04 de Setembro de 2009

Na noite de ontem para hoje

Entregue em consignação por   Paulo Brabo

 

Estocado em Sonhos

82

Na noite de ontem para hoje, embora tivesse planejado acordar e escrever outra coisa para colocar neste espaço, sonhei que estava participando da gravação de uma novela de televisão. Eu fazia um extra ou personagem secundário, e por alguma razão (como na sequência climática de Tootsie) aquele capítulo da novela, que representava um baile de gala ou uma festa, estava sendo transmitido ao vivo.

Alguns segundos dentro daquela situação e senti-me compelido a aproveitar-me de que a cena era ao vivo e denunciar diante das câmeras – ignoro se por diversão, iconoclastia ou para alertar atores e espectadores, que poderiam ter-se esquecido de algum nível superior de realidade – de que aquilo era uma novela, e não a vida real que se propunha a representar.«Mas uma novela se passa dentro da televisão.» De alguma forma eu permanecia convencido, mesmo no sonho, de que a fim de elucidar a realidade fazia sempre sentido recorrer à metalinguagem – uma linguagem usada para se fazer referência às declarações de outra linguagem.

Avancei até o casal principal, que caminhava entre pares a três passos das câmeras, e disse bruscamente alguma coisa inequívoca sobre o fato de que tudo ao nosso redor não passava de cenário, e éramos todos ali atores gravando uma cena de novela.

– Mas uma novela se passa dentro da televisão – sorriu o protagonista, tentando esquivar-se do embaraço – e nós estamos aqui na vida real.

– Engano seu – eu disse, e caminhei até uma das câmeras. Toquei com a ponta dos dedos a lente – Nós estamos dentro da televisão. Estão nos vendo aqui dentro, pessoal?

E enquanto fazia isso imaginava os espectadores me vendo falando diretamente com eles, ao mesmo tempo salvos da farsa e indignados comigo porque tinham participado voluntariamente dela.

Acordei sobressaltado, porque intuíra que aquela era uma denúncia que podia ser feita em absolutamente todos os níveis de linguagem. A comunicação é consistentemente uma farsa; nenhuma denúncia é clara, pelo que nenhuma denúncia é suficiente.

Ali mesmo, no suor da cama, eu era por antecipação prisioneiro da metalinguagem. Assim que articulasse a memória do meu sonho, estaria acrescentando a ela uma camada não-intencional de artificialidade. Quando colocasse o sonho por escrito (como estou fazendo agora) deitaria sobre ele uma camada adicional de ruído. Camadas adicionais de imprecisão seriam acrescidas a esse material quando ele fosse lido, interpretado e transmitido aos outros, e assim até o infinito.

As tentativas que fazemos de esclarecer nosso conteúdo terminam por obscurecê-lo, e os esforços que empreendemos para representar com mais clareza a realidade acabam trabalhando para falsificá-la.

À salvo de todas as denúncias, o que há de mais real nisso tudo é a história inventada (de que não me lembro) que representavam os atores sem carne na novela do meu sonho e acompanhavam seus espectadores inexistentes; todo resto é inconsequente e intransmissível.

Minha tentativa de denunciar a fantasia não foi capaz de esconder que as palavras que escolhi para denunciá-la são fantasia ainda maior. A lenda é mais verdadeira do que o jornal, a narração desbanca a teologia, a metafísica vence a ciência. Porém, em termos estritos, somente a verdade à salvo da linguagem é – ou seria, se existisse – a verdade.

Somos, muito evidentemente, prisioneiros de carne no cárcere da linguagem. Esta redoma nos limita e classifica pelo menos tanto quanto aos atores encarcerados no vidro da televisão. Daqui de dentro, na cela solitária das palavras, somos como os que procuram ser entendidos enquanto berram e gesticulam do outro lado de uma janela à prova de som. Os outros podem ver que estamos falando, mas não podem absolutamente entender o que estamos dizendo.

E chorei, porque não havia ninguém capaz de abrir este livro.

Nasce um homem

  1. Era uma vez
  2. Adão era
  3. A teoria literária
  4. Para mim
  5. Se havia improvável graça
  6. O conflito que anima uma história
  7. A primeira blasfêmia
  8. Eu sentia ser minha obrigação
  9. Como demonstrado exemplarmente por Jesus
  10. De todos os detalhes
  11. A distinção mais antiga
  12. O homem em pé no centro
  13. Quando levantei-me do lugar
  14. Ele tinha o mundo natural aos seus pés
  15. Dois ou três personagens não bastam
  16. A proibição extrai seu poder
  17. Para caracterizar uma tragédia
  18. Pisei no andar térreo
  19. Você pode comer
  20. Um professor errante depara-se com um homem cego
  21. Nenhum outro elemento da trama
  22. Toda história sobre transgressão
  23. De todos os sonhos de que me recordo
  24. Não devemos deixar
  25. A chave, obviamente
  26. É curioso notar
  27. Para começar
  28. Neste ponto
  29. Com a entrada da serpente
  30. Dos enigmas da serpente
  31. Porém quando percebo
  32. A serpente é astuta
  33. A narrativa é límpida
  34. A serpente permanece um enigma
  35. Quando olho tempo suficiente
  36. O silêncio da história
  37. Outro resultado
  38. Individuação
  39. É o momento decisivo
  40. A ausência divina
  41. É uma pista falsa
  42. Não se trata
  43. Uma donzela encontra na floresta uma perigosa serpente
  44. A hora é agora
  45. Porque – e ignoro quantas vezes terei de voltar
  46. Alcançar a individuação
  47. Eva recua
  48. Deus sabe
  49. O motor do conflito
  50. A grande revelação
  51. Transgredir
  52. A obra da serpente
  53. Onde está a maldade
  54. O que me faz lembrar
  55. A transfiguração do conflito
  56. Que são a imitação e o jogo de espelhos
  57. O que esta história existe para mostrar
  58. É por isso
  59. É o último momento
  60. Quando volto à recordação
  61. O efeito imediato
  62. Como numa comédia de erros
  63. Minha primeira transgressão
  64. É só do lado de cá
  65. A esse princípio
  66. Não nos deverá
  67. A coisa boa
  68. Se o conflito é a graça
  69. A transgressão original
  70. Transgredir é escolher
  71. No espaço recém-aberto da minha transgressão
  72. Em si mesmo nada há de terrível
  73. O conceito teológico
  74. Bastaria a morte
  75. A ambivalência do poder
  76. A maldição do pó
  77. Há algo de terrível na autodeterminação
  78. Minha disciplina pessoal mais antiga
  79. Essa crueza
  80. Não é completa
  81. Essas histórias
  82. Na noite de ontem para hoje
  83. O outro símbolo universal
  84. A serpente é mentirosa
  85. O primeiro desdobramento
  86. Foi mais ou menos nessa época
  87. Todas as lendas
  88. Minha convicção


Inquisição


Arquivos


Versões digitais dos manuscritos da Biblioteca do Monastério de São Brabo, nas Índias Ocidentais.
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