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Não é completa a assepsia mítica da narrativa das origens em Gênesis. Se por um lado o texto se esforça para assertar a suficiência e a solidão divinas, o próprio Deus introduz no enredo dois elementos narrativos arquetípicos que povoam e calibram os mitos e lendas de outras tradições, e por isso adentram a história carregando o seu próprio peso.
Aqui está, em primeiro lugar, a Serpente Primal, emblema de perigo, ambiguidade e sagacidade, modelo de tudo que é fluido, insidioso e fugidio – e portanto ícone suficiente da alma humana.
A serpente é a matriz de ouruboros, a cobra que morde a própria cauda – símbolo que pode representar tanto a assimilação e reinvenção do lado sombrio do eu quanto aqueles processos e comportamentos repetitivos que se retroalimentam e conduzem à estagnação, círculo vicioso que a psicologia analítica procura interromper através de intervenções pontuais.
A serpente é por natureza ambivalente: mente quando fala verdade e fala a verdade quando mente. Ela é a Sombra que espreita nos recessos da psiquê – sombra que por um lado representa um aspecto essencial do que somos, por outro promove aquelas fantasias recursivas que (para deixar claro que estou citando Joseph Campbell) impedem o espírito humano de avançar.
Nas lendas e contos de fadas a serpente é o dragão que guarda o tesouro. Ela aguarda pacientemente ali para marcar que não é possível chegar até o tesouro sem passar pela serpente – isto, não é possível encontrar a individuação sem encenar eficazmente a morte e a superação do ego.
Na tradição bíblica, espelho ainda mais desiludido e acurado da realidade, o dragão não podem nem ao menos ser morto. A serpente pode ser pisada pelo homem e o dragão pode ser precipitado do céu por Deus, mas seu último destino não é a morte: o lado sombrio do homem não pode ser eliminado sem que o próprio homem seja eliminado no processo.
No dia da individuação a serpente será lançada no lago de fogo, onde continuará a existir sem poder fazer mais mal a ninguém. Mergulhar a serpente no lago de fogo pode ser o emblema bíblico para o processo oposto: trazer à tona os processos e maquinações do inconsciente, de modo a deixar de ser conduzido por suas armadilhas.

Nasce um homem
- Era uma vez
- Adão era
- A teoria literária
- Para mim
- Se havia improvável graça
- O conflito que anima uma história
- A primeira blasfêmia
- Eu sentia ser minha obrigação
- Como demonstrado exemplarmente por Jesus
- De todos os detalhes
- A distinção mais antiga
- O homem em pé no centro
- Quando levantei-me do lugar
- Ele tinha o mundo natural aos seus pés
- Dois ou três personagens não bastam
- A proibição extrai seu poder
- Para caracterizar uma tragédia
- Pisei no andar térreo
- Você pode comer
- Um professor errante depara-se com um homem cego
- Nenhum outro elemento da trama
- Toda história sobre transgressão
- De todos os sonhos de que me recordo
- Não devemos deixar
- A chave, obviamente
- É curioso notar
- Para começar
- Neste ponto
- Com a entrada da serpente
- Dos enigmas da serpente
- Porém quando percebo
- A serpente é astuta
- A narrativa é límpida
- A serpente permanece um enigma
- Quando olho tempo suficiente
- O silêncio da história
- Outro resultado
- Individuação
- É o momento decisivo
- A ausência divina
- É uma pista falsa
- Não se trata
- Uma donzela encontra na floresta uma perigosa serpente
- A hora é agora
- Porque – e ignoro quantas vezes terei de voltar
- Alcançar a individuação
- Eva recua
- Deus sabe
- O motor do conflito
- A grande revelação
- Transgredir
- A obra da serpente
- Onde está a maldade
- O que me faz lembrar
- A transfiguração do conflito
- Que são a imitação e o jogo de espelhos
- O que esta história existe para mostrar
- É por isso
- É o último momento
- Quando volto à recordação
- O efeito imediato
- Como numa comédia de erros
- Minha primeira transgressão
- É só do lado de cá
- A esse princípio
- Não nos deverá
- A coisa boa
- Se o conflito é a graça
- A transgressão original
- Transgredir é escolher
- No espaço recém-aberto da minha transgressão
- Em si mesmo nada há de terrível
- O conceito teológico
- Bastaria a morte
- A ambivalência do poder
- A maldição do pó
- Há algo de terrível na autodeterminação
- Minha disciplina pessoal mais antiga
- Essa crueza
- Não é completa
- Essas histórias
- Na noite de ontem para hoje
- O outro símbolo universal
- A serpente é mentirosa
- O primeiro desdobramento
- Foi mais ou menos nessa época
- Todas as lendas
- Minha convicção




