ABRAÃO: Na fornalha ardente
Ora, o rei estava profundamente irado com Abraão, e ordenou que ele fosse colocado na prisão, onde mandou que o guarda não lhe desse nem pão nem água. Porém Deus ouviu a oração de Abraão e mandou até o seu calabouço o anjo Gabriel. Por um ano o anjo residiu com ele e proveu-o de toda sorte de alimento; uma fonte de água fresca abriu-se diante dele, e dela Abraão bebia.
Ao final de um ano os maiorais do reino apresentaram-se diante do rei e aconselharam-no a lançar Abraão no fogo, para que o povo acreditasse em Ninrode para sempre. O rei então publicou um decreto ordenando que todos os súditos do rei em todas as suas províncias, homens e mulheres, jovens e velhos, trouxessem madeira por quarenta dias, a qual ele fez com que fosse colocada numa imensa fornalha e acendida. As chamas lançaram-se até o céu, e as pessoas ficaram absolutamente aterrorizadas diante do fogo.
Foi então ordenado ao guarda da prisão que trouxesse Abraão e o arremessasse nas chamas. O guarda lembrou o rei que Abraão não tinha tido comida nem bebida por um ano, e que deveria portanto estar morto, mas Ninrode queria vê-lo colocar-se diante da cela e chamar o seu nome. Se Abraão respondesse, o guarda deveria atirá-lo na pira. Se tivesse morrido, seus restos deveriam ser enterrados e sua memória completamente apagada dali em diante.
O guarda ficou estupefato quando ao seu grito “Abraão, você está vivo?”, veio a resposta “sim, estou”. Ele perguntou ainda:
– Quem lhe trouxe água e comida todo esse tempo?
– Comida e bebida – respondeu Abraão – concedeu-me aquele que está sobre todas as coisas, o Deus de todos os deuses e Senhor de todos os senhores, o único que faz maravilhas, aquele que é o Deus de Ninrode, Deus de Tera e Deus do mundo inteiro. Ele provê comida e bebida para todos os seus seres. Ele vê, mas não pode ser visto; está no alto no céu e está presente em todos os lugares, pois tudo ele supervisiona e em favor de todos provê.
O resgate miraculoso de Abraão da morte por inanição e sede convenceu o guardião da prisão da verdade de Deus e de seu profeta Abraão, e ele reconheceu publicamente sua fé em ambos. A ameaça do rei, de que o mataria se não abjurasse, não bastou para desviá-lo de sua nova e verdadeira fé. Quando o executor ergueu a espada e a pôs junto à sua garganta para matá-lo, o guarda exclamou:
– O Eterno é Deus: Deus de todo o mundo e também do blasfemador Ninrode.
Mas a espada não foi capaz de cortar a sua carne. Quanto mais forte era pressionada contra sua garganta, mais se fazia em pedaços.
Ninrode, no entanto, não estava disposto a abandonar seu propósito de fazer Abraão sofrer a morte pelo fogo. Um dos oficiais do rei foi enviado para trazê-lo da prisão. Porém mal tinha o mensageiro dado início à tarefa de atirá-lo no fogo, uma labareda projetou-se da fornalha e o consumiu. Inúmeras tentativas foram feitas de arremessar Abraão na fornalha, mas sempre com o mesmo resultado: aquele que agarrava era ele mesmo queimado, e muitas vidas foram perdidas.
Satanás apareceu em forma humana e aconselhou o rei a colocar Abraão numa catapulta, e dessa forma arremessá-lo no fogo; assim ninguém precisaria aproximar-se das chamas. O próprio Satanás construiu a catapulta. Depois de testá-la três vezes com pedras colocadas no mecanismo, amarraram Abraão pelas mãos e pelos pés, e estavam a ponto de consigná-lo às chamas. Naquele momento Satanás, ainda disfarçado em forma humana, aproximou-se de Abraão e disse:
– Se você quer salvar-se do fogo de Ninrode, ajoelhe-se diante dele e creia nele.
Mas Abraão rejeitou a tentação com as seguintes palavras:
– Seja o Eterno a repreendeer você, blasfemador maldito e sujo!
E Satanás deixou-o.
Então a mãe de Abraão veio até ele e implorou que ele prestasse adoração a Ninrode a fim de escapar do infortúnio iminente. Mas ele disse a ela:
– Mãe, a água pode aplacar o fogo de Ninrode, mas o fogo de Deus jamais se apagará.
Ao ouvir essas palavras, ela disse:
– Que o Deus a quem você serve o resgate do fogo de Ninrode!
Abraão foi finalmente colocado na catapulta, de onde ergueu os olhos para o céu e disse:
– Ah, Senhor, meu Deus, o senhor está vendo o que este pecador planeja fazer comigo.
Sua confiança em Deus era inabalável. Quando os anjos receberam permissão divina para salvá-lo, e Gabriel aproximou-se dele para perguntar “Abraão, posso salvá-lo do fogo?”, ele respondeu “O Deus em quem confio, o Deus do céu e da terra, ele irá me resgatar”. Deus, vendo o espírito de submissão de Abraão, ordenou ao fogo: “Esfrie, e tranquilize meu servo Abraão”.
Nenhuma água foi necessária para apagar o fogo. As toras irromperam em flor, e todas as diferentes espécies de madeira produziram fruto, cada árvore segundo a sua espécie. A fornalha transformou-se num régio jardim de delícias, e os anjos sentaram-se ali com Abraão.
Quando viu o milagre, o rei disse:
– Excelente feitiçaria! Você deixa manifesto que o fogo não tempo poder sobre você, e ao mesmo tempo mostra-se ao povo sentado num jardim de delícias.
