14 de Janeiro de 2009

Lugar comum

Entregue em consignação por   Paulo Brabo

 

Estocado em Manuscritos

Da massa de coisas de que não gostava e era obrigada a fazer, das coisas que não diziam ao mundo quem ela realmente era – ao contrário, passavam a mensagem inversa, – andar de metrô talvez fosse a mais degradante. Era preciso ser superficial como adolescente ou como turista para não enxergar na calha comunal do metrô a mais descaracterizadora, a mais vexatória das experiências. Saber-se, simplesmente saber-se, um elo na malha de carne que move os intestinos da cidade. Assim, sem metáfora alguma. Era a coisa mais desfigurante, e tornado tanto mais pela absoluta crueza da coisa, pelo espetáculo de contemplar a procissão dos desfigurados e saber que seus olhos não possuem qualquer vida a mais do que os deles. Eram todos irmãos ali na vala comum, todos espelhos e companheiros de prisão, mesmo os mais fortes e desembaraçados, mesmo os mais elegantes. Com o tempo todos desabam, todos têm a testa contra o vidro frio e o gosto de baba seca nos lábios.

Mas há túneis e estações, há mortos que sobem e vivos que descem, e um dia ela o viu, aquele que jamais tinha visto, e olharam-se ao mesmo tempo (reza a lenda que ela mesmo teceu que se não tivessem se olhado ao mesmo tempo nada teria acontecido; o mundo teria voltado, ignorantemente, a rodar), e na barata eternidade que era a tarde de algum sábado nada mais havia que não o poço sem fundo do coração. Num instante a experiência horizontal se verticalizara ao inconcebível; nunca tinham se visto, mas agora estavam olhando um para o outro.

Ela teve de esquecer a casa de campo e o jardim de açucenas com que se distraía do livro cego na sua frente, porque dois ou três metros de ar poluído separavam-na de um ser humano; ele estava vivo, e ela finalmente reconhecia que a vida que viera arrastando atrás de si, como um roto apêndice, era vida nenhuma, mas mero eco do vento dos vapores de sonho que escapavam do quarto proibido, silente e acolchoado em que sua sósia louca nutria o devaneio de um dia encontrá-lo. Uma lágrima desceu-lhe sem intervalo algum, como que do rosto de outra pessoa, e dois segundos depois estavam de mãos dadas e ela lhe sentia o calor, e não havia espaço se não para lugares-comuns.

– Como eu procurei por você – ele disse, e com um repuxar dos olhos ela fez sinal que ele nada deveria dizer; como se conhecessem há decênios, como se já tivessem sido rilhados pela convivência e pela familiaridade, ele entendeu de imediato e calou, mas seus olhos e suas mãos não cessaram de maravilhar.

Era impossível que se reconhecessem, em especial porque nunca haviam se sonhado; eram, um para o outro (ela sabia que era recíproco) mais alheios e alienígenas do que esperanças, porque esperanças nos perseguem, renascem como ervas daninhas depois que as dizimamos por completo, e isto era algo para o qual não havia nome e para o qual esperança alguma jamais brotara. Estava tudo, ela entendia, no rosto dele, numa solene geografia que resolvia as ânsias que ninguém além dela seria capaz de interpretar. Ele tinha o rosto mais cansado do que qualquer pessoa que jamais considerara atraente, mais quebrantado e exaurido do que bonito, mas era sem qualquer dúvida ele – ainda que ela não soubesse quem era o ele que reconhecia e não conhecesse o ele que tinha diante dos olhos, ou fosse capaz de indicar qual certeza os tornava idênticos. Era possível olhar, mas não explicar ou entender. Era como encontrar o mapa só depois de esbarrar no destino, e ela gostaria de ter juntado as palavras de modo a exprimir isso.

– Quais são as chances – foi tudo que conseguiu dizer, levando a mão à boca, mão que ele imediatamente removeu na concha da sua, porque não queria refrear o gozo de entender sem entender o rosto dela.

Nos quinze minutos que passaram juntos entreviram um no outro traços de uma existência prévia que não puderam entender por completo, recém-nascidos que eram. Ambos eram casados (suas alianças se roçaram, clicando recatadamente, por um instante); ela trazia três minúsculas meninas de metal numa corrente do pescoço, e ele tinha a foto de um menino na carteira. Ele não ousou perguntar, mas ela talvez fosse professora; ele tinha mãos enormes, e ela imaginou que ele poderia ser qualquer coisa, de executivo a poeta a matador de gigantes.

Ele desceu numa estação e ela na seguinte, e esqueceram quase imediatamente um do outro, porque não tinham tido tempo suficiente para se memorizarem.



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Arquivos


Versões digitais dos manuscritos da Biblioteca do Monastério de São Brabo, nas Índias Ocidentais.
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