Para entender adequadamente a resposta de Pedro e suas implicações é requisito entender quem está fazendo a Pergunta Exemplar.
Os peregrinos de Pentecostes eram romeiros que tinham se arrebanhado dos pontos mais distantes do país e do Império (“partos, medos, e elamitas; os que habitamos a Mesopotâmia, a Judéia e a Capadócia, o Ponto e a Ásia, a Frígia e a Panfília, o Egito e as partes da Líbia próximas a Cirene [...], cretenses e árabes”) a fim de celebrar Shavuot, uma das três festas para as quais os judeus deviam peregrinar de onde estivessem a fim de adorar no Templo em Jerusalém.
Das três, Shavuot (Festa das Semanas ou Festa das Primícias, conhecida em grego como Pentecostes) era em geral considerada a mais importante. Na Páscoa os judeus comemoravam a libertação do cativeiro egípcio e na Festa das Cabanas lembravam a peregrinação no deserto, mas Shavuot era o aniversário da entrega da própria Torá no monte Sinai. Os judeus eram gratos pela libertação e não esqueciam os dias do deserto, mas não ignoravam que era a Torá o grande presente divino, a dádiva sem preço que lhes concedera um propósito e uma identidade. A entrega da Torá é que os tornara povo de Deus, e Shavuot era o momento de continuamente celebrá-lo.
“Estavam naquela ocasião residindo em Jerusalém judeus, homens piedosos, de todas as nações que há debaixo do céu”. O que essa descrição cuidadosa das circunstâncias quer deixar muito claro é que os ouvintes de Pedro eram homens separados por diferentes origens geográfica e étnicas; estavam separados pelos diferentes idiomas que falavam e pelas diferentes culturas em que estavam inseridos, mas permaneciam unidos numa coisa: eram todos devotos da fé judaica – “tanto judeus de nascimento quanto convertidos”.
Essa multidão de romeiros dirigiu-se a Pedro e aos demais discípulos chamando-os de “irmãos”; isto é, os que pediam orientação consideravam-se judeus falando com judeus, e Pedro nada fez para corrigi-los.
Naquela manhã todos que testemunharam as vozes do vento do espírito, todos que se amontoaram para ouvir na multidão as palavras de Pedro, eram judeus no sentido étnico ou religioso, judeus de nascimento ou por conversão. Foram judeus que fizeram a pergunta “o que devemos fazer?”, e como judeus interpretaram a resposta.
E da mesma forma que será preciso apreender, nos capítulos seguintes, que a bagagem que traziam os ouvintes de Pedro determinaria sua interpretação da resposta dele, será necessário reconhecer que nossa própria bagagem determina nossa leitura do que está acontecendo. Porque, do nosso ponto de vista, o que está acontecendo aqui é uma conversão. Uma conversão em massa, por certo, mas uma conversão – a primeira de uma série que se estenderá, esperamos, até os nossos dias.
E neste ponto deve nos guiar não o que Pedro diz em sua resposta, e cujo conteúdo talvez não saibamos ainda decifrar, mas a absoluta clareza que reside no que ele não diz.
Pedro está falando a religiosos judeus, e não pede que abandonem a sua religião ancestral.
Está falando a religiosos judeus, e não pede que abracem uma nova e formidável religião, mais abrangente, mais generosa e mais acurada.
Está falando a religiosos judeus, e não pede que abandonem os grandes e pequenos procedimentos rituais da sua fé: a circuncisão, o sábado, os sacrifícios, as regras de pureza.
Está falando a religiosos judeus, e não pede que alterem sua relação com os ramos internos do judaísmo – a ala dos saduceus, a ala dos fariseus e as diferentes escolas rabínicas.
O que ele efetivamente pede é que se “arrependam” e “sejam batizados” (e, logo adiante, que “salvem-se dessa geração perversa”).
Mas será preciso ser judeu para entender o que ele quer dizer com isso.

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