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Minha primeira transgressão foi pura e casta e devota e bem-intencionada, mas ninguém é perfeito e todos devem começar por algum lugar. Minha primeira transgressão foi deixar o conforto da igreja institucional a fim de denunciar os perigos da serpente que eu sabia que morava ali dentro.
O conflito surgira antes, naturalmente, no momento em que meus olhos se abriram para o fato de que a serpente estava ali, no meio de nós, e ninguém além de mim parecia ser capaz de perceber. O protagonista não precisa de nada (e eu de nada precisava e de lugar algum queria sair), até que entra em cena o conflito.
Abracei a transgressão porque intuí, tomado de terror e depois de procurar por uma longa agonia adiar o inevitável, que ninguém acreditaria que a serpente estava na instituição enquanto eu mesmo permanecesse nela. Minha postura deveria necessariamente acompanhar a seriedade do meu alerta. Afastei-me porque alertei sobre o perigo da serpente, e afastando-me e alertando transgredi.
Isso aparece claramente no meu sonho quando tomo a serpente pela cabeça, saio com ela da sala e meus amigos fogem de mim, ultrajados não diante da serpente (que não podem ver) mas da minha súbita diferenciação.
O sonho não é alegoria: só a mitologia pessoal pode atribuir sentido a ele, e eis a minha.
Eu sabia que estava fazendo algo nobre e justo e bom, e a única coisa que me permitia sem ambiguidade a consciência. Mas, como ninguém sabe antes de transgredir, as boas intenções não são livres de ambivalência, o avanço da narrativa exige conhecer o bem e o mal, e a serpente é insidiosa.
Porque, evidentemente, alertar sobre os perigos da serpente é o mesmo que ceder ao seu engodo.
Alertar é o mesmo que afirmar-se melhor; é o mesmo que condenar, e ninguém condena impunemente, sem acabar se tornando ele mesmo motivo de repreensão. Alertar, condenar e repreender são rodeios bem intencionados para afirmar-se Deus (“vocês serão iguais a Deus”) sem ter qualquer ferramenta para sê-lo. É vestir a máscara da acusação, pela qual nos tornamos um com a serpente e aceitamos candidamente a sua oferta. Eu efetivamente passara a dizer aos outros que ser igual a Deus é ser igual a mim.
É por isso que quando recebo a afetuosa picada da serpente, no último instante do sonho, sou forçado a perceber que havia me tornado indistinguível dela. Eu me transformara naquilo que dedicara uma virtuosa cruzada a denunciar.
Eu conhecera o bem e o mal.
Nasce um homem
- Era uma vez
- Adão era
- A teoria literária
- Para mim
- Se havia improvável graça
- O conflito que anima uma história
- A primeira blasfêmia
- Eu sentia ser minha obrigação
- Como demonstrado exemplarmente por Jesus
- De todos os detalhes
- A distinção mais antiga
- O homem em pé no centro
- Quando levantei-me do lugar
- Ele tinha o mundo natural aos seus pés
- Dois ou três personagens não bastam
- A proibição extrai seu poder
- Para caracterizar uma tragédia
- Pisei no andar térreo
- Você pode comer
- Um professor errante depara-se com um homem cego
- Nenhum outro elemento da trama
- Toda história sobre transgressão
- De todos os sonhos de que me recordo
- Não devemos deixar
- A chave, obviamente
- É curioso notar
- Para começar
- Neste ponto
- Com a entrada da serpente
- Dos enigmas da serpente
- Porém quando percebo
- A serpente é astuta
- A narrativa é límpida
- A serpente permanece um enigma
- Quando olho tempo suficiente
- O silêncio da história
- Outro resultado
- Individuação
- É o momento decisivo
- A ausência divina
- É uma pista falsa
- Não se trata
- Uma donzela encontra na floresta uma perigosa serpente
- A hora é agora
- Porque – e ignoro quantas vezes terei de voltar
- Alcançar a individuação
- Eva recua
- Deus sabe
- O motor do conflito
- A grande revelação
- Transgredir
- A obra da serpente
- Onde está a maldade
- O que me faz lembrar
- A transfiguração do conflito
- Que são a imitação e o jogo de espelhos
- O que esta história existe para mostrar
- É por isso
- É o último momento
- Quando volto à recordação
- O efeito imediato
- Como numa comédia de erros
- Minha primeira transgressão
- É só do lado de cá
- A esse princípio
- Não nos deverá
- A coisa boa
- Se o conflito é a graça
- A transgressão original
- Transgredir é escolher
- No espaço recém-aberto da minha transgressão
- Em si mesmo nada há de terrível
- O conceito teológico
- Bastaria a morte
- A ambivalência do poder
- A maldição do pó
- Há algo de terrível na autodeterminação
- Minha disciplina pessoal mais antiga
- Essa crueza
- Não é completa
- Essas histórias
- Na noite de ontem para hoje
- O outro símbolo universal
- A serpente é mentirosa
- O primeiro desdobramento
- Foi mais ou menos nessa época
- Todas as lendas
- Minha convicção




