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Onde está a maldade da serpente, se tudo que ela tem apresentar ao homem diante da inevitável transgressão é a verdade? Se a serpente não se rebaixa a acenar com nenhuma promessa falsa, porque a tradição fará com que Jesus acuse-a de mentirosa por excelência? Se ninguém morre, porque Jesus legislará que ela é assassina “desde o princípio”?
Para encontrar uma resposta satisfatória será preciso aguardar a entrada em cena do próprio Jesus. Neste meio tempo, se examinarmos a própria narrativa com o devido distanciamento poderemos encontrar indicações importantes.
Para retraçar o trajeto tortuoso da serpente será preciso enfatizar a absoluta neutralidade moral da interdição original – e se retorno com tanta frequência a este ponto é porque estamos tão formidavelmente habituados a pensar o contrário.
“Não coma desta árvore, caso contrário vai morrer”. A interdição original é menos moral do que mecânica: não faça A, caso contrário B será inevitável. É menos uma proibição – e é certamente menos um mandamento – do que um aviso. Transgredir pode se mostrar tremendamente imprudente, mas não é, em qualquer sentido, errado.
Daqui a alguns minutos, quando o homem já tiver transgredido, mas antes de ter apontado a participação da serpente no caminho da transgressão, é preciso ouvir com atenção aquilo que Deus não dirá. Significativamente, Deus não perguntará “Adão, porque você me traiu?” ou “porque me desobedeceu?” ou “porque pecou?”. Tudo que ele irá ressaltar é a natureza mecânica da transgressão: “você comeu da árvore que eu mandei que não comesse?” Você fez A, que eu disse para não fazer? Para o próprio Deus, a transgressão é mero interruptor que não deveria ter sido acionado: não implica em traição, não implica em desobediência e não implica em pecado. Em termos narrativos, poderia ter ocasionado a Queda e a Morte, mas não precisaria ter ocasionado o pecado.
Acontece que no intervalo entre a proibição e a transgressão a narrativa acolheu um novo personagem, e deverá tolerar estoicamente a sua intervenção. No intervalo entre a proibição e a transgressão o novo personagem injetará no conflito o seu veneno: isto é, no meio do caminho havia uma serpente. Seu papel não é fazer a história avançar (o que teria acontecido fatalmente sem ele), mas imprimir à narrativa um novo matiz teológico – ou, para ser mais preciso, antropológico.
Quando transmite ao homem a proibição, Deus fala do alto de sua exaltada e bem-intencionada posição; a serpente, porém, falará ao homem a partir do seu próprio nível, diretamente nos seus ouvidos. Não é de modo algum por acaso que seja assim. Se toda a bondade que há no homem é divina, toda a maldade que há na serpente é humana.
Nasce um homem
- Era uma vez
- Adão era
- A teoria literária
- Para mim
- Se havia improvável graça
- O conflito que anima uma história
- A primeira blasfêmia
- Eu sentia ser minha obrigação
- Como demonstrado exemplarmente por Jesus
- De todos os detalhes
- A distinção mais antiga
- O homem em pé no centro
- Quando levantei-me do lugar
- Ele tinha o mundo natural aos seus pés
- Dois ou três personagens não bastam
- A proibição extrai seu poder
- Para caracterizar uma tragédia
- Pisei no andar térreo
- Você pode comer
- Um professor errante depara-se com um homem cego
- Nenhum outro elemento da trama
- Toda história sobre transgressão
- De todos os sonhos de que me recordo
- Não devemos deixar
- A chave, obviamente
- É curioso notar
- Para começar
- Neste ponto
- Com a entrada da serpente
- Dos enigmas da serpente
- Porém quando percebo
- A serpente é astuta
- A narrativa é límpida
- A serpente permanece um enigma
- Quando olho tempo suficiente
- O silêncio da história
- Outro resultado
- Individuação
- É o momento decisivo
- A ausência divina
- É uma pista falsa
- Não se trata
- Uma donzela encontra na floresta uma perigosa serpente
- A hora é agora
- Porque – e ignoro quantas vezes terei de voltar
- Alcançar a individuação
- Eva recua
- Deus sabe
- O motor do conflito
- A grande revelação
- Transgredir
- A obra da serpente
- Onde está a maldade
- O que me faz lembrar
- A transfiguração do conflito
- Que são a imitação e o jogo de espelhos
- O que esta história existe para mostrar
- É por isso
- É o último momento
- Quando volto à recordação
- O efeito imediato
- Como numa comédia de erros
- Minha primeira transgressão
- É só do lado de cá
- A esse princípio
- Não nos deverá
- A coisa boa
- Se o conflito é a graça
- A transgressão original
- Transgredir é escolher
- No espaço recém-aberto da minha transgressão
- Em si mesmo nada há de terrível
- O conceito teológico
- Bastaria a morte
- A ambivalência do poder
- A maldição do pó
- Há algo de terrível na autodeterminação
- Minha disciplina pessoal mais antiga
- Essa crueza
- Não é completa
- Essas histórias
- Na noite de ontem para hoje
- O outro símbolo universal
- A serpente é mentirosa
- O primeiro desdobramento
- Foi mais ou menos nessa época
- Todas as lendas
- Minha convicção




