplina pessoal mais antiga
- Essa crueza
- Não é completa
- Essas histórias
- Na noite de ontem para hoje
- O outro símbolo universal
- A serpente é mentirosa
- O primeiro desdobramento
- Foi mais ou menos nessa época
- Todas as lendas
- Minha convicção