Porém os oficiais de Ninrode se interpuseram numa só voz:
– Não, nosso senhor, não é feitiçaria. É o poder do grande Deus, o Deus de Abraão, além do qual não há deus. Nós reconhecemos que ele é Deus, e Abraão seu servo.
Todos os oficiais e todo o povo creram naquela hora em Deus, no Eterno, o Deus de Abraão, e exclamaram todos:
– O Senhor é Deus do céu e da terra, e não há outro.
Abraão era em tudo superior, não apenas ao rei Ninrode e seus assistentes, mas também aos homens piedosos do seu tempo, Noé, Sem, Éber e Assur. Noé absolutamente não se preocupava em propagar a verdadeira fé em Deus. Mergulhado em prazeres materiais, seu interesse era plantar sua vinha. Sem e Éber mantinham-se escondidos e, quanto a Assur, havia dito:
– Como posso viver no meio desses pecadores?
E partira em seguida da terra.
O único que permanecia inabalável era Abraão. “Não abandonarei a Deus”, ele dizia, e Deus por isso não o abandonava. a ele que não tinha dado ouvidos nem a seu pai nem a sua mãe.
O miraculoso livramento de Abraão da fornalha ardente, juntamente com sua fortuna posterior, foi cumprimento e explicação do que seu pai, Tera, havia lido nas estrelas. Tera tinha visto a estrela de Harã consumida de fogo, ao mesmo tempo em que enchia e reinava sobre todo o mundo. O significado agora era claro: Harã tinha uma fé irresoluta; não conseguia decidir entre Abraão e os idólatras. Quando aconteceu de aqueles que não adoravam os ídolos serem lançados na fornalha ardentes, Harã pensou consigo da seguinte maneira: “Abraão, sendo mais velho do que eu, será chamado antes de mim. Quando ele sair triunfante da prova de fogo, declararei minha fidelidade a ele”.
Depois que Deus resgatou Abraão da morte, quando chegou a hora de Harã fazer sua confissão de fé, ele anunciou sua adesão a Abraão. Porém mal se aproximara da fornalha quando foi tomado pelas chamas e consumido, porque sua fé em Deus não era firme. Tera tinha lido bem as estrelas, ficava agora claro: Harã fora queimado, e sua filha Sara tornou-se esposa de Abraão, cujos descendentes enchem a terra.
A morte de Harã foi digna de nota em outro sentido: foi a primeira vez, desde a criação do mundo, em que um filho morreu enquanto seu pai era vivo.
O rei, os oficiais e todo o povo, que tinham testemunhado as maravilhas realizadas por Abraão, vieram até ele e prostarem-se diante dele. Porém Abraão disse:
– Não se ajoelhem diante de mim, mas de Deus, Mestre do universo, que os criou. Sirvam-no e andem nos seus caminhos, pois foi ele quem livrou-me das chamas; foi ele quem criou a alma e o espírito de cada ser humano, e é ele que forma o homem no útero de sua mãe e o traz ao mundo. Ele salva de toda enfermidade os que colocam nele a sua confiança.
O rei então dispensou Abraão, depois de enchê-lo com uma abundância de presentes preciosos, entre os quais dois escravos que haviam sido criados no palácio real. Um deles se chamava ‘Ogi, o outro Eliezer. Os oficiais seguiram o exemplo do rei, e deram a Abraão prata, ouro e pedras preciosas. Porém nem todos esses presentes alegraram o coração de Abraão tanto quanto os trezentos seguidores que juntaram-se a ele e aderiram à sua religião.
* * *
Lendas dos Judeus é uma compilação de lendas judaicas recolhidas das fontes originais do midrash (particularmente o Talmude) pelo talmudista lituano Louis Ginzberg (1873-1953). Lendas foi publicado em 6 volumes (sendo dois volumes de notas) entre 1909 e 1928.
Lendas dos judeus
- As primeiras coisas criadas
- O alfabeto
- O primeiro dia
- O segundo dia
- O terceiro dia
- O quarto dia
- O quinto dia
- O sexto dia
- O sexto dia, continuação
- Todas as coisas louvam ao Senhor
- O homem e o mundo
- Os anjos e a criação do homem
- A criação de Adão
- A alma do homem
- O homem ideal
- A queda de Satanás
- A mulher
- Adão e Eva no Paraíso
- A queda do homem
- A punição
- O sábado no céu
- O arrependimento de Adão
- O livro de Raziel
- A doença de Adão
- Eva narra a história da queda
- A morte de Adão
- A morte de Eva
- O nascimento de Caim
- Fratricídio
- A punição de Caim
- Os habitantes das sete terras
- Os descendentes de Caim
- Os descendentes de Adão e Lilith
- Sete e seus descendentes
- Enos
- A queda dos anjos
- Enoque, governante e mestre
- A ascensão de Enoque
- O traslado de Enoque
- Matusalém
- O nascimento de Noé
- A punição dos anjos caídos
- A geração do dilúvio
- O livro santo
- Os ocupantes da arca
- O dilúvio
- Noé sai da arca
- A maldição da embriaguez
- Os descendentes de Noé espalham-se pelo mundo
- A depravação da humanidade
- Ninrode
- A torre de Babel
- As gerações perversas
- O nascimento de Abraão
- O bebê proclama Deus
- A primeira aparição pública de Abraão
- O pregador da verdadeira fé
- Na fornalha ardente
- Abraão emigra para Harã
- A estrela no oriente
- O verdadeiro crente
- O iconoclasta
- Abraão em Canaã
- Sua estadia no Egito
- O primeiro faraó
- A guerra dos reis






