30 de Janeiro de 2009

Onde está a maldade

Depositado em juízo por   Paulo Brabo

 

Estocado em Manuscritos

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Onde está a maldade da serpente, se tudo que ela tem apresentar ao homem diante da inevitável transgressão é a verdade? Se a serpente não se rebaixa a acenar com nenhuma promessa falsa, porque a tradição fará com que Jesus acuse-a de mentirosa por excelência? Se ninguém morre, porque Jesus legislará que ela é assassina “desde o princípio”?

Para encontrar uma resposta satisfatória será preciso aguardar a entrada em cena do próprio Jesus. Neste meio tempo, se examinarmos a própria narrativa com o devido distanciamento poderemos encontrar indicações importantes.

Para retraçar o trajeto tortuoso da serpente será preciso enfatizar a absoluta neutralidade moral da interdição original – e se retorno com tanta frequência a este ponto é porque estamos tão formidavelmente habituados a pensar o contrário.

“Não coma desta árvore, caso contrário vai morrer”. A interdição original é menos moral do que mecânica: não faça A, caso contrário B será inevitável. É menos uma proibição – e é certamente menos um mandamento – do que um aviso. Transgredir pode se mostrar tremendamente imprudente, mas não é, em qualquer sentido, errado.

Daqui a alguns minutos, quando o homem já tiver transgredido, mas antes de ter apontado a participação da serpente no caminho da transgressão, é preciso ouvir com atenção aquilo que Deus não dirá. Significativamente, Deus não perguntará “Adão, porque você me traiu?” ou “porque me desobedeceu?” ou “porque pecou?”. Tudo que ele irá ressaltar é a natureza mecânica da transgressão: “você comeu da árvore que eu mandei que não comesse?” Você fez A, que eu disse para não fazer? Para o próprio Deus, a transgressão é mero interruptor que não deveria ter sido acionado: não implica em traição, não implica em desobediência e não implica em pecado. Em termos narrativos, poderia ter ocasionado a Queda e a Morte, mas não precisaria ter ocasionado o pecado.

Acontece que no intervalo entre a proibição e a transgressão a narrativa acolheu um novo personagem, e deverá tolerar estoicamente a sua intervenção. No intervalo entre a proibição e a transgressão o novo personagem injetará no conflito o seu veneno: isto é, no meio do caminho havia uma serpente. Seu papel não é fazer a história avançar (o que teria acontecido fatalmente sem ele), mas imprimir à narrativa um novo matiz teológico – ou, para ser mais preciso, antropológico.

Quando transmite ao homem a proibição, Deus fala do alto de sua exaltada e bem-intencionada posição; a serpente, porém, falará ao homem a partir do seu próprio nível, diretamente nos seus ouvidos. Não é de modo algum por acaso que seja assim. Se toda a bondade que há no homem é divina, toda a maldade que há na serpente é humana.

Nasce um homem

  1. Era uma vez
  2. Adão era
  3. A teoria literária
  4. Para mim
  5. Se havia improvável graça
  6. O conflito que anima uma história
  7. A primeira blasfêmia
  8. Eu sentia ser minha obrigação
  9. Como demonstrado exemplarmente por Jesus
  10. De todos os detalhes
  11. A distinção mais antiga
  12. O homem em pé no centro
  13. Quando levantei-me do lugar
  14. Ele tinha o mundo natural aos seus pés
  15. Dois ou três personagens não bastam
  16. A proibição extrai seu poder
  17. Para caracterizar uma tragédia
  18. Pisei no andar térreo
  19. Você pode comer
  20. Um professor errante depara-se com um homem cego
  21. Nenhum outro elemento da trama
  22. Toda história sobre transgressão
  23. De todos os sonhos de que me recordo
  24. Não devemos deixar
  25. A chave, obviamente
  26. É curioso notar
  27. Para começar
  28. Neste ponto
  29. Com a entrada da serpente
  30. Dos enigmas da serpente
  31. Porém quando percebo
  32. A serpente é astuta
  33. A narrativa é límpida
  34. A serpente permanece um enigma
  35. Quando olho tempo suficiente
  36. O silêncio da história
  37. Outro resultado
  38. Individuação
  39. É o momento decisivo
  40. A ausência divina
  41. É uma pista falsa
  42. Não se trata
  43. Uma donzela encontra na floresta uma perigosa serpente
  44. A hora é agora
  45. Porque – e ignoro quantas vezes terei de voltar
  46. Alcançar a individuação
  47. Eva recua
  48. Deus sabe
  49. O motor do conflito
  50. A grande revelação
  51. Transgredir
  52. A obra da serpente
  53. Onde está a maldade
  54. O que me faz lembrar
  55. A transfiguração do conflito
  56. Que são a imitação e o jogo de espelhos
  57. O que esta história existe para mostrar
  58. É por isso
  59. É o último momento
  60. Quando volto à recordação
  61. O efeito imediato
  62. Como numa comédia de erros
  63. Minha primeira transgressão
  64. É só do lado de cá
  65. A esse princípio
  66. Não nos deverá
  67. A coisa boa
  68. Se o conflito é a graça
  69. A transgressão original
  70. Transgredir é escolher
  71. No espaço recém-aberto da minha transgressão
  72. Em si mesmo nada há de terrível
  73. O conceito teológico
  74. Bastaria a morte
  75. A ambivalência do poder
  76. A maldição do pó
  77. Há algo de terrível na autodeterminação
  78. Minha disciplina pessoal mais antiga
  79. Essa crueza
  80. Não é completa
  81. Essas histórias
  82. Na noite de ontem para hoje
  83. O outro símbolo universal
  84. A serpente é mentirosa
  85. O primeiro desdobramento
  86. Foi mais ou menos nessa época
  87. Todas as lendas
  88. Minha convicção


Inquisição


Arquivos


Versões digitais dos manuscritos da Biblioteca do Monastério de São Brabo, nas Índias Ocidentais.
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