22 de Maio de 2009

Se o conflito é a graça

Investigado por   Paulo Brabo

 

Estocado em Manuscritos

Se o conflito é a graça paradoxal que dá forma à história, se a transgressão é o sopro que lhe infunde ânimo, então há embutida em toda história uma ambivalência essencial. Horrores grandes e inequívocos como a guerra são transtornados por pequenas lealdades e heroísmos que, se não os redimem, ao menos absolutamente desconcertam, porque são coisas boas que nascem de coisas ruins.

Mesmo histórias que perseguem com sucesso um final feliz não estão livres dessa contradição interna, porque também dependem, antes de se aquietarem no ponto final, de equívocos, de ameaças, de separações. Antes de ser premiado e justificado no fim, Jó ponderará incessantemente se os fins justificam os meios.

Essa ambivalência essencial da narrativa é pontuada formalmente pelo vocabulário de Gênesis, que esforça-se para explicar que o conhecimento do bem e do mal são simultâneos.

Não é – preste atenção – como se na bem-aventurança anterior à transgressão Adão e Eva tivessem conhecido apenas o bem; não é como se depois da queda lhes fosse acrescentado o conhecimento do mal. A árvore é desde a primeira menção estabelecida como “do conhecimento do bem-e-do-mal”. Ou seja, no momento primordial da transgressão o ser humano conhece ao mesmo o tempo, num único vislumbre terrível e singular, tanto um quanto o outro.

A lição, a atordoante lição, é que o bem não pode ser conhecido sem o conhecimento simultâneo e correspondente do mal. O próprio Deus não pode se dar ao luxo de viver num mundo inconcebível que abraça a percepção de um e vive na ignorância do outro (“o homem tornou-se como um de nós, conhecendo o bem e o mal”).

Na transgressão o homem depara-se simultaneamente com as maravilhas e terrores da autodeterminação, e entende pela primeira vez (pois o relógio já começou a correr) as implicações de tomar parte numa história que ainda não terminou. Entende que algo pode ser tentado para consertar o estrago que já foi feito, mas absolutamente tudo ainda pode dar errado.

Nasce um homem

  1. Era uma vez
  2. Adão era
  3. A teoria literária
  4. Para mim
  5. Se havia improvável graça
  6. O conflito que anima uma história
  7. A primeira blasfêmia
  8. Eu sentia ser minha obrigação
  9. Como demonstrado exemplarmente por Jesus
  10. De todos os detalhes
  11. A distinção mais antiga
  12. O homem em pé no centro
  13. Quando levantei-me do lugar
  14. Ele tinha o mundo natural aos seus pés
  15. Dois ou três personagens não bastam
  16. A proibição extrai seu poder
  17. Para caracterizar uma tragédia
  18. Pisei no andar térreo
  19. Você pode comer
  20. Um professor errante depara-se com um homem cego
  21. Nenhum outro elemento da trama
  22. Toda história sobre transgressão
  23. De todos os sonhos de que me recordo
  24. Não devemos deixar
  25. A chave, obviamente
  26. É curioso notar
  27. Para começar
  28. Neste ponto
  29. Com a entrada da serpente
  30. Dos enigmas da serpente
  31. Porém quando percebo
  32. A serpente é astuta
  33. A narrativa é límpida
  34. A serpente permanece um enigma
  35. Quando olho tempo suficiente
  36. O silêncio da história
  37. Outro resultado
  38. Individuação
  39. É o momento decisivo
  40. A ausência divina
  41. É uma pista falsa
  42. Não se trata
  43. Uma donzela encontra na floresta uma perigosa serpente
  44. A hora é agora
  45. Porque – e ignoro quantas vezes terei de voltar
  46. Alcançar a individuação
  47. Eva recua
  48. Deus sabe
  49. O motor do conflito
  50. A grande revelação
  51. Transgredir
  52. A obra da serpente
  53. Onde está a maldade
  54. O que me faz lembrar
  55. A transfiguração do conflito
  56. Que são a imitação e o jogo de espelhos
  57. O que esta história existe para mostrar
  58. É por isso
  59. É o último momento
  60. Quando volto à recordação
  61. O efeito imediato
  62. Como numa comédia de erros
  63. Minha primeira transgressão
  64. É só do lado de cá
  65. A esse princípio
  66. Não nos deverá
  67. A coisa boa
  68. Se o conflito é a graça
  69. A transgressão original
  70. Transgredir é escolher
  71. No espaço recém-aberto da minha transgressão
  72. Em si mesmo nada há de terrível
  73. O conceito teológico
  74. Bastaria a morte
  75. A ambivalência do poder
  76. A maldição do pó
  77. Há algo de terrível na autodeterminação
  78. Minha disciplina pessoal mais antiga
  79. Essa crueza
  80. Não é completa
  81. Essas histórias
  82. Na noite de ontem para hoje
  83. O outro símbolo universal
  84. A serpente é mentirosa
  85. O primeiro desdobramento
  86. Foi mais ou menos nessa época
  87. Todas as lendas
  88. Minha convicção


Inquisição


Arquivos


Versões digitais dos manuscritos da Biblioteca do Monastério de São Brabo, nas Índias Ocidentais.
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