Os passos no corredor retornaram ou se avolumaram, e decidi que desta vez tinham parado logo diante da porta do quarto.
Descrever o homem que entrou a seguir pelo quarto adentro, adejando com sua capa e derramando pesadas penugens negras no chão por onde andava, gritando com uma voz de corvo de desenho animado, pisando com as botas sujas a imaculada cama, gesticulando ameaçadoramente, quase jocosamente, com as mãos erguidas como garras — descrevê-lo é tarefa para um pálido e grego poeta que não nasceu, e se nascido, sua musa desceria para o Hades para fugir à tarefa amarga de inspirá-lo. Para usar uma palavra antiga, o homem era extraordinário.
Entrou no quarto já falando, e não sei se entendi as primeiras coisas que disse. Pulou em cima da cama, abriu os braços e deixou a capa ondular pelas paredes na sombra da lâmpada.
— Ah, ah, a alegria do emissário que encontra o seu destino. Ah, a satisfação! O êxtase!
Usava um chapéu preto e brilhante, e da testa pendia um bico plástico de águia, recurvado e preto, que guarnecia-lhe o rosto e vinha roçar-lhe a boca.
— Dize-me, homenzinho, responde-me. Respira fundo e prepara-te. Se sabes que não conhecerás o nome do assassino até as últimas páginas, por que lês o romance policial? Se sabes que é só no final que se conhecerá claramente o desfecho, por que assistes inteiro ao filme? Por que razão não adiantas o andamento, lendo as últimas páginas, ou apertas aquele ligeiro botãozinho até que a vertigem das imagens te conduzam ao final? Melhor não seria evitar as agruras destes meios, pular a inconsistência dos pobres recheios e saborear o fim? Se sabes que a história não te satisfará, por que a prolongas?
— Não é assim também a vida? Que é a tua vida fragilíssima, cara criança, senão um livro, um pobre livro e uma pobre história que algum infeliz se dispôs a ler? Mas o que haverá em minha vida, perguntarás, que interesse a alguém, que a torne digna de ser sonhada, escrita, publicada e lida? Que improvável trajeto! Nada me acontece, dirás, nada que pague a pena conhecer! Mas respondo com outra pergunta: que há em qualquer livro que interesse alguém a ler? Nada que a nossa pobre vida não preencha e transborde muitas vezes. A vida é, portanto, um livro que ninguém se dispôs a ler. Pobre e falível projeto, a minha vida e a tua! Não sabem todos que um livro se limita ao fim, que mil páginas se resumem a um único argumento de duas linhas, e não o lêem todos? Por que não saltar para o devido fim, perguntarás.
Espalmou junto de meu rosto as duas mãos pintadas de branco.
— Este, digamos, é o livro da tua vida. O livro dos teus feitos, dos teus pensamentos, de tuas vergonhas, de teu tédio. Aqui está escrita em prosa não muito boa a tua história também não tão boa assim. Queres lê-lo? Que queres saber? Quantos trabalhos e perigos e dores terás de atravessar, quantas mulheres irás beijar, quantas feridas irás coçar, quantos cartazes irás ler; queres saber essas coisas? Não, eu o sei. Só há um página que queres conhecer, a última. Humm, prepara-te! Já não a conheces? Já não sabes que a última palavra de todos os livros de todas as vidas são a mesma palavra e que esta palavra é morte? Se o sabes, então por que lês o livro desta vida? Por que não saltas para o invejado fim? Por que viajar a tanto custo a viagem inteira, se a viagem mais curta chega ao mesmo lugar, por um preço menor?
Juntou ruidosamente as mãos, como quem bate palmas. Depois afastou-se com um salto e apontou para a escuridão que se via pela janela. Olhou-me com olhos loucos, solenes.
— Empreenderias esta viagem se já soubesses aquilo que irias encontrar? Se ao final de teus trabalhos, de tuas buscas árduas por estes pós e por pântanos, se após todo o trabalho que terás procurando significados e ferramentas, que sejam talvez a mesma coisa; se eu te disser que ao final de tudo isto encontrarás não outro mas apenas a mim, teu Prólogo? Farias isto? Empreenderias ainda a viagem, conhecendo o final, e um final tão pobre? Sabe então que onde estiveres, lá terei estado primeiro, e tudo quanto fizeres assistirei e já saberei de antemão. As fontes que tocares já terei bebido, os corpos que abraçares terão o meu calor e as estradas e o sol refletirão o meu pó. Verás os sutis sinais que eu te deixar, e tu e somente tu compreenderás a cada momento o que desde o princípio soubeste: que ao final da jornada encontrarás apenas a mim, que perseguiste e seguiste por rios e vales. Nenhum novo significado, nenhuma surpresa, apenas a mim.
— Estás sozinho em Aijdiziet Ghouz, meu bonfly: terra de conhecimento e de força, ao que dizem. Somente mais uma coisa te digo, e dou-te este punhal, visto que as longas histórias se afinam com armas curtas. A vida de um homem é juntar sabedoria, e aquele que ajuntar todo o conhecimento morrerá por esta razão. Mas pela mesma razão qualquer homem que morre é infinitamente sábio, e com menos trabalho. Escolhe tu o melhor caminho, mas sabe que ambos passarão pelo mesmo fio cortante deste punhal. Sairás ferido em qualquer caso. Escolhe o que te for mais caro ou mais profundo.
Abracei com as mãos a fria arma que me estendeu. Olhou-me com olhos austeros e vertiginosamente azuis; fitou-me com tanta intensidade, com teatralidade, que pressenti que ele esperava que eu memorizasse aqueles olhos. Assegurava-se, estou certo, que eu seria capaz de reconhecê-los mais tarde, nalguma outra ocasião. Deu um passo para trás.
— Agora esquecerás de mim, de minha frágil figura e de tudo o que te disse. Esquecerás de tudo, e não mais nos veremos, até o previsível final. Bonfly!
Disse essas palavras e sem interrupção abriu a janela e saltou para o escuro telhado e para uma das ruelas que mal se entreviam dali de cima.
Escondi o punhal junto à pele quente sob a camisa, e vi que a porta se abria para mais alguém.

Um menino de dez anos, que acaba de acordar sozinho num quarto que não sabe reconhecer, recebe a visita de um estranho emissário no segundo capítulo de um romance que nunca concluí, mas no qual trabalhei incessantemente entre os quatorze e os dezenove anos de idade.




